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Sem Asas ao Amanhecer
Luciana Scotti

Dedicatria:

Dedico este livro  pessoa mais espectacular que conheo,
meu muito amado irmo
Marcus Tullius

Orelha do Livro:

"Voc tem agora em suas mos dois sonhos: o sonho de uma
editora e o de uma escritora.
H quase um ano atrs, O Nome da Rosa procurava-se construir
de maneira diferente, buscando idias e vida para veicular
entre seus leitores. H quase um ano tambm, uma menina-mulher
procurava algum que publicasse seu livro, escrito com muita
dificuldade.
Conheci Luciana j numa cadeira de rodas, sem poder falar. O
brilho que vi imediatamente em seus olhos foi a confirmao de
que nosso encontro j estava predestinado.
E trabalhamos duro, durante meses, uma colada  outra, para
fazer vingar nossas vontades. Para editar o extenso material
que Luciana havia escrito durante 3 anos, no podamos
depender da cartela de sinais que ela usa para soletrar suas
idias. Alm de nossos encontros quase semanais do contacto
fsico gostoso e carinhoso, comeamos a nos comunicar pelo
computador, conectadas pelas redes da Internet. Trocamos
idias, textos, comentrios, revises e at segredos.
Assim, fui conhecendo Luciana, sua intimidade, seus
pensamentos, suas emoes, sua voz _ e como falar,  exigente,
inteligente e divertida, essa menina! Conheci, na verdade, uma
grande guerreira.
Para realizarmos nossos sonhos temos realmente que trabalhar
muito. E devemos tambm nos apoiar nos anjos e aprender a voar
sob suas asas. Quero aqui agradecer, pela editora O Nome da
Rosa, os anjos que nos guiaram e tornaram esses nossos sonhos
possveis. Um beijo no corao dos anjos Raul de Souza, David
Knobel, Paulo Roberto Sadr e Roberto de Souza. E um beijo no
corao de Maria Izabel dos Santos Souza e Mrcia Knobel.
Graas aos anjos e a vocs, leitores, Luciana Scotti poder
ter um futuro.
E, sem dvida, como uma activa escritora."

Anticapa (capa traseira)

Comentrio de Ana Maria Braga (apresentadora da televiso
brasileira)

"Ao terminar a leitura deste livro, fiquei emocionada. As
palavras de Luciana Scotti confrontam a fora dos factos reais
com a leveza de suas imagens poticas. So fantasias
idealizadas por uma menina, passagens experimentadas por uma
adolescente, situaes vivenciadas por uma mulher.
Identificamos um pouco das nossas expectactivas e frustraes
no depoimento dessa jovem autora, que d um verdadeiro exemplo
de perseverana ao enfrentar um acidente vascular cerebral
(AVC) que mudou toda a sua vida.
Quando recebi Luciana no meu programa, ela trouxe em suas mos
projectos deste livro que escreveu muito lentamente, por
digitar com apenas um dedo da mo esquerda. A trgica inverso
de vida por que passou toda a trajectria que vem percorrendo
desde ento com tamanha fora de vontade, com tamanho gosto
pela vida me deixaram perplexa.
Penso que um caso como este deve nos estimular para seguirmos
nosso caminho com alegria e determinao.
Tambm tive uma amiga imaginria a quem recorria para fazer
minhas confidncias. Ao vasculhar meus dirios deparei com um
pensamento que registei em uma passagem no muito feliz de
minha vida. Quis reproduzi-lo aqui, como uma dedicatria
especial para Luciana. A vai:

Sinto alguma dificuldade para sustentar-me. Gostaria de ir
pelo ar com grande velocidade, correr entre as nuvens,
encontrar-me com os anjos.

Voc me fez voltar ao passado e esse foi um doce retorno. Que
os guardis celestes te conduzam rumo  felicidade! Participo
desta realizao com a certeza de que muitas outras se
seguiro."
Ana Maria Braga

Agradecimentos:

           Antes de tudo agradeo aos meus pais, pelo
incentivo, apoio e ajuda. Sem eles, nada seria possvel.
           Minha adorvel amiga Luciana Knobel, obrigada por
estar sempre presente, ser companheira e solucionadora.
           Fico imensamente grata ao meu querido Srgio
Preuss, meu sbio auxiliar desde que este livro era s um
sonho, e ao grande amigo Henrique Joji. Sei, por estar sempre
ao meu lado, nos momentos em que mais necessito de seu apoio.
           Obrigada, minha prestativa amiga Matilde Gabriel,
por vir suprindo com tanta dedicao as limitaes a que estou
sujeita.
           Agradeo ao Sr. Abrao Worcman, por ter sido o pai
desta idia, e ao casal Regina e Florestan Fernandes Jr., por
me incentivarem a escrever.
           Agradeo tambm  Ana Maria Braga, por ter me
aberto as primeiras portas para eu ter este sonho realizado.
     A David Knobel e Mrcia Knobel que me ajudaram como
puderam desde o princpio, principalmente na concretizao de
meu livro, meu mais profundo carinho e agradecimento. Ainda
no os conheo pessoalmente, mas h muito tempo essas duas
pessoas maravilhosas moram no meu corao.
      minha editora e muito amiga Tula Melo, que tornou esta
obra concreta e plena, meu carinho e meu muito obrigada por
tudo.
           Por fim, agradeo a todas as pessoas que fizeram
parte da minha vida e, neste livro, me permitem contar um
pouco de minha histria. No se preocupem, pois aqui vocs
esto como personagens, com nomes fictcios e com suas
verdadeiras identidades plenamente preservadas.

      Ao meu leitor

     Aos 12 anos fiz de Juliana minha confidente querida. Ju,
como gostava de cham-la, ouvia, sem contestar, tudo o que eu
lhe contava, quase todos os dias, desde as pequenas at as
grandes aventuras que eu ia experimentando. Pginas e mais
pginas escritas, cercadas de desenhos, fotografias, bilhetes,
flores secas, rabiscos, coraes. Em 1990, com 19 anos e
apaixonada, parei de contar minhas histrias para essa doce
amiga: eu s tinha tempo mesmo para viv-las. Juliana acabou
esquecida nas gavetas da memria, enquanto minha vida
continuava, esperando somente o tempo de ser feliz.
     O dia 2 de maio de 1.994 poderia ter sido como todos os
outros. Alis, no houve sinal algum de que seria diferente.
Era realmente um dia como outro qualquer e no dei grande
importncia  luz do Sol ou  das estrelas. Muitas, mas muitas
vezes desejei contar esse dia comeando pela frmula mgica:
"Era uma vez..." Desejei transformar tudo numa iluso
fabulosa, no feitio desfeito pelo beijo do prncipe, somente
para poder terminar dizendo: "E Luciana foi feliz para
sempre..."
           Nesse dia, fui trabalhar cedinho, como sempre
fazia. Na sada, peguei meu irmo mais novo na faculdade e, 
noitinha, j estava em casa. Minha me e eu tnhamos combinado
dar um pulo ao shopping; afinal O Dia das Mes estava
chegando. Enquanto escovava os dentes, senti uma tontura muito
forte e imediatamente entrei em convulso. S deu tempo de
gritar "SI" Fui levada imediatamente para o pronto-socorro e
acordei quase dois meses depois.
           Em coma, a gente sonha: tambm ouve o que se fala 
nossa volta. No, no me lembro de ter visto o filme da minha
vida passando em segundos, nem um tnel com luz brilhante ao
fundo. Mas me lembro especialmente de uma frase que chegou de
longe e foi ressoando claramente em meus ouvidos.
           - Luciana, t todo mundo l fora te esperando...
           Todo o mundo? Todo o mundo. Minha vida esperava
tambm por mim, para continu-la. Continuar a vida ou outra
vida?
           Hoje estou tetraplgica. No me movimento. Tambm
no falo. Apenas o lado esquerdo do meu corpo se mexe...
pouco, muito pouco. Quase nada. Mas, principalmente, no falo.
Escrevo num computador, soletro o que antes eram idias geis
e palavras afiadas. Soletro esta histria, minha histria: "
uma vez...."
           E chamo por Ju. Onde estar ela?! Agora que no sou
mais criana, quem me contar esta histria? Quem me dir que
no foi bem assim que aconteceu? Quem poder me garantir que
eu serei feliz, bem feliz?!
           Pelos traos que deixei nas folhas dos cadernos
engavetados, sei que posso ter de volta minha vida, meus
movimentos, e at, quem sabe, a minha prpria voz. Digo isso
porque sei que escrevo ainda como uma colegial, conservando o
tom dessas histrias de adolescente escritas no dirio. So
histrias da minha histria, de uma adolescente encantada com
a vida, que no pde impedir que sua histria se partisse.
            verdade que no perdi a memria. Lembro-me de
tudo o que me aconteceu. O problema  justamente esse! Que
sentido dar agora a esses 22 anos preparados somente para um
maravilhoso "E viveram felizes para sempre..."?
           Agora, espero por Juliana. Preciso que essa amiga
confidente v me devolvendo uma parte de minha vida, para que
eu possa ir, pouco apouco, me adaptando a este rumo
inesperado. Preciso continuar..
           Aqui e ali copiei pedaos do meu antigo dirio,
contei as novidades, recontei meus sonhos e encarei meu
pesadelo. A Luciana Scotti falou do passado, das pessoas e dos
factos, mas eu ainda estou aprendendo afalar. Deste jeito
soletrado, engasgado, careteado, babado, vomitado. Do jeito
que  possvel. Perdi a voz, mas as palavras presas no meu
corpo no esto mudas. So palavras de todos os tipos:
revoltadas, esperanosas, desesperadas, amorosas, infelizes,
invejosas, agradecidas... Se elas fossem pssaros, eu diria
que esto batendo asas dentro de mim.

Parte 1

UMA VIDA ESCONDIDA

Dia 7 de maro de 1996

 Querida Juju,
      
      Sei que no preciso lhe contar minha vida de
adolescente; afinal, foi voc quem ouviu todas as confisses,
intercaladas de sonhos e projectos mirabolantes. Mas preciso
voltar para voc e, como duas amigas que se encontram depois
de muito tempo, ficar repetindo:
      -   Lembra-se daquele dia? E daquele outro?
      Acredito que voc possa ir me ajudando a lembrar uma
parte de mim que tem a guardada, hoje extremamente importante
para eu poder me entender. A outra parte, dos 19 aos 22 anos -
a mais bonita e aquela de que tenho mais saudades -, eu vou
lhe contando devagar. Tenho tempo, muito tempo para isso
agora...
      J se passaram quase dois anos do acidente, da
fatalidade. Engraado, parece que ainda estou parada l nos 22
anos... Parada estou mesmo, em todos os sentidos. Foram 22
anos agitados, entre brincadeiras, amigos, colgios; depois
escolhi uma profisso e cursei uma universidade; tive alguns
namorados e, algumas vezes, me apaixonei. Essa poderia ser uma
histria como tantas outras, mas no  . Simplesmente porque 
a minha histria.
       claro que o final feliz que imaginei para a minha
histria tambm poderia ser confundido com muitos outros:
encontrar algum a quem amar, algum que me amasse, construir
uma famlia e compartilhar minha vida, ter segurana, carinho,
conforto, tudo... Eu nunca quis pouco. Pensando assim, poderia
tentar me convencer de que perdi somente sonhos e planos para
o futuro. Acontece que, se um futuro  sempre feito de planos,
quando os sonhos se desmancham no ar, o futuro tambm se
desfaz. E ento me desespero! Que outro futuro posso construir
para mim?
      Veja s em que enrascada estou metida! Imagine ficar
tetraplgica e muda, em uma poca em que a vida comea a lhe
sorrir e o mundo est todo para ser descoberto! Voc aprende a
andar, falar, nadar, danar... Estuda anos e anos para
construir uma carreira. Briga com Deus e com as pessoas para
se tornar independente. Faz amigos dia a dia, acreditando que
nunca faltaro em uma hora de dificuldade.
      Uma noite, sonhei que encontrava uma garota igual a mim.
Passevamos juntas, e ela me dizia:
      - Est vendo, sua trouxa?! De que adiantou aprender a
nadar, andar de bicicleta, de patins, fazer uma faculdade,
estudar tanto, namorar, ter sonhos? Nada!
      No sonho, eu ria dessas palavras, do jeito dbio do
discurso, mas acordei chorando. Ento, me dei conta de que
havia sonhado com uma verdade terrvel: ser que nada valeu a
pena?
      Ju, voc se lembra como eu queria me mover para a frente
neste mundo? Sempre tive bom senso, gostava de estudar e amava
estar viva. Mesmo assim, com tanta coisa positiva, no evitei
a tragdia. Poderia ter acontecido com qualquer um. Poderia
ter sido com voc. Mas foi comigo!
      Hoje, tenho minha vida partida em duas. Gostaria que
amanh algum viesse at mim e dissesse:
      - Acabou o pesadelo, pode respirar aliviada, pois esse
sofrimento todo foi um equvoco...
      E, como um condenado aflito que espera a forca ao raiar
do dia, em vez da morte ganharia a liberdade. Olho ao redor,
durmo e acordo, e nada indica que houve um equvoco; vivo a
vida de um condenado cuja sentena  a priso perptua...
      Lamento, amiga! Minhas comparaes so assim, meus
sentimentos danam diante de todas as portas fechadas. Vo da
gargalhada ao grito de horror. Da garota sonhadora  mulher
desesperada.  claro que do ponto de vista da garota, do ponto
de vista dos sonhos, o desespero  ainda maior. Escrevo deste
lugar desesperado em que me encontro agora, para ver se os
sonhos ficam resguardados apenas como sonhos, como uma espcie
de fico. Sei que no vai ser fcil. Para a Luciana que voc
conheceu, os sonhos eram, como j falei antes, o seu futuro.
      Em 1984, quando comecei a escrever para voc, chamei-a
de Juliana, um nome que sempre achei bonito.  verdade que
agora voc toma uma forma bem diferente daqueles cadernos de
capa dura. Hoje voc est ganhando uma roupinha nova, virou um
arquivo do meu computador, um lap-top, um presente muito
bem-vindo. No entanto, apesar de ns duas estarmos diferentes,
voc continua sendo minha confidente querida, e me arrependo
de t-la abandonado. No posso mais te rabiscar, te desenhar
ou te colorir, como fazia antes. S posso ir soletrando esta
histria. "Soletrar" quer dizer "digitar", letra por letra
mesmo, pois escrevo muito devagar e no sei como vai terminar
toda esta soletrao. Nem sequer imagino como vai acabar esta
histria...
      Como o ser humano  frgil! Em apenas um segundo tudo
pode mudar. E foram necessrios poucos segundos para me ver
transformada. Uma vez ouvi um homem dizer que todo o mundo 
um portador de deficincia em potencial...  evidente! Se no
fosse, eu no estaria aqui!
      Tive duas paradas cardiorrespiratrias. Fiquei mais de
um ms em coma. Passei por trs pneumonias, fui submetida a
uma traqueostomia e a uma transfuso de sangue. Usei guedel -
um aparelho que se pe na boca e di demais - sofri duas
cirurgias no crebro e fiquei vrios dias em UTIs. Recebi a
extrema-uno. Acho que um acidente vascular cerebral (AVC) 
a pior coisa que pode ocorrer a um ser humano. No imagino
coisa pior. Talvez ser enterrado vivo seja pior. Mas
sobrevivi. Sobrevivi porque lutei pela vida; no por esta
vida, mas pelo que eu conhecia da vida, da maravilha que
sempre foi. Da vida dos versos do Gonzaguinha. A vida podia
ser bem melhor...

           Mas isso no impede que eu repita
      que  bonita,  bonita e  bonita!
      
      Vida para mim so as coisas simples: caminhar em um dia
de Sol, falar ao telefone, comer decentemente, vestir-me,
tomar banho sozinha, escrever meu nome no espelho do banheiro
com o vapor da gua, folhear com naturalidade uma revista,
assoprar a vela do bolo de aniversrio. Olhar-me no espelho e
no me odiar, pentear o cabelo, escovar os dentes, comer um
pozinho fresquinho... e mais umas mil coisas, que vo desde
calar os sapatos at dirigir. Voc j vai entender por que
falei de coisas to triviais. O trivial  hoje para mim algo
muito raro.  que nada disso posso fazer; nem mesmo vou ao
banheiro sozinha. Quero um dia voltar a deixar meus ps
marcados na areia duma praia, ou pedir um copo de gua com a
minha prpria voz, ou ainda, fantasticamente, levantar-me e ir
apanh-lo.
      No morri. E no pretendo me matar. Mas a Luciana
Scotti, aquela que amava a vida, morreu no dia 2 de maio de
1994. No entendi por que no quiseram enterr-la...
Contraditrio... Ela se foi, mas, ao escrever, estou lhe
dizendo que ela est viva. Estranho... Escrevo talvez para
dizer adeus a ela. Algum me disse que ela foi vista brilhando
no mel dos meus olhos. No sei. S sei que nunca mais vou ver
o mundo com o colorido que eu via, e mesmo o prmio de
consolao pode ser inatingvel para mim.
      Os mdicos sabiam como eu iria ficar, e  a que reside
minha maior revolta! Acho que foi desumano. Pegaram uma pessoa
que andava e colocaram-na sobre uma cadeira de rodas,
amaldioaram algum que falava "pelos cotovelos" a ficar muda;
transformaram uma loira em morena, uma mulher bonita em uma
feia; substituram um corpo escultural por outro
irreconhecvel; reduziram 50 quilos a somente 33; tornaram uma
mulher cheia de sonhos, com uma carreira pela frente, em uma
intil que no tem direito a nada, a no ser a uma
aposentadoria; condenaram uma jovem que dirigia, danava,
fazia amor, a ter uma vida restrita a sesses de fono e
fisioterapia (que ela odeia); deixaram a algum que tinha um
monte de amigos e admiradores apenas a famlia; impuseram a
uma pessoa que tinha uma sade de ferro, viver cheia de
remdios e vomitando... Ser que isso no  brincar de Deus?
Como  que puderam optar por tudo isso sem a minha opinio?
      Eu no tive escolha. Jogaram-me no mundo assim e parece
que disseram:
      - Te vira!
      Estou me virando. Percebi que sempre me volto para o
passado. A cada segundo, imagino o que faria se fosse a mesma
de antes. Antes... quando andava buscando a felicidade que j
possua e no sabia. Agora no tenho muitas opes. E 
covardia demais me matar. E me matar de que maneira? Nem tenho
como me matar. Por que ser que as pessoas se matam?
      Vidinha besta esta minha agora, sem alegrias, sonhos,
farras, realizaes... So dias, semanas, meses, anos, todos
iguais, ociosos e montonos. No a monotonia do dolce far
niente, mas a monotonia do desespero.
      Fico pensando nos paraplgicos...  bem verdade que
perdem parte da sensibilidade, coisa que no perdi; mas como
queria ser um deles... Queria empurrar minha prpria cadeira
de rodas, falar com as pessoas, ter a mesma aparncia e ser
saudvel, ao menos da cintura para cima. Tambm no tenho essa
escolha.
      Parece loucura minha, mas fico horas pensando nas
inmeras coisas que faria se fosse paraplgica. Sei que para
eles deve parecer uma grande tragdia. No lhes tiro a razo.
 realmente trgico no mais danar, andar, correr... Mas
imagine minha situao: alm de todos os impedimentos dos
paraplgicos, mudar de aparncia, no ter postura, no falar,
no mexer os braos, no dirigir, no fazer amigos, no
trabalhar, no poder estudar....
      So discriminados socialmente? Por uma sociedade que no
v que qualquer um pode tomar um tiro hoje e ficar deficiente
amanh? Mas ser paraplgico, para mim, , simplesmente, o
mximo. Quando eles chegam na clnica, dirigindo um carro
adaptado, logo se entrosam com todo o mundo, falam, so
vaidosos, namoram, bebem, fumam, viajam com os namorados,
fazem amor, estudam, trabalham, cantam... e me matam de
inveja.
      Minha me diz que  feio sentir inveja, ento procuro
outra palavra que traduza o que sinto. Algo assim como um
"queria ser voc!". Por que no sentir inveja de quem anda e
fala normalmente? Vou tentar explicar... Eu e os paraplgicos
temos coisas em comum: o azar, a cadeira de rodas, a
fisioterapia, a impossibilidade de andar. Mas, dentro do azar,
posso dizer que eles tm sorte. Os paraplgicos tm vida.
Existe neles uma fora que a maioria das pessoas deveria ter:
a fora da vida. So uns vencedores. Brigam por seus direitos,
decidem, discutem, expem suas opinies. So figuras activas
na sociedade, embora, no nego, sofram muito preconceito.
Agora eu? O que vejo em mim? No sou uma pessoa que desperta
bravura. Inspiro pena. No falo, no decido nada, no exponho
idias... Socialmente, sou um zero  esquerda. No tenho
nenhum prazer, e muito menos a fora da vida.
      Pareo um papagaio repetindo sempre que perdi os amigos,
os amores, o trabalho, a beleza, os movimentos, a fala... Mas
voc j imaginou o que  perder tudo de repente? Aos 22 anos?
Pode ser mil vezes pior do que voc imagina. Por isso tenho
inveja dos paraplgicos, fao um balano entre os prazeres que
eles ainda podem ter e o que no tenho mais. Quando me
pergunto hoje se vale ou no a pena viver paraplgico,
respondo que vale a pena, sim. Enormemente.
      
           Dia 19 de maro de 1996
      
      Oi, Juju!
      
           Outro dia estava lhe falando de morte, no ? Mas a
morte nem sempre  fsica, sabia?
      No domingo, dia 1 de maio de 1994, vi o Ayrton Senna
morrer. Nem imaginava que no dia seguinte quase seria eu a
prxima vtima. Vtima de um tipo diferente de morte, mas
morte...
      Na segunda, acordei, me vesti e fui trabalhar. Trabalhei
o dia todo, no senti nadinha de anormal, nenhum sinal de
alerta. No fim da tarde, como j mencionei, fui buscar meu
irmo na USP, para irmos para casa. Chegando em casa, antes de
sair para o shopping com mame, subi at o banheiro para
escovar os dentes. Senti uma forte tontura e gritei por
socorro.
      Quase imediatamente entrei em convulso. Convulso  uma
tremedeira mais conhecida por ataque epilptico.  uma
sensao horrvel! Ainda bem que nunca mais tive convulso -
restaram os anticonvulsivantes, que tenho que suportar pelo
resto da vida. Eu tentava controlar meus movimentos, mas os
msculos no paravam de tremer. Minha famlia ficou apavorada.
Meu pai massageava meu corao. Meu irmo cuidava para eu no
morder a lngua, colocando uma escova de dentes na minha boca.
Enquanto isso, minha me ligava para o Resgate.
      No sei como, mas Nilza e Mrcio, filho dela,
apareceram, e ele me pegou no colo. O marido da Andresa, Lus,
j veio com o carro. Todos eram vizinhos com quem tnhamos
amizade. So mais que vizinhos, so queridos amigos de quem
at hoje recebo muito carinho e apoio. Nunca pensei que essas
pessoas seriam to prestativas e que eu fosse precisar tanto
delas. Eu quase no conseguia falar e, naquela confuso, no
sabia se minha famlia viria atrs do carro ou no. S sei que
Mrcio me ps no carro do Lus, e fui para o Pronto-Socorro
Municipal de Santana com a Nilza. No caminho, eu pedia calma
com a mo, no tinha a mnima idia do que estava por vir.
      Agora entendo por que, em um pronto-socorro municipal,
onde a fila  sempre enorme, com tanta gente esperando para
ser atendida, eu entrei logo... Colocaram-me em uma maca e
levaram-me directo para ser examinada. Na saleta do mdico,
havia algumas enfermeiras que delicadamente tiraram meu
relgio, minhas pulseiras, anis, gargantilha e brincos, e
deram depois para minha me. Precisavam ser delicadas para eu
no me machucar, pois meu corpo trepidava.
      Minha famlia me achou no pronto-socorro, depois de
percorrer todos os hospitais da regio. Lembro-me de minha
me, parada ao lado de minha maca, e eu me perguntando quem
estava segurando na minha mo. Com os olhos fechados e com
muito esforo, s conseguia falar mame e papai. Ironicamente,
as primeiras palavras que aprendi e quase as ltimas antes de
encerrar uma vida...
      A convulso continuava, tentaram fazer um
eletrocardiograma, mas eu tremia demais e no conseguia
ajudar, por mais que tentasse.
      De repente ouvi algum dizendo:
      - Sou o mdico da Luciana Scotti, sou mdico da famlia.
      Eu nem imaginara que minha famlia havia ligado para o
nosso mdico e ele iria mandar seu genro para me acompanhar.
      Abri meus olhos, vi um homem moreno, de cabelos curtos,
com mais ou menos trinta anos e um porte atltico. Seu nome
era Nilson. Eu s pensava:
      "Quem  esse cara?"
 Engraado, o doutor Nilson me lembrava um pouco um "prncipe
encantado" que tive na minha vida, daqueles que quase todas as
adolescentes imaginam encontrar um dia: Giovanni... Nossa!
Como  bom sonhar com prncipes! Que menina ou mulher j no
sonhou, j no romanceou, j no deixou vir aquele perfume de
rosas tomar conta de sua imaginao nocturna e romntica?
      Conheci esse cavaleiro dos sonhos em 1987, em Sorrento,
quando fui passar as frias escolares de julho na Itlia. Meu
pai  italiano e sempre sonhou em levar a famlia toda para
conhecer sua ptria: conseguiu finalmente! Giovanni, assim
como ns, passeava na quente noite de vero, debaixo de uma
lua maravilhosa, e amistosamente pediu para tirarmos uma foto
sua junto de seus amigos. Isso bastou para acender meu
interesse.
      Disso voc se lembra, Ju! Eu te falei dele nos meus
doces 15 anos!
      
      Hoje, sob um lindo panorama, conheci cinco italianos. O
mais bonito chamava-se Giovanni. Ele foi super simptico e me
achou linda. Ele era muito atraente. No meio da conversa,
olhei para seus olhos castanhos e os percebi me fitando. Ri, e
ento ele abriu um lindo sorriso de marfim. De longe vinha uma
msica, deixando mais romntica aquela agradvel noite de
vero. Fiquei empolgadssima por ter conhecido um homem to
interessante. Dei meu endereo e ele prometeu me mandar
cartes.
       noite, no dormi. Fiquei pensando naquele moreno
encantador. Ora, no aconteceu nada, foi s um flerte. So
essas coisas inexplicveis. No sei se  qumica atraco ou,
como dizem, "amor  primeira vista". E ele prometeu me
procurar um dia. Acho que nunca vou esquec-lo...
      
      Pois , no o esqueci mesmo! Ele me enviou cartes,
mandou foros e acabou vindo passar frias no Brasil, em agosto
de 1990.
      Nessa poca, eu j havia entrado na faculdade, estava
cursando Farmcia na USE vivia tambm o sonho de uma
recm-universitria e embarquei fcil nessa viagem com
Giovanni. Bons tempos esses de descompromisso, onde podemos
cair na imaginao livre e suave, navegar pelos pensamentos
soltos, sem limites ou impedimentos.
      Eu mesma fui busc-lo no aeroporto, com meu querido
Uninho... Superansiosa. Ser que o Giovanni era to bonito
como nas fotos? Era mais... Moreno-bronzeado, cabelos negros e
com um sorriso lindo.
      No mesmo dia de sua chegada,  noite, fomos a uma
lambateria. Estavam na moda essas coisas. Trocamos muitos
olhares e ele at arriscou uns passos de lambada... Nem
precisava. Quando ele pediu, em italiano, para parar, encostou
o nariz no meu e disse:
      - Chega!
     O oceano que sempre esteve entre ns durante anos
desapareceu: passamos a noite abraados, assistindo a um show
de capoeira. Chegando em casa, ele me deu dois beijos doces e
foi se deitar. Eu mal consegui dormir, ainda mais sabendo que
ele estava no quarto ao Lado do meu. Melhor ainda foi acordar
e dar de cara com aquele lindo italiano.
      No demorou muito para Giovanni me dizer que, se tivesse
que cantar uma cano para mim, seria Passione. A letra diz:
"Te quero, te amo, te penso...". Lindssima. Estava na cara.
Estvamos apaixonados.
      Durante a semana que Giovanni esteve em Sampa, eu
simplesmente no conseguia me sentar tranquila em um banco de
faculdade e assistir s aulas. Eu precisava ficar perto dele.
      
      Abandonei cedo a sala de aula e voltei para casa, na
ansiedade de encontrar algo que me chamava e me deixava
elctrica. Com gosto, dei de cara com ele, que tinha acabado
de acordar. Samos para um bar, junto com a Neide, uma amiga
de faculdade. Rimos e bebemos muito. Ele disse que eu era
"dolcssima", Passamos a tarde abraadinhos, passeando. Numa
certa hora, me puxou para bem perto, disse que h muito tempo
gostava de mim e me beijou. Senti que o cho no estava mais
sob meus ps. Finalmmente! Fiquei levssima. Acho que esperei
por esse momento, desde o dia que o conheci.
      Hoje Giovanni parecia triste, disse que eu era especial
e lamentou muito ter de ir embora. Deu-me um mao de cigarros
napolitanos e uma fita do Pino Daniele para eu me lembrar
sempre dos nossos momentos. Ficamos em silncio um tempo, s
escutando as canes italianas. De repente, me perguntou:
      -   Quer ir embora comigo?
      To lindo! Pena que invivel... Na hora respondi:
"Sim!". Talvez porque soubesse que era impossvel. E chorei.
Engraado, no me dei conta que estava to envolvida...
      Ele me beijou tanto, falou tanta coisa: que me ama, que
queria casar comigo, que queria muito ficar comigo, que ia ser
maravilhoso quando morssemos juntos, que ele ia trabalhar,
comprar uma casa e vir me buscar. Perguntou-me como ele iria
fazer sem mim enquanto estivssemos longe...
      Adorei ouvir tudo. Duvido que acontea, duvido que seja
verdade, mas adorei ouvir tudo.
      
      No dia em que ele foi embora, chorei. Mais por mim, pela
minha falta de sorte, pela minha pouca independncia pela
falta de coragem de largar tudo e ir pra Itlia com ele...
      Curti uma fossa danada depois da partida dele, dias e
dias movida a cigarros napolitanos e msicas italianas
melosas...
      
      Giovanni me ligou da Itlia algumas vezes e escreveu um
monte de cartas. Minha famlia colocou mil empecilhos entre
ns, achava que tudo era uma loucura. Dimensionaram mal meu
relacionamento com Giovanni, pois eu nem estava disposta a
lutar por ele. L no fundo, preferia manter tudo como uma
paixo impossvel, dessas de folhetins mesmo, talvez para dar
mais condimento ao sofrimento do corao. Coisas de
adolescente. Eu tinha medo de sofrer, alm de muitas
desconfianas de um romance a longa distncia, de promessas de
frias de vero. No respondi mais s cartas, simplesmente
"sumi do mapa".
      Giovanni desapareceu logo de minha vida, mas meus planos
para viver na Itlia continuaram vivos. Isso, sim, me d
arrepios! Era l que estava o meu futuro, era l que eu iria
construir uma famlia e uma carreira; ter uma casa, marido,
filhos, uma profisso... Esse foi o mais forte de meus sonhos,
agora, impossvel de se realizar. Como fui atingida! Como tudo
foi arrancado de mim!
      Nesse ano, no ano da minha trombose, pensava em validar
meu diploma na Itlia, trabalhar na minha rea, ser
independente, viver por l. Eu estava to perto de realizar
tudo isso... E veio essa onda destruir um castelo de areia que
criei com tanto cuidado: aulas de italiano s teras e
quintas, ps-graduao s noites, trabalho durante o dia.
Sempre achei que conhecimento nunca era demais e continuava
frequentando as aulas na Universidade, me aprofundando nos
estudos, sempre me aprimorando para o futuro.
      Puxa, fui pega no meio do caminho! E eu, naquela maca,
pensava nas aulas de italiano no dia seguinte! E continuava a
traar os meus planos para o futuro. Minha vida na Itlia,
acho que daria para ir por volta dos 25 anos... Depois da ps,
depois... Oh mia dolce vita, mia bella Italia, mio sognato
futuro giammai si concretizer.
      
                Dia 5 de abril de 1996
      
      Amiga,
      
           O doutor Nilson at me fez lembrar um prncipe, mas
com certeza eu no estava num castelo encantado!  horrvel
ficar numa cama de hospital, sem saber ao certo o que est
acontecendo com voc. Os mdicos agem com uma naturalidade
absurda, como se voc estivesse acostumada a ser espetada,
entubada, desinformada!
      No pronto-socorro, nem me lembro como, colocaram-me uma
sonda e fizeram uma lavagem estomacal, O mdico me perguntou
se eu havia tomado algum medicamento. Falei - j era um custo
falar a essa altura - que havia tomado um contraceptivo oral.
Algo me dizia que o anticoncepcional tinha muito a ver com o
que estava me acontecendo, com as convulses. Mas eu j havia
digerido tudo. Na lavagem estomacal s havia soro: o que
colocavam no estmago, saa pela sonda. A correria continuava
ao meu redor: mdicos, enfermeiras, um monte de desconhecidos,
e eu meio sem identidade. Pensei na minha bolsa, com trs
maos de cigarros indonesianos e uma cartela de plulas
anticoncepcionais. Minha bolsa estava com meus pais, e eles
poderiam abri-la e descobrir um outro mundo da filha, um mundo
que desconheciam.
       errado mentir, e eu menti. Enganei meus pais: no
sabiam que eu tomava plula e fumava. Deveriam estar aturdidos
demais para ponderar sobre o assunto naquele momento. E eu
continuava a tremer na maca. Tremia e pensava nas plulas
.Tremia e pensava em tremores. Eles no sabiam que eu tomava
plulas, que eu no era mais virgem. Virgem... Tremores...
Orgasmo... Eu associava tudo, minha cabea tremia, meus
pensamentos tremiam, minha memria tremia.
      Nem sempre usei plulas e nem sempre tive tremores de
orgasmo. E foi com Clber, meu namoradinho de adolescncia,
por quem fui apaixonada, que aprendi o que era orgasmo.
      
      Clber me convidou para sair com ele, um sbado. No sei
por que eu estava meio desanimada. Achava que o Clber j
havia dado tudo que tinha que dar mas aceitei. O jeito dele no
telefone me animou.
      Acho que nunca me diverti tanto. Bebemos muito vinho e
rimos a valer. Na pizzaria, ele pegou na minha mo, me
abraou. Ele  lindo! Super! Fiquei encantada.
      Na hora de ir embora, os cinco minutos que o carro levou
para esquentar foram demais! O Clber me beijou, ficamos"
muito bem. Ele  meio tmido, lindo, super carinhoso...
Estamos namorando.
      
      O Clber continua um doce. Eu amo esse cara. Ele 
meigo, carinhoso... Samos todo fim de semana e, durante a
semana, cabulo umas aulas para namorar. Vamos at uma
pracinha, e o rapaz tmido se transforma em um homem muito
envolvente. Confio super nele.
      
      Ele me deu um carto fofo, falando que sentiria muito se
me perdesse e que me adora. Fiquei radiante! O clima entre ns
 suave, j rolam altas intimidades.
      
      Hoje consegui um orgasmo, e ainda sou virgem... No
imaginei que fosse to fcil e gostoso.
      Estvamos namorando na pracinha. Ele veio para o meu
banco, no carro, Os dois estavam de cala jeans e nunca
imaginei que fosse capaz de atingir um orgasmo s de ficar
embaixo dele, trocando carinho... Ele tem um corpo de provocar
excitao em qualquer mulher. Seus beijos so to carinhosos,
suas palavras to doces...
      Ele tirou a camisa, como sempre, e se alojou entre
minhas pernas, me beijou um incontvel nmero de vezes, disse
que me amava, explorou meus seios. Eu sentia seu membro cada
vez mais duro, sob o jeans e entre minhas pernas. Entre
sussurros e beijos mais ardentes, comeou um vaivm gostoso de
quadris. Senti que algo extremamente bom se aproximava.
Comecei a suar e senti o corao bater apressado. De repente,
no queria que ele parasse. Agitava meu quadril o mais perto
possvel do dele, e o mais rpido tambm. Senti que algo ia
acontecer e aconteceu... um breve momento que s posso
traduzir como o mximo do prazer. Esse breve momento se
prolongou por uns segundos a mais, pois aquele vaivm
continuava, e cada vez que sentia seu pnis eu tremia. Cravei
minhas unhas nas suas costas e soltei um suspiro, mas ele no
percebeu.
      J li que milhares de mulheres no conseguem um orgasmo,
nem transando. Nunca imaginei que teria tanta facilidade, sem
ao menos ser penetrada... Depois que isso passou, pensei que
no era normal ou nunca mais fosse acontecer, mas mesmo assim
fiquei radiante.
      
      No apartamento dele, no sof,  luz de velas, ambos sem
camisetas e dejeans, aconteceu de novo. Um gemido foi
inevitvel. Ele percebeu, me abraou e beijou meus cabelos.
Depois aconteceu com ele. Foi o mximo! Estou me tornando
mulher!
      Estou amando todos os momentos que passo com o Clber.
No quero desanimar nunca, prefiro levar um fora e sofrer.
Penso seriamente em transar com ele.
      
      Minha nica dvida quando penso se quero ou no me
manter virgem  um dia acontecer de me apaixonar por um homem
que me despreze por eu j ter perdido a virgindade. Mas est
ficando claro que nunca irei me apaixonar por algum to
retrgrado.
      Fui para o Guaruj nesse frriado de 7 de setembro de
1989. Ontem  noite, fui at o apartamento do Clber. Ele
apagou a luz da sala, depois que j estava aquele superclima.
Foi ptimo! Fiquei s de calcinha, no sof, com o Clber me
abraando, me enchendo de beijos. Demais! Quase transamos, s
que, na hora H, falei:
      "No!" Ele (como todo homem diz) disse:
      - Por que no, Lu? Vamos...
      Tive de pensar duas vezes antes de falar no de novo. O
bom de tudo  que ele nunca fica bravo,  supercarinhoso e
nunca forou
           Expliquei que no queria que a minha primeira vez
fosse assim. Ns tnhamos horrio, e eu no queria fazer nada
corrido. Disse tambm que morria de medo de ficar grvida,
que, se isso acontecesse comigo, eu me matava. A primeira vez
tinha que ser especiaL. Ele entendeu. Conversamos muito sobre
transar, esses dias.
      Vamos transar mesmo mais cedo do que imagino. Tenho
medo, mas quero estar com ele. Clber falou que comigo ia ser
diferente, pois, apesar de no ser a primeira vez dele, era a
primeira garota de quem gostava.
      Ser que vou sofrer? Vou deixar rolar, e como diz o
poeta:
      "...seja imortal" posto que e" chama, mas infinito
enquanto dure. O importante  viver cada minuto da vida como
se fosse o ltimo...
      
      E foi assim que me tornei mulher. Nunca soube em que
hora e momento estaria preparada para me tornar uma mulher.
Como toda adolescente, pensava, pensava, imaginava, imaginava.
Como saber? Como saber se eu estava pronta? Hoje, sei que
aconteceu na noite certa, com o homem certo, sem traumas, sem
aflies. Pensava que deveria ser mgico e maravilhoso. E foi.
      Muitas perguntas eu me fiz antes de entrar de vez nesse
universo desconhecido: o universo do sexo. Questionei-me se eu
amava suficientemente o Clber, se eu confiava nele, se eu me
sentia pronta para perder para sempre a virgindade, se eu
queria saciar somente uma curiosidade ou experimentar a
essncia de fazer amor... Mesmo assim eu no tinha certeza. A
gente nunca tem, no ?
      Como tantas meninas, menti tambm para os meus pais.
Naquela noite de domingo, disse que ia ao cinema e fui ao
motel. A mentira me desagradava, mas eu me sentia confiante na
minha deciso. Nervosa, mas confiante. Havia chegado a hora do
meu ritual de passagem, um ritual muito ntimo, meu, que no
queria dividir com mais ningum, a no ser com o homem que
seria meu parceiro de amor. Chegando ao quarto, fiquei
tranquila em estar com um homem que eu amava.
      Quem diz que perder a virgindade  pecado no sabe como
 mgico deitar ao lado do ser amado depois de se fazer amor.
 um sentimento to aconchegante, que abraa a alma, beija o
esprito... uma sensao que nunca vou esquecer!
      Sempre usamos camisinha, preocupados em nos prevenir.
Inclusive me prevenir das encrencas com meus pais, do que
poderiam achar ou no.
      Como os pensamentos avanam rpido, desencadeiam-se
pelas palavras, imagens, sons, gestos... Tremendo de
convulses e voando... Eu estava acostumada a ser paparicada,
paquerada, requisitada. O desinteresse que hoje causo aos
homens  pior que a morte. Lembra-me que, como mulher, hoje
sou um zero  esquerda.
      No quero falar sobre isso agora, Ju! Estou chorando...
Preciso chorar agora...
       
           Dia 18 de abril de 1996
      
      Querida amiga,
      
      Acho que no deixei muito claro essa coisa toda de
mentiras entre pais e filhos, no ?
      Sabe, agora que estou de volta para minha famlia,
inteiramente dependente dela, fico pensando em coisas que
escondemos, em vidas paralelas que levamos, e no sei o
sentido de tudo isso.  idiota tudo isso.
       certo que devemos preservar nossa privacidade. E,
pensando nisso, procurando ter mais liberdade e autonomia em
nossas decises, acho que ns, quando adolescentes, tecemos
uma rede de mentiras ao nosso redor.  estranho, mas assim
funciona com a maioria. A partir da, tudo o que dizemos aos
nossos pais  regido por essa cartilha, cuja frase que fica
martelando em nossa cabea : "Cuidado para no se
contradizer!".
      Mas a quem estamos tentando enganar? Ser que somos to
espertos assim? Os pais so duas pessoinhas que amam de facto
os filhos e procuram,  maneira deles, o melhor para ns.
Quando voc se vir s, quando voc concluir que as pessoas que
diziam que te amavam no te amavam tanto... sobra algum. Pelo
menos foi assim comigo.
      Quando falo em mentira, lembro-me do Lucas, e acho que
sua contribuio nessa mentira foi maior do que ele quer
admitir. Parece que estou vendo ele me dizer:
      -   Lu, voc finge que mente, e eles fingem que
acreditam.
      Hoje eu no acreditaria mais nisso. A gente finge que
mente, e mente mesmo, e os pais nem sempre fingem, s vezes,
eles acreditam, acreditam realmente.
      Actualmente Lucas  o primeiro a dizer:
      -   Seus pais so pessoas simplesmente fantsticas!
      Agora voc me diz isso, Lucas? Agora eu sei. S que eu
gostaria de ter ouvido isso em vez de "Lu, voc finge...", ou
de "Lu, suas mentiras devem conter o mximo de realidade
possvel, para voc no se contradizer".
      Os pais j viveram tanto... Acho que sabem de coisas que
no sonho saber. Meus pais sabiam que meu relacionamento com
Lucas era intenso e forte. E o ponto forte do Lucas so seus
olhos azuis...
      Judeu, loirinho, adora doces, por isso  meio
barrigudinho. Baixinho, quase do meu tamanho, supersimptico,
inteligente, rico e socivel, engenheiro formado pela USE As
minhas amigas me alertaram, comentaram o quanto era visvel a
diferena entre ns, pois Lucas era classificado como feio e
nerd, tinha fama de ser bonzinho e bobinho. Errado, descobri
que ele valia ouro! Lucas foi o homem da minha vida, e nunca
vou poder saber se haveria outro para poder superar tanto
envolvimento e tanta paixo. s vezes, fico me questionando se
Lucas era realmente incrvel, ou se ele poderia ser comparado
a um outro algum, ou ainda se eu me apaixonaria tanto ou mais
por outro homem. Vinte e dois anos no foi tempo suficiente
para avaliar essa dvida... que vai durar enquanto eu viver.
      Adorei quando ele me convidou para sair no dia 6 de
outubro de 1990. No nosso primeiro encontro, me deu uma rosa
vermelha; foi a primeira e a ltima vez que me deu flores. No
carro, comeou a falar macio, at a hora do beijo de
despedida. Foi inevitvel eu perguntar:
      -   Comeamos alguma coisa?
      No estava mostrando interesse, apenas querendo saber
como me comportar dali em diante. Mas essa pergunta foi mal
interpretada. No foi raro, durante nosso namoro, Lucas me
olhar com um risinho maroto e lembrar-se da pergunta como um
sinal de interesse meu por ele, como se eu tivesse iniciado
tudo. Nunca o contradisse, pois s queria saber se aquela
noite representava alguma coisa especial ou no. Representou.
Foram trs anos de relacionamento, nos quais investi muito.
Dei o melhor de mim.
      No comeo, Lucas era muito apaixonado. Telefonava-me
sempre, mostrava-se preocupado com meu bem-estar, chegava na
hora aos encontros. Fui Levando esse namoro. No incio, aos
trancos e barrancos, achando que eu era muita "areia para o
caminhozinho dele". Mas devo confessar que me encantei com
esse menino. Como ele no era um tipo "gato", imaginei que ao
seu lado seria fcil encontrar a segurana que eu tanto
procurava. Da para me apaixonar foi um pulo.
      O mundo que o cercava era muito diferente daquele ao
qual estava habituada. At davam a entender que eu era bem
aceite por l, mas era s aparncia, pois virei uma mosca
branca no meio deles. Iludi-me, com certeza, mas j estava
completamente fascinada.
      Lembro-me do seu aniversrio, o primeiro junto dele
depois de dois meses de namoro. Fui bem recebida pelos seus
amigos; mas, em compensao, seus pais mal me olharam. Carta
(namorada do irmo dele) j havia me prevenido: como eu, ela
tambm era catlica, e no judia. E como gua e leo no se
misturam, judeus e catlicos tambm no.  uma grande bobagem
essa histria de religio, mas foi o suficiente para eu nunca
ter sido aceite pelos pais de Lucas.
      Durante nosso tempo de convivncia, houve mil
comemoraes em famlia, mas eu tinha que ficar de fora.
Achava injusta tal situao: enquanto Lucas tinha as portas de
minha casa sempre abertas, eu no podia sequer caminhar sobre
sua calada. Sofri e chorei muito por causa disso,
principalmente amei Lucas. Pessoalmente, no ligava para o
facto das pessoas serem judias, catlicas, ricas ou pobres...
S conseguia ver nele uma pessoa carismtica (ser que ele vai
rir quando ler essa palavra?). Ele me fazia muito bem, me
completava. E eu? Eu estava to envolvida, to apaixonada, to
certa de que ele era o homem que sempre esperei, que estava
disposta a mostrar isso: estava disposta a fazer amor.
      Dizem que o homem no precisa ser bonito, basta ser
charmoso. Bom, seja como for, foi ele quem me encantou. Era
interessante, calmo, sensato, transmitia uma liberdade que eu
invejava. Pouco a pouco, Lucas se tornou o mximo e eu
simplesmente no imaginava mais minha vida sem ele. Meu
corao disparava s de chegar perto dele. Socivel,
simptico, risonho, meigo... Lucas se revelava um homem
carinhoso, compreensivo, preocupado em dar prazer. No, bonito
ele no era, mas a cada dia eu ficava mais apaixonada e o
achava mais lindo.
      Lucas e os irmos dividiam um apartamento. Com a
frequncia e o uso, acabou se transformando na "nossa
casinha". A primeira vez em que Lucas me levou at l, fez um
supermistrio. Eu j sabia da existncia do "casulo", pelos
comentrios na faculdade. Diziam que mantinham um
apartamentozinho s para namorar:
      - Est me levando para o seu apartamento?
      Lucas ficou espantado com minha pergunta no meio do
caminho.
      - Quero te mostrar que posso te levar a qualquer lugar,
porque ao meu lado s vai acontecer o que voc quiser.
      No sei de onde vinha essa sua certeza, apesar de estar
me levando para l, mas ele a tinha. No sei tambm por que se
espantou com minha pergunta.
      Chegando, Lucas me deu uma linda bonequinha de pano que
tenho at hoje e que por muito tempo dormiu comigo. Desse dia
em diante, era para esse apartamento que sempre amos.
      No foi nessa primeira visita que fizemos amor, mas a
primeira vez que fizemos foi nica. Ficamos no cho da sala,
tiramos toda a nossa roupa e Lucas foi at o quarto buscar
umas camisinhas. No sei quantas vezes fizemos amor nesse dia,
nem me lembro direito dos detalhes, sei apenas que morei nas
nuvens por todo o tempo em que estive em seus braos. Lucas me
transformou em uma mulher que sentia muito prazer. Como
parceiro sexual, era perfeito. j no sei se ele era mesmo
perfeito, ou se apenas havamos nascido um para o outro.
      Vivi trs anos de xtase. Sempre foi assim: Lucas fazia
a coisa certa no momento exacto. Frequentemente gozvamos
juntos, sempre conversvamos muito depois de fazermos amor.
Lucas me enchia de carinhos e meu corpo pedia seu toque, a
suavidade de suas mos e de seus afagos. Muitas vezes ele me
penetrou s porque implorei, e senti-lo dentro de mim me
levava ao orgasmo. Para mim, s posso defini-lo como perfeito.
Parece loucura tamanha paixo? No, era simplesmente amor...
      Dois meses de namoro, de paixo intensa, e Lucas iria
viajar, passar trs meses nos Estados Unidos, fazendo um
estgio. Eu no sabia o que seria da nossa relao, parecia
perfeita demais para terminar. Bateu um certo desespero, no
conseguia me imaginar tanto tempo longe dele. Na vspera de
sua viagem, avisei em casa que iria dormir na casa de uma
amiga. Ficamos no bota-fora at o final, depois fomos para a
"nossa casinha" e dormimos juntos. Como sempre, foi perfeito
sentamos uma necessidade mtua de fazer amor. No consigo
imaginar um homem que faa amor melhor que Lucas. Era a
primeira vez, de muitas vezes, que dormiramos juntos. Mas
naquela noite no dormi. Fui vendo o dia clarear devagarinho,
da varanda, tendo um mao de cigarros como companhia. Pensando
que a vida era muito ingrata, e era mesmo. E eu no sabia
quanto.
      Voltando para casa, fiquei na minha cama, repassando os
momentos maravilhosos da madrugada. Foi a que ele me ligou da
sala de embarque, no aeroporto, dizendo que ia morrer de
saudade. Eu chorava feito louca. Chorava de tristeza e de
aflio. A voz do Lucas era entrecortada, o que aumentava
ainda mais meu desespero. Eu estava amando...
      Na sua ausncia, quase morta de saudade, escrevia cartas
doces e apaixonadas... Nesse comeo de namoro, lembro-me de um
Lucas afectuosssimo. E as cartas que recebia dos EUA? Eram
simplesmente lindas, apaixonadas e envolventes. Depois tudo
mudou, e a balana dos nossos sentimentos comeou a pender, e
muito, para o meu lado. Faria qualquer coisa por ele.
      Estava se aproximando a volta do Lucas e eu queria estar
com ele o quanto antes. Meu sonho era busc-lo no aeroporto.
Mas, como os pais dele iriam, resignei-me em esper-lo no
apartamentozinho. O irmo dele me deu as chaves e fiquei ali
aguardando, hipernervosa e ansiosa, sabendo que Lucas estava
em casa com a famlia, almoando, falando da viagem, rindo,
dormindo, tomando um banho... Nem sei quanto tempo depois de
meus devaneios, tocou a campainha. Era ele: de cala jeans e
camisa preta. Estava muito sensual.
      O encontro foi perfeito. A volta foi perfeita. O namoro
foi perfeito. Foi tudo quase perfeito. Quase...
      Quase, porque preciso evidenciar um facto que se tornou
marcante durante todo o nosso namoro. Eu sempre colocava Lucas
em primeiro plano. Se fosse eu quem tivesse viajado, na volta
eu teria corrido ao seu encontro, nunca teria sangue frio para
almoar ou dormir antes de v-lo. Outras situaes, um monte
delas, evidenciaram, durante nosso relacionamento, que eu me
expunha muito mais. Fiz de seus amigos meus amigos, mas fui
ficando contrariada, pois percebi que dividia com eles a pouca
ateno que Lucas passou a me dar com o tempo. A maioria de
seus amigos eram judeus, e havia um, Beto, que eu achava
completamente irritante.
      Betinho era o amigo que Lucas mais gostava, tinha um
apartamento com uma linda cobertura. Frequentemente amos at
l, passar o domingo e tomar banho de piscina. Eu ia porque
adorava sol, e porque Lucas adorava esse programa. S que os
dois ficavam horas falando de poltica ou de economia de uma
maneira e com uma tal cumplicidade que eu era to notada
quanto a gua da piscina. E para piorar a histria, Betinho s
se dirigia a mim para fazer piadinhas sem graa, mostrando ser
um cara desagradvel. Ele tinha o dom de saber me irritar:
sabia me discriminar. No me discriminava religiosamente, mas
simplesmente no gostava de mim e me colocava  parte, sabia
me isolar.
      Tentei me aproximar de Betinho vrias vezes, j que
Lucas prezava muito essa amizade, mas ele se revelou um
porco-espinho, arredio  minha aproximao. Se descobria em
mim ou no meu namoro com Lucas algum ponto fraco, pronto,
transformava logo esse achado numa piada de mal gosto. Betinho
no era assim s comigo, muito poucas pessoas se davam com
ele.
      Quando eu j estava em estado grave no hospital,
espantei-me dever um outro Betinho, amoroso e prestativo, que
ia passar as noites comigo. At hoje no entendi o que deu
nele. At entendo uma ou outra visita, mas Betinho se mostrou
muito dedicado e no  ramos amigos no passado. Nosso elo de
ligao era o Lucas. No entendo... durante meu perodo
hospitalar ele foi a pessoa mais amiga.
      Amigos... Certamente eu tinha os meus amigos. Uma noite,
numa ida ao teatro e posteriormente a um jantar, tentei unir
um casal, Bruno e Maria Helena, amigos do Lucas, a um grupo de
amigos meus. Durante o teatro, foi tudo bem. Na cantina,
Lucas, que era to socivel com os seus amigos, quase no
falou com os meus: ficou todo o tempo batendo papo com Bruno,
que tambm no se misturou. Quando meus amigos se preparavam
para pedir a sobremesa, Lucas j havia pedido a conta e se
mostrava aflito para ir embora.
      Foi a primeira e a ltima vez que samos com os meus
amigos.
      Depois de anos de namoro, atendendo aos meus apelos,
Lucas falou que ia passar uma tarde todinha s comigo. Eu o
estava achando muito ausente, sempre saamos com os amigos
dele. E eu tinha saudade... saudade de ter um namorado s para
mim, de no estar sempre rodeada pelo seu grupo, de passar uma
tarde simplesmente namorando. Marcamos um encontro s duas
horas, do segundo domingo de agosto de 1993. Era a
possibilidade de retomarmos nosso caminho. E foi...
      Neide, uma amiga da faculdade, ia embora do Brasil, e eu
fui me despedir dela. Depois, fui para casa e esperei. Vi dar
duas, trs, quatro horas. s 5 e cinco, tocou o telefone. Era
Lucas: tinha ido almoar com Betinho e perdera a hora... Justo
com quem? Com Betinho! Olha, bem que tentei ser amiga do Beto.
Abri as portas da minha casa e do meu corao para ele.
Tentei, tentei mesmo ser amiga dele. No adiantava. Desisti.
      E desisti de continuar com Lucas. Usei toda a fora dos
meus pulmes. Aos berros, dei um basta. Esse almoo com Beto
foi a gota de gua que faltava para fazer transbordar tudo que
j estava desgastado. Gritei tanto que a vizinha do outro lado
da rua ouviu. Gritei a falta de respeito, de considerao.
Nosso namoro tinha chegado ao final.
      Na hora da discusso, Lucas tentou remediar minha
deciso, mas eu estava to brava que no queria ouvir. Nem
mas, nem meio mas. Arrependi-me dois dias depois, mas Lucas me
mostrou que nosso namoro tinha muitos outros problemas. Hoje,
vejo que foi melhor assim. Lucas no teria estrutura para
aguentar o que estava por vir. Ele no enfrentaria o AVC.

Dia 10 de maio de 1996

 Oi, Ju!

 Quando entrei na empresa que trabalhava antes do acidente,
fiz um seguro. Foi uma sugesto do departamento de Recursos
Humanos: um seguro de vida, no caso de morte ou invalidez
permanente, e um seguro-sade. Eu nem imaginava a grande
importncia que essas coisas teriam na minha vida, provando
que no d mesmo pra gente depender da assistncia hospitalar
pblica deste pas. Como funcionria de uma multinacional de
grande porte, o seguro-sade empresarial abriu-me as portas
dos melhores hospitais e terminou pagando a conta hospitalar,
que no foi pequena. O pagamento do seguro de vida por
invalidez, no valor de trinta salrios, ser efectuado se eu
estiver interditada e aposentada. A interdio j foi
providenciada, mas falta a aposentadoria. E isso vai ser uma
longa histria...
      Atravs do meu seguro-sade, meu pai tentava minha
transferncia do Pronto-Socorro Municipal de Santana. Eu
sabia, todos sabiam, que se continuasse l iria morrer. Ali,
no sabiam e no tinham condies de avaliar o que estava
ocorrendo realmente comigo. As convulses se aceleravam...
      Fui transferida de ambulncia para o Hospital Santa
Izabel. Sem mdicos ou paramdicos, s meu pai me auxiliando
com um balo de oxignio. Um absurdo! Sim, um absurdo ter sido
transferida de hospital, em convulso, beirando o coma, sem
nenhum mdico na ambulncia. Sei que bons hospitais probem
tal prtica. Se tivesse acontecido alguma complicao,
fatalmente teria morrido. Meu pai, apesar da boa vontade e de
estar terrivelmente preocupado, pouco poderia fazer no caso de
um desmaio, ou de uma parada cardiorrespiratria. E essas
coisas poderiam ter acontecido, pois meu problema era no
crebro, e o crebro comanda todo o corpo. Mas esse facto
ainda era ignorado.
      Foi ficando difcil respirar... O oxignio me ajudava.
Meu pai beirava o desespero. Lembro-me que, na ambulncia,
aconteceu minha primeira babada. Era a primeira de milhes. Em
um momento qualquer, dentro da ambulncia, eu babei. Por um
motivo que at hoje no entendo, a saliva escorreu para fora
da minha boca. Dizem que a flacidez da musculatura 
responsvel pelas babadas, mas, na poca, minha musculatura
era perfeita! Papai limpou. Era o comeo de uma poca que eu
ainda no sabia interpretar. Actualmente vivo babando, menos
do que no incio, e, por mais que tente, no consigo evitar.
Alm da ausncia da fala, essas babadas inoportunas ajudam as
pessoas a me confundirem com uma retardada mental. Muitas
vezes tive, e terei ainda, que provar minha inteligncia e
minha mente s. J percebi que, quanto mais tensa estou, ou
quando fao esforo fsico, babo mais, mas no d para prever.
      No Hospital Santa Izabel, um enfermeiro moreno me ajudou
a sair da ambulncia e me ps em uma maca. Levaram-me para um
quarto. A sonda nasogstrica que tinham posto no
pronto-socorro continuava em mim e ningum vinha tirar aquele
troo horrvel, que me incomodava profundamente. S meses mais
tarde, me veria livre dela. Acordei do coma, tendo comigo a
maldita sonda!
      Tiraram minha roupa, e me vestiram um daqueles
camisoles de hospital. A convulso continuava. Lembro-me dos
mdicos ficarem discutindo em volta da cama, se perguntando o
que eu teria. Fui ficando meio atordoada, senti um mal-estar
repentino e vomitei em jacto. Uma enfermeira que me
acompanhava falou para o enfermeiro moreno:
      - Ela no passa desta noite.
      - No sei, no. J vi casos assim se salvarem...
      Levaram-me de maca para a UTI, enquanto me explicavam
que l eu teria melhores cuidados. No tomei conscincia da
gravidade da situao, pois achava que s pessoas
inconscientes iam para a UTL, e eu estava consciente, ainda.
Lembro-me que, quando entrei na UTI, pensei:
      - Acho que vou faltar ao trabalho amanh. No passei
muito bem hoje...
      Nem por um dcimo de segundo cogitei a possibilidade de
nunca mais pr os ps na Colgate, de no trabalhar mais com
Jnior. Que ingnua!
      No final do ano de 1991, mandei meu currculo para um
monte de empresas. Passei o curso de Farmcia para o nocturno
e deixei s Legislao Farmacutica e uma outra matria para o
perodo da manh. Tinha resolvido trabalhar e ganhar dinheiro
para minhas despesas, principalmente minhas despesas junto com
Lucas, pois, apesar de ele ser rico, dividamos tudo.
      Fiz contacto com vrias empresas, mas a Colgate me
chamou para uma vaga, levando em considerao a entrevista que
havia feito por l. Propuseram-me que fizesse estgio at o
final de 1994, com a possibilidade de uma efectivao, na
diviso de Sade Bucal, na fbrica de Osasco. Comecei a
estagiar em novembro de 1992 e depois fui mesmo efectivada.
Enquanto eu no iniciava o estgio, resolvi, no departamento
de Recursos Humanos, todo o tipo de assuntos burocrticos, e
fiz at exame mdico.
      Era uma fbrica supernova. Todos os dias, meu Uninho
vermelho tinha que cruzar a Marginal, indo de minha casa em
Santana at Osasco, de l at a USP, onde fazia todo o resto
do curso no perodo nocturno. Quase toda a minha turma mudou
para a noite nesse ano, e, quem no tinha, estava procurando
estgio.
      Na Colgate, fui logo para o laboratrio microbiolgico,
mas antes conheci meu chefe: Clinton. No primeiro semestre de
1993, troquei de laboratrio. Em fevereiro, passaria - por
ordem de Clinton - do microbiolgico para o laboratrio de
Controle de Qualidade Fsico-Qumico. Mais tarde, trabalhei
com Pedro, conhecido por todos como Jnior. Jnior viria de
outra unidade da Colgate, directo para o laboratrio onde eu
estava. Trabalhar com ele, que j era um antigo funcionrio da
Colgate, me punha nervosa.
      Mais maduro que eu, casado, pai de trs filhos, bigode e
uma pequena mecha natural branca nos seus curtos cabelos
negros. Era um charme, mas, por ser casado, era "carta fora do
baralho". Jnior me ensinou como funcionava o Controle
Fsico-Qumico e, aos poucos ensinou-me quase tudo o que sei.
Continuei me esforando profissionalmente sonhando com a
efectivao, que acabou acontecendo no final de 1993. Assim,
para eu me aposentar hoje, s constam na minha ficha quatro
salrios efectivos, at maio, quando fiquei doente.
      Eu e Jnior nos demos muito bem, tanto que, apesar de
passarmos mais de oito horas por dia juntos, diariamente,
nunca tivemos sequer o comeo de uma discusso. Hoje, Jnior 
para mim uma das pessoas mais importantes na minha vida, mas
isso eu conto depois...

Dia 27 de maio de 1996

 Ol, minha companheira!

 Na UTI, os mdicos, inclusive o doutor Nilson, me perguntaram
se eu estava com dor de cabea. Respondi afirmativamente.
Fizeram uma puno, mas no me lembro bem disso, j estava
perdendo os sentidos. Lembro-me das enfermeiras me amarrarem
nas grades da cama, porque, devido  convulso,
involuntariamente, eu me debatia. A ltima imagem que vem 
cabea  de os mdicos falarem que eu devia estar com presso
alta. Logo depois entrei em estado de coma profundo, s
acordando quase dois meses depois.
       to estranho entrar em coma. Eu no tinha conscincia
de que estava em um hospital, parecia um sonho. Durante boa
parte do tempo os olhos se mantm fechados, mas, vez ou outra,
eles se abrem. No comeo, sem ningum notar - e a gente v
coisas e pessoas, das quais pode ou no vir a se lembrar. Logo
depois os olhos se fecham e entramos no universo dos sonhos.
      Comigo foi assim. No me dei conta de que estava mal,
mas o doutor Nilson, em especial, povoou os meus sonhos. Em
coma tive minha primeira parada cardiorrespiratria.
Reanimaram-me, mas disseram a meu pai que eu no iria me
salvar e no havia mais nada a fazer. Se tivesse continuado no
Santa Izabel, certamente teria morrido, mas, naquela ocasio,
papai e mame s pensavam em me salvar.
      Muita gente soube que eu estava no hospital e se dirigiu
para l. Realmente, notcia ruim voa. Jnior e o perfumista da
Colgate logo ficaram sabendo do meu estado e chegaram a me ver
em coma. Era a ltima vez que eles veriam a Luciana bonita.
Poucos dias depois, eu j me transformaria no horror que sou
hoje...
      Sabe que at cheguei a ter um pequeno romance com esse
perfumista, que, por sinal, era muito atraente? No foi coisa
sria. Nem eu nem ele nos envolvemos. Ele era e  amicssimo
do Jnior. Apesar de trabalhar em outra unidade da Colgate,
eles se falavam diariamente pelo telefone, estudavam e saam
juntos. Do meu canto do laboratrio, ficava ouvindo aquelas
conversas, sabendo que, quando no estivesse ouvindo, deveria
ser tema de uma delas. Nessa poca, eu no namorava mais
Lucas, e levava muito pouco a srio meu novo relacionamento
com Cristian, sendo vrias vezes infiel...
      Cristian se introduziu na minha vida mansamente. Quando
fui para a Colgate, conheci Cleusa, uma japonesa de meia
idade, carrancuda, super workaholic e de destaque nos
laboratrios. Conheci tambm sua puxa-saco oficial, Poliana,
gorda, chata e muito invejosa de minha ascenso profissional;
Nelson, casado, apesar de ter s 28 anos, brincalho, esperto,
sempre disposto a nos ajudar contando uma piada, muito legal e
amigo; e um rapaz lindo, bronzeado, meigo, tmido, muito
carinhoso, Cristian, por quem me apaixonaria mais tarde.
      Antes que eu perdesse de vez, e para sempre, as
estribeiras com Poliana, ela me falou de Cristian. Em uma
tarde, em uma poca em que conseguamos ainda travar alguma
espcie de relacionamento, estvamos conversando e, por um
motivo qualquer, Cristian, que estudava farmcia junto com
ela, veio  baila. Foi ela quem me falou:
      - O Cristian est sozinho e carente, O corao dele s
est  espera de uma esperta, que ocupe seu lugar nele.
      Ela no estava se referindo a mim directamente, havia
feito somente um comentrio. Mas a esperta aqui se sentiu
cutucada. Eu estava sozinha, sem namorado, e, a partir da,
comecei a ver Crstian como homem, e no s como colega.
Comecei a provoc-lo com indirectas e no foi difcil
conquist-lo, j que ele tambm estava sozinho.
      Depois de ligar algumas vezes, convidando-me para sair,
um dia deu certo: 25 de agosto de 1993. Fomos a uma leiteria
cheia de casaizinhos, pedimos umas bebidinhas e comeamos a
conversar. Cristian conseguiu falar quase uma hora sem parar,
e eu o olhava morrendo de vontade de "ficar" com ele. A
leiteria tinha um clima propcio para isso. Quando eu estava
pronta para tomar a iniciativa, ele me beijou. E como beijava
bem! Ficamos o resto da noite juntos e pode contar da nosso
namoro, cheio de idas e voltas.
      No dei o valor que ele merecia durante o nosso namoro.
Quase nunca o levava a srio. Hoje, acho que Cristian no teve
maturidade para segurar uma barra to pesada quanto esta que
estou enfrentando. Mas no o condeno... eu tambm no teria.
Veja s a situao: de um lado, a vida, cheia de pessoas
maravilhosas, com quem ele poderia se relacionar, casar, ter
filhos, e levar uma vida normal; do outro lado, eu,
completamente modificada, horrvel, invlida e sem ao menos
poder falar. Era pedir demais para qualquer um - que dir ele,
que deve ser muito assediado. Mas ele levou essa situao at
onde deu...
      Cristian era um verdadeiro companheiro: dividia comigo
os problemas de trabalho, compartilhava os mesmos projectos,
tinha os mesmos gostos, mostrava-se apaixonado, cercava-me de
carinho e ateno. E ele  lindo! To diferente de Lucas... O
que mais eu podia querer?
      No dia 26 de maro de 1994, tivemos um encontro muito
especial. Fui com ele para um motel superaconchegante. Fui eu
que sugeri. J estava tomando plulas. Lucas foi o nico homem
que me levou a tomar plulas. Se Cristian usufruiu essa
liberdade foi por coincidncia. Isso mesmo! Eu traa Cristian
com Lucas. Mas eu no tomava isso como uma traio... Se Lucas
queria se encontrar comigo, mesmo sem estarmos mais namorando,
eu no pensava duas vezes, nem uma, eu simplesmente ia ao seu
encontro. Mas eu e Cristian chegamos a fazer um teste
anti-HIV, s para podermos fazer amor despreocupados. S assim
me sentia  vontade.
      Tomamos um vinho delicioso, bem devagar, entre namoros e
aconchegos. Cristian estava especialmente desejvel naquela
noite. Seus beijos e seus carinhos eram, realmente, o mximo.
Pela primeira vez, achei que, mesmo longe de Lucas, era
possvel ser feliz. Foi divino fazermos amor, mas havia uma
tristeza no ar. Aquele encontro tinha um pouco de despedida,
pois, no dia 1 de abril, Cristian iria viajar, passar frias
na Europa.
      A vida nos pregou uma pea. Era a ltima vez que
fazamos amor. Na realidade, nosso encontro tinha muito mais
de despedida do que podamos imaginar. Depois que tudo acabou,
olhei para o seu rosto e me dei conta de que gostava dele de
verdade. Uma prova disso, era minha presena ali, naquele
quarto. Mas era tarde demais para revelar o meu amor, depois
de tudo o que aprontei. Dali a quatro dias, Cristian iria para
a Europa. Na volta, eu estaria em coma profundo. Nunca mais
poderia mostrar que, daquela vez, estava falando a verdade.
Tarde demais...
      Nessa noite tive a certeza de estar apaixonada por
Cristian e vivi, de facto quatro dias seguidos de amor. Um
amor que me abria um horizonte novo. No meu passado,
basicamente, s havia lugar para Lucas, a quem entreguei os
melhores anos da minha juventude. Foi difcil esquec-lo, mas
meu corao parecia ouvir Cristian dizer:
      - Sempre estive ao seu lado e voc nunca me levou a
srio.
      Nunca pude mostrar-lhe como age uma Luciana Scotti
apaixonada. Tive muito pouco tempo para mostrar apreo,
afecto, ternura... Espero que Cristian se lembre daqueles
quatro dias, que foram nicos. Nada demais aconteceu, mas
foram um marco na minha vida.
      Os dias se passaram, Cristian viajou de frias, e
pertssimo da sua volta sofri a trombose. Comprei uma roupa
nova para recepcion-lo, esperava ser uma boa namorada dali
pra frente. Em vez disso, quem o recepcionou? Uma namorada
muda, careca e tetraplgica. Nunca mais poderia dizer-lhe:
     Eu te amo! 
Sinto muito, Cristian, mas fique certo, sinto mais por mim.
      Caio tambm estava viajando, tinha ido a trabalho para
Miami, e nem suspeitava de que eu estava em coma. Eu e ele nos
dvamos superbem,  ramos capazes de ficar horas conversando.
Se ele estava, estava tudo bem; se no, eu ficava perdida.
Caio era o tcnico de escovas de dentes da Colgate, uns 26
anos, muito extrovertido e superdinmico. Com o tempo, foram
surgindo entre ns muitas afinidades. Gostvamos de danar, e
juntos danvamos divinamente; gostvamos dos mesmos tipos de
roupas, de pessoas, de trabalhos, de lugares. Fazamos os
mesmos tipos de comentrios; enfim, nos dvamos perfeitamente
bem. ramos como almas gmeas. Nasceu entre ns uma amizade
muito especial. Pena que despertou a inveja de muita gente.
      Caio no  um tipo que chame a ateno de cara, mas eu o
achava o mximo. Sempre vaidoso, desses que possuem mil
camisas, e cada uma combinando com um par de meias. Estatura
mediana, no  nem gordo nem esqueltico. Cabelo
castanho-escuro, com duas fortes entradas. Olhos grandes e
castanhos. Todo mundo fazia mil comentrios a respeito dele,
diziam que ele era vaidoso, s dava valor s aparncias, mas a
gente se dava bem e ignorei essas bobagens.
      Nem por um segundo fiquei balanada por ele enquanto
estava com Lucas. Em primeiro lugar, porque eu estava muito
apaixonada. Em segundo, porque essas afinidades, de que falei
h pouco, s fomos descobrindo lentamente.
      Passamos o Carnaval de 94 juntos. Eu, Cristian, que
ento era meu namorado, Caio e mais umas 15 pessoas. Esse era,
alis, um dom que eu tinha: conseguia agitar, toda semana, uma
turma para danar, viajar, beber, conversar, ou fazer o que
tnhamos vontade. Essa caracterstica havia se acentuado mais
enquanto convivi com Lucas. Ele tambm era assim. E vivia me
explicando que isso era um perfil de liderana. Gostava de
v-lo diante de seus amigos, organizando jantares, festas,
passeios, reunies... Os amigos do Lucas no faziam nada sem
ele. Sempre tnhamos compromissos sociais. Acho que incorporei
esse trao da sua personalidade. Gostava de reunir a turma. A
verdade  que, depois que fiquei doente, eles nunca mais
saram todos juntos.
      Nesse carnaval, minha paixo pelo Cristian sumiu
momentaneamente. Com certeza essa viagem no veio para nos
unir. A presena de Caio mudou tudo: ele fazia as coisas que
eu esperava. Alm disso, havia os meus amigos, minha turma, o
que exigia a minha participao em todas as actividades.
      Na tera, fomos para uma praia distante. Fez um tempo
excelente, O Sol, to querido, brilhou amigavelmente. Quando
voltamos, fui tomar banho pensando na minha relao com Caio,
em como  ramos parecidos, como suas atitudes me agradavam, e,
principalmente, como  ramos amigos. Sa do banho e fui para
uma rede, perto do quarto. Caio sentou-se comigo na rede e
passou o brao pela minha cintura. No me lembro quem falou o
qu, s me lembro que nos olhamos e nos beijamos. Ningum viu.
Caio me arrastou pela mo para as ruas vizinhas, onde pudemos
ficar mais  vontade.
      Estvamos enrolados desde o carnaval...

Dia 6 de junho de 1996

Bom dia, amiga!

 No Santa Izabel, os mdicos providenciaram um teste
toxicolgico. Precisavam confirmar que eu no usava drogas.
Logicamente esse teste deu negativo.
      Patrcia j havia sido avisada de que eu estava no
hospital, e j havia avisado tambm nossos amigos mais
ntimos. Chegou chorando, lamentando meu azar. Ao contrrio
dos mdicos, ela logo suspeitou da plula anticoncepcional,
pois tinha certeza de que eu no ingeria drogas. Assim como
eu, ela sabia que a plula tinha algo a ver com o que estava
acontecendo.
      Preciso dizer que a Pat  uma amiga muito especial.
Nossa amizade nasceu na faculdade. Muito bonita, judia,
moderna, jovem e inteligente. Nossas vidas eram cheias de
coincidncias. Com ela, sentia-me  vontade para falar de
Lucas e de nossos problemas. Pelo facto de ser judia, entendia
muito bem a discriminao da famlia dele em relao a mim.
      Engraado como a gente acaba se embrenhando pela vida de
quem ama. A certa altura, tomei a religio de Lucas como
minha, j que eu era catlica s por causa do baptizado e da
primeira comunho. Interessava-me por palavras em hebraico,
datas bblicas e seus porqus, os alimentos, as vestimentas,
os nomes de cada utenslio... At grudei no meu carro um
adesivo com a bandeira de Israel e cheguei a usar, como
pingente, uma estrela de Davi. No adiantou muito eu me
mostrar aberta s tradies, s Lucas parecia dar valor, pois
sua famlia permaneceu sempre fria e impessoal comigo.
      Quero comentar aqui essa viso que a maior parte das
pessoas tem dos judeus. Meus amigos judeus que me perdoem, em
especial a Pat e o Sr. Isaac, dono das lojas Casa das Cuecas.
Do meu ponto de vista, foi barbaridade o modo como os judeus
morreram, no passado. No presente, porm, a fachada de
coitadinhos no deveria mais ser usada. No serve mais.
Existem milhes de artigos, filmes e livros que nos lembram, a
toda a hora, a loucura da perseguio nazista. Os judeus no
nos deixam esquecer, e nem devemos mesmo esquecer essa
tragdia. Acontece que agora pagam, de forma mais subtil, na
mesma moeda: o preconceito. Basta viver no meio deles, como
vivi, para perceber. So unidos e fechados, formando uma elite
que abomina qualquer influncia externa. Sofri na pele esse
preconceito, sei o que estou dizendo.
      Sei tambm que tudo o que digo s pode valer para a
famlia de Lucas, e no para todos os judeus. Sei que estou
generalizando. , parece que me tornei tambm
preconceituosa... Ser? Acho que no! Meus amigos judeus podem
ficar tranquilos e ter a certeza de que nem penso neles quando
falo assim. Apesar de toda a discriminao que sofri, no
sinto raiva dos judeus. Reconheo a coragem desse povo,
sofrido, com muito apego s razes e tradies. Por algum
tempo eu me esforcei para ser uma judia. Por algum tempo eu me
apaixonei por um judeu. Todos os meus esforos foram inteis:
nem meu namoro terminou bem, nem adoptei o judasmo como minha
religio.
      Meu namoro com Lucas realmente trouxe  tona um monte de
questionamentos e decises, mesmo que para nada tenham
servido. Um facto, porm, trouxe a morte de meu futuro, sem
que eu pudesse imaginar. Durante meu namoro com Lucas, tomei,
sem saber, a deciso mais insensata de toda a minha vida:
decidi ir a uma mdica e comear a tomar plulas
anticoncepcionais. Lucas deixava bem claro que detestava
camisinhas, por isso apostei que o uso de um contraceptivo
iria deix-lo radiante. Apostei nisso e digo que decidi por
ns dois. Era eu quem tomava as plulas, mas elas evitavam
filhos para os dois, garantiam a tranquilidade dos dois.
      Hoje sei que o risco era todo meu: tomando ou no
tomando a plula. Menti, sofri preconceito, frustraes...
Estou desiludida. Acabei muda e tetraplgica, e isso no faz
sentido. Acho ento que ter feito tudo por amor  a nica
explicao possvel. Sei que, na verdade, o que procuro  uma
justificativa para to grande tragdia, uma medida dessa
injustia. Como nada pode explicar o que ocorreu, a amargura
acaba transbordando.
      Lucas era, para mim, simplesmente o mximo. Em nome
desse amor, fiz n coisas. Por isso me sinto no direito de
perguntar onde ele vai achar algum que tenha gostado tanto
dele. s vezes no tenho dvidas de que minha vida de hoje  o
reflexo de uma atitude de jovem apaixonada. Mas ser que uma
paixo pode ser a nica causa de tanta desgraa? Como j
disse, Lucas  algum de quem gostei muito. Todas as vezes que
penso nisso, acabo tendo por ele um certo desprezo.  duro
pensar que ele atribui tudo ao azar. Para ele, o facto de eu
estar tetraplgica  simplesmente um azar, no tem nada a ver
com amor.
      Um dia falei para a Pat que queria tomar plulas, que eu
e Lucas queramos dar adeus s camisinhas. Na maior boa-f,
ela me falou de uma mdica ginecologista, a doutora Gilda,
indicada por uma amiga sua. A prpria Pat nunca tinha se
consultado com ela, mas as indicaes diziam que era boa
mdica. Marcamos duas consultas, e fomos juntas, no meu carro,
ao consultrio.
      Gilda  loira, alta, bonita, chique, de meia-idade. 
formada pela USP e tem um consultrio muito alinhado. De
sada, elogiou minha sensatez e disse que a plula que estava
receitando era fraquinha. Era tambm uma das mais caras, e
tudo isso me deixou muito tranquila. Ela disse ainda que essa
plula era segura desde o primeiro dia de uso. No fez mais
nenhuma recomendao, s falou que eu podia parar e voltar a
usar quando fosse necessrio. Sa de l satisfeita. A partir
da, passei a tomar plulas, em 1991, e ela ficou sendo minha
mdica.  preciso que fique claro que mostrei que era fumante,
pois acompanhei-a em um cigarro.
      No final do primeiro semestre de 1993, comecei a ter
dores de cabea que, apesar de desaparecerem com aspirinas,
estavam ficando cada vez mais frequentes. Decidi marcar uma
consulta com a Gilda, queixei-me de dores de cabea, mas ela
no deu a devida importncia  minha reclamao. Hoje, mais
que raiva da Gilda, tenho raiva de mim mesma, que dei chance
para essa desgraa, o AVC, acabar com a minha vida. De certo
modo, Lucas tem razo. Posso admitir que foi um grande azar.
Mas tambm devo reconhecer que dei chance para isso
acontecer...
      Ser que um AVC, aparentemente, no tem alerta? No 
verdade. Para ns, leigos, ele vem repentino como o prprio
nome diz: um acidente. Parece que no d para prever, to
repentino quanto um acidente de carro, um tiro, um mergulho
errado... Mas um bom ginecologista no pode partir do
pressuposto de que uma trombose nunca vai ocorrer com uma de
suas pacientes. A Gilda pensou assim.
      A ignorante de uma vizinha minha j veio vrias vezes
perguntar o nome da plula que eu tomava, como se isso
bastasse para livrar a filha dela de uma trombose. Como
explicar que o AVC no aconteceu com jovens que tomavam a
mesma plula e tambm fumavam? E os que tomavam outros
anticoncepcionais e tambm tiveram um AVC?
      Acontece que tomar plulas, fumar e sentir dores de
cabea so indcios que devem ser levados muito a srio. Com
todos esses sintomas, acho que seria possvel evitar uma
trombose: suspenso da plula, medicamentos, at um exame
prvio de ressonncia electromagntica. E o trombo teria se
diludo, e eu continuaria a andar por a... Que dio da Gilda!
At quando teremos mdicos irresponsveis?!

Dia 11 de junho de 1996

 Doce amiga,

 Aos poucos ia chegando a hora da metamorfose.
Inconscientemente, eu ia dando adeus ao meu corpo bem-feito,
aos meus traos delicados,  minha pele de pssego (hoje
parece uma lixa), aos meus longos cabelos loiros, s minhas
pegadas,  minha voz (que nunca mais ningum ouvir), aos meus
movimentos,  dana (to querida!), ao meu querido Uninho e a
mais um milho de coisas. S tenho factos para recordar, a
todo o instante. Por isso repito, reconto, relembro as coisas
que tinha.
      Muita gente deu o maior apoio aos meus pais enquanto eu
estava no hospital, Nilza foi uma dessas pessoas e Luciano
tambm sempre estava por perto. Lu  um grande amigo at hoje,
e nos conhecemos no muito antes do acidente.
      Um dia sa com Cristian e ele passou mal da gastrite.
Fomos para a casa dele, que estava vazia, mas no aconteceu
nada de mais Intimo, ele estava realmente mal. Liguei para
Priscila, para vir me buscar, quando estivesse passando para
ir at a casa do namorado. Conheci Priscila no colegial e,
durante muito tempo, fomos as melhores amigas do mundo.
 Minha amizade com a Priscila  joinha. Com ela no tenho
segredos, conto absolutamente tudo. S no sei como ela me
aguenta. Adoro essa garota. Sinto-me bem ao seu lado e v-la
sorrir j  motivo bastante para me fazer sorrir tambm. Gosto
tanto da companhia dela, valorizo seus conselhos, me sinto
absolutamente  vontade para falar de mim, me divirto se ela
conta factos engraados, defendo-a em qualquer circunstncia,
gosto muito da famlia dela como se fosse uma segunda famlia.
 mesmo uma amiga de ouro, verdadeira, presente, que nunca vai
me faltar.
 Minha amizade com Priscila era slida como uma rocha, parecia
que nada poderia destru-la. At cheguei a brigar com minha
me, dizendo que Priscila  que era amiga de verdade, e minha
me sempre repetia:
      - Amiga de verdade  a sua me.
      Mas eu achava Priscila o mximo. Engano meu. Acho que
minha me tinha razo.
      O namorado da Priscila era um homem mais velho que a
gente uns vinte anos, e com quem ela ameaa hoje se casar. No
comeo, fui radicalmente contra, mas hoje no importa. Apesar
da diferena de idade, ele  muito legal, e sempre me tratou
superbem. Actualmente, acho-o encantador. Um presente da vida
para Priscila. No comeo desse namoro, minha mentalidade de
criana mimada no me deixava compreender. Mas a verdade 
que, s vsperas do meu AVC, j o achava extremamente
simptico, e hoje, sempre que tem oportunidade, ele se lembra
de mim.
      Nessa noite, em que Cristian passou mal, amos a uma
festa cubana, na casa de um amigo do namorado da Priscila.
Priscila me pegou no apartamento do Cristian, deu-lhe o
endereo da festa, e ele anotou, prometendo que iria para l
mais tarde. Do apartamento do Cristian fomos para a casa do
namorado dela, que mora sozinho; de l, fomos para a casa do
amigo dele: Luciano.
      Estatura mediana, 32 anos, cabelo castanho-escuro e
curto, usa culos, uma figura e tanto, e muito bem
apresentvel. Logo ele falou:
      - Saudaes proletrias, companheiros!
      Luciano nos acolheu super bem, fez a gente se sentir em
casa. Lu  advogado, totalmente contra o capitalismo - imagine
que na sua casa nem existe TV -, f do Mir,
intelectualssimo, e dono de um possante BMW. Claro que esse
supercarro e sua posio financeira despertavam meu interesse,
mas no era s isso. Era por ele ter tudo isso e ainda morar
sozinho. Por tudo isso ser fruto de seu trabalho. O que
mostrava que ele era e  competentssimo.
      No dia da festa, conheci a parte de cima da sua casa. Ao
lado da sua cama de casal tinha um porta-retratos sem foto.
Isso deixava claro que ele estava sem namorada.
      Encantou-se com os meus cabelos. Preparou para ns um
drinque cubano e danou comigo uma msica caliente. Eu j nem
queria que Cristian aparecesse a essa altura do campeonato,
pois estava realmente empolgada. No auge da festa, no entanto,
chegou meu namorado. Fiquei fria e distante, at fisicamente,
pois s tinha olhos para Lu. Depois que Cristian chegou, a
festa, para mim, tinha perdido a graa, e fomos embora
rapidinho.
      No dia seguinte ao da festa, falei com Priscila,
contei-lhe que estava interessadssima pelo Luciano, e ela me
deu a boa notcia: ele havia pedido o nmero de meu telefone
para o namorado dela! Lu no demorou muito a Ligar.
Conversamos um pouco e ele me convidou para ir ao Jazz
Festival. Estava com os convites de um amigo que no poderia
ir naquele dia. Topei na hora! Fui convidada de novo e fui
tambm no outro dia, com um primo dele e a mulher. Nunca ouvi
tanto jazz em toda a minha vida e adorei ser companhia daquele
homem interessante.
      Cristian sabia que eu estava saindo com Luciano, porque
um amigo dele era, ou , estagirio do Lu. E as coisas ficaram
assim. Sem nenhum tipo de cobrana.
      Luciano me falava de um milho de ex-namoradas, de sua
descendncia judaica e de seus clientes judeus. Tinha medo de
que algum se aproximasse dele s por interesse. Com certeza
esse no era o meu caso. Ficava fascinada com seus casos na
justia, com suas estratgias para ganh-los. Isso fez com
que, em primeiro lugar, eu me interessasse por ele; em
seguida, apaixonei-me pelo seu jeito. O facto de ele ser
advogado, intelectual, bem-sucedido e mais velho despertava
meu interesse. S de uma coisa eu no gostava: do bilho de
ex-namoradas que ele tinha e no fazia questo de esconder.
      O clima entre a gente ia ficando mais quente.
Arrumava-me com gosto, cada vez que ia sair com ele. Alm de
tudo, ele se dava bem com a minha famlia.
      Lembro-me dele, por diversas vezes, segurando minha mo,
em um restaurante qualquer, enquanto conversvamos. Uma noite,
no resisti aos seus encantos e "ficamos" juntos. Nosso
relacionamento foi curto, porm intenso. Pelo menos para mim.
Tanto  verdade que cheguei a fazer amor com Lu. Uma noite
fomos para sua casa, abrimos um champanhe francs e nos
dirigimos para um corredor rectangular, na parte de cima da
casa, de onde se via a Lua. Ali mesmo, no cho, fizemos amor.
Ou melhor, eu fiz amor e Luciano transou comigo. Fazer amor
era o tipo de coisa que eu s conseguia fazer apaixonada.
Hoje, nem assim... Tambm tive que dar adeus a esse assunto...
      Gostei mesmo do Luciano, mas, em se tratando de fazer
amor, no pode e no deve ser comparado ao Lucas, que para mim
 imbatvel. Foi gostoso, mas transamos de camisinha, porque
eu s tomava plulas se realmente soubesse que iria me
encontrar com Lucas, mesmo estando de namoro com Cristian
tambm.
      Era to gostoso ficar aninhada nos braos do Lu, na cama
de casal do seu quarto, olhando a luz da rua pela persiana; e
depois sair para comer pizza... Esse relacionamento durou uns
dois meses. Uma noite fui tomar sorvete de damasco com ele.
Uma delcia! A dei a entender que no queria mais namorar.
Por dois motivos: a balana dos sentimentos do nosso namoro
comeava a pender para o meu lado, e Lucas j havia servido de
experincia. Achava tambm que, para o Lu, eu s estava
ajudando a engordar a sua lista do bilho de namoradas, o que
era uma pena! Era melhor cair fora desse relacionamento, antes
de estar perdidamente envolvida e voltar a sofrer. Ao mesmo
tempo, parecia que a vida, inconscientemente, me dizia:
      - Aproveite sua liberdade agora, porque depois... no
vai dar.
      , no d mais mesmo!
      Luciano disse-me naquela noite que estava se apaixonando
e que veio no carro pensando, enquanto ia me buscar:
      "Hoje quero fazer amor de verdade com a Luciana."
      Era a primeira vez que ele usava o termo "fazer amor".
Tarde de mais. Enquanto esse tempo todo eu me entregava e
realmente fazia amor, para ele tudo no passava de uma transa.
Tive certeza de que nosso relacionamento era desigual. Sa da
vida do Luciano. Falando de meus namorados aqui, devo estar
dando a impresso de que eu era muito livre, de que tinha
liberdade para fazer o que quisesse da minha vida. No 
verdade. Agia muitas vezes escondida. De maneira nenhuma culpo
minha famlia pelo que houve comigo. Muito pelo contrrio. S
tenho que agradecer todo o amparo que me deram, tanto que at
me faltam as palavras. Sou responsvel por tudo o que fiz.
Alm disso, em toda essa tragdia, a nica responsvel,
clinicamente falando, foi a Gilda. S ela poderia ter me
alertado sobre o risco de um AVC. Ela tinha a minha
credibilidade e, apesar de eu ser fumante, tomar plulas de
terceira gerao e estar sentindo dores de cabea, no me
alertou para a possibilidade de uma trombose. Ser que ela
clinica sem saber desse risco? E  um risco to destruidor que
me restou uma pergunta que insiste em retornar: ser que esse
AVC no poderia ter sido evitado? Ser que se a Gilda tivesse
me avisado nada disso teria acontecido?
      Meus pais me vigiaram como puderam. Eu tinha - e tenho -
abertura para falar de qualquer assunto com eles: drogas,
sexo, trabalho, namorados, etc. Quero dizer com isso que o
excesso de zelo, uma supervigilncia, no  a melhor poltica.
Quando algum quer mesmo fazer o que  proibido, faz. No tem
vigilncia que d jeito.
      Tenho uma prima que levou a filha a um ginecologista,
para que ela comeasse a tomar plulas anticoncepcionais com o
acompanhamento de um mdico. Liberal demais? Talvez. Pensando
bem, at tomar remdio com acompanhamento mdico, eu fiz.
Quando decidi tomar anticoncepcionais, tratei primeiro de
procurar um ginecologista, para s ento me medicar. Se
surgissem efeitos colaterais, alguma dvida ou um imprevisto,
eu estaria assessorada. Mas nada disso adiantou.
      Sempre ouvi, durante minha vida toda, que o certo seria
agir assim. Certo para qu? Para ganhar uma trombose e nunca
mais andar e falar? Certo para no ser levada em considerao
por ser um caso raro? isso no quer dizer que todo o mundo que
tomar plulas e fumar vai ter um AVC. Sou um caso raro,
repito. Mas a plula e o fumo, junto com dores de cabea, por
exemplo...  melhor as mulheres ficarem alertas,  melhor
prevenir que remediar. No meu caso, no d mais para remediar.
      Eu tive bom senso, procurei fazer a coisa certa, mas no
fui respeitada pela mdica! Algumas pessoas podem tomar
plulas; outras, no! Quanto a curtir a vida? O que  que h
de errado em curtir a vida? Em fazer amor com quem se ama? Em
estar apaixonada? Do meu ponto de vista, tudo certo. Tambm
acho certo tomar precaues. Mas o facto  que eu mentia, e
nesse esquema de mentiras eu ia levando a vida.
      Fui levada pela surpresa...

Dia 21 de Julho de 1996

 Juju, minha linda!
      
     No s os amigos, mas tambm alguns parentes, mesmo os
mais distantes, foram at o hospital ver o que estava
acontecendo comigo. Entre eles, uma prima, que indicou o
neurologista metido a Deus que iria fazer da minha vida algo
pior que a morte: Dr. Decio.
      Eu acho que havia chegado a minha hora de morrer. As
ltimas badaladas avisavam que meu tempo estava terminando por
aqui. Mas no me deixaram ir...
      E com que direito um mdico transforma uma pessoa em um
farrapo humano e ainda diz que a salvou? Uma mulher que tinha
dignidade, personalidade, vaidade, privacidade, identidade,
orgulho, amor prprio, e agora vive para constatar que no tem
mais nada disso e para lutar pelas migalhas da vida. As
pessoas costumavam me cumprimentar nos lugares, minha opinio
era requisitada, minha palavra era levada a srio. Como era
vaidosa, como me cuidava... Passava horas diante de um
espelho. Recordo-me tambm de ser geniosa, falante, alegre,
impulsiva. Quando sinto que ningum mais faz questo de me
cumprimentar, de saber minha opinio, sofro. Hoje, quando me
vejo em um espelho, com o cabelo feio, dentes amarelos, pele
ressecada, corpo disforme, tambm sofro. Entregue  mudez,
deixo a tristeza no meu silncio.
      Se queriam transformar vida em simples existncia, cu
em abismo, beleza em feira, pois bem, conseguiram. Os mdicos
que "trataram" de mim foram de um requinte de maldade sem
igual... deram-me a sobrevivncia, mas me deixaram perder a
vida. No foram capazes de conservar em mim um tantinho das
coisas que me mantinham viva, salvaram somente uma coisa - que
no ajuda quase em nada e causa muito mais dor do que causaria
se a tivesse perdido tambm: a conscincia.
      Na verdade no foi o doutor Dcio que foi chamado, e sim
o doutor Clvis, que vim a conhecer depois. Doutor Clvis
estava viajando e o bip dele estava com o doutor Dcio.
Ento...
      Meus pais deixaram claro para o doutor Dcio que no
tinham recursos e que tudo estava sendo conseguido atravs do
meu seguro-sade.
      - O seguro dela nos paga o suficiente - ele respondeu.
Ento, comeou a me assistir.
      Enquanto isso era como se estivesse dormindo. Passei um
dia no Hospital Santa Izabel. Depois fui levada de ambulncia
para o Hospital Aibert Einstein. Eu e toda a aparelhagem que
me mantinha viva. Meu pai foi obrigado a assinar um termo de
responsabilidade, pois era arriscado me transferir.
      No Einstein, fui identificada atravs de uma
pulseirinha, de plstico, contendo meu nome. Uma das primeiras
coisas que fiz foi um exame de ressonncia eletromagntica,
para descobrir o que vinha praticamente me tirando a vida.
Descobriram uma destruidora trombose cerebral, e logo fui
preparada para uma cirurgia. Uma artria, a artria basilar do
crebro, entupiu e causou a convulso e o coma. A presso
intracraniana subiu e era preciso fazer uma operao para
drenar o lquido enceflico e fazer a presso cair.
      Meu pai autorizou a cirurgia. Ele e minha famlia me
queriam de volta e no sabiam como eu iria ficar. Acho que se
eles soubessem, do ponto de vista humano, teriam impedido.
Ontem mesmo eu disse para minha me:
      - Sabia que  uma maldade me manterem viva?
      - Ns te amamos, Luciana. Seja do jeito que for -
respondeu ela.
      E eu sei disso. Sei que fizeram de tudo para me salvar.
E agora no h nada que se possa fazer. Como diz o ditado: "O
que no tem remdio, remediado est".
      A cirurgia ia ser feita no crebro, e ento aconteceu
uma das coisas mais trgicas da minha vida: raparam meus
lindos e longos cabelos. Eu gostava tanto dos meus cabelos! Eu
era aquele tipo de garota que mantinha sempre o cabelo longo,
no por algum motivo especial, s porque o adorava mesmo.
Tanto que tinha medo de cort-lo, repic-lo, pint-lo, fazer
permanente, reflexos... Cuidei, cuidei... at que entrei em
coma e uma besta qualquer veio e o rapou! Quando visto uma
roupa esquecida na gaveta e junto com ela vem um fio de
cabelo, loiro, comprido, antigo, que eventualmente caiu e
ficou preso ali, me vem as lgrimas nos olhos. Se pelo menos
esse cabelo de agora fosse parecido com o que eu adorei por 22
anos... Se pelo menos pensassem que eu preferia ter morrido
com o meu cabelo... Ningum pensou.
      Tem gente que fala:
      - Besteira, cabelo cresce de novo!
      , mas igual quele, nunca mais. Dava tudo para ter
morrido com meu cabelo; no entanto, esse golpe de misericrdia
me foi negado. Alis, o que aconteceu merecia ser pesquisado:
meu novo cabelo nasceu castanho-escuro, quase preto, bem
diferente do original, que era quase loiro. No meu perodo em
coma, tomei muita cortisona, e atribuo a isso talvez meu
actual cabelo que, definitivamente, no  o natural. Tem gente
que acha que  falta de sol, mas nunca tomei sol no inverno e
jamais meu cabelo escureceu.
      
      Descobri a oitava maravilha do mundo: o clube de
esportes da USP? o CEPE-USP Frequentemente cabulo aula para ir
l. Sol e piscina! Existe apelo maior?
      
      Durante uma fase em que cursava a Universidade, eu me
transformei na garota CEPE-USP. Na piscina do Centro
dEsportivo, falavam que eu tinha o corpo mais bonito das
frequentadoras, e isso fazia de mim uma garota bronzeada e
mais alegre. Mesmo depois, com o tempo mais escasso, no
abandonei o CEPE-USP e, sempre que fazia sol, corria para l
nos fins de semana. S abandonei mesmo quando fiquei doente.
Di ver meu irmo como frequentador, eu impossibilitada de ir.
Mesmo que dessem um jeito de me levar, no quero ir. Quero que
o CEPE-USP e seus frequentadores se lembrem de mim como eu era
e no assim, neste estado.
      Bom, mas o que interessa  que raparam meu cabelo e fui
para a cirurgia. Continuei desacordada.
      Na cirurgia havia outro Deus presente: doutor Pacheco.
Ele no estava muito preocupado com o nvel de vida que iria
me dar, s com a vida que ia dar, sem adjectivos.  isso que
quero defender...  maldade dar toda a conscincia a uma
pessoa e deix-la, como os mdicos diziam que eu teria, com
uma vida vegetactiva.
      Juliana, voc j viu um neurologista falando? Chega a
ser inquietante:
      - No sei... ainda  cedo para afirmar... seria
precipitado fazer um prognstico... Vamos esperar...
      Eles nunca se comprometem, no sabem ao certo de nada e,
quando sabem, erram. Veja meu caso, por exemplo. Adiaram meu
prognstico ao mximo. Quando, finalmente, se manifestaram,
"pintaram o diabo mais feio do que ele era Segundo eles, entre
mim e um vegetal no haveria nenhuma diferena: eu entenderia
tudo, teria toda a conscincia, mas no me comunicaria nem me
mexeria. Se era esse o prognstico - consciente, mas com uma
vida vegetactiva -, era ou no maldade me deixarem assim? E
sentir-se transformada num vegetal lcido no  um motivo de
revolta?
      
      Cada palavra, cada objecto, cada cano  motivo de
sobra para me lembrar da vida que tinha e concluir que isto
no  vida. Por isso, senhores mdicos, antes de darem vida a
algum, ponham a mo na conscincia e se perguntem: "Que
qualidade de vida esse indivduo vai ter?". s vezes no vale
a pena, nem para o indivduo em questo, nem para os que o
rodeiam. Depois de anos em uma faculdade de medicina, ser que
no h lugar para bom senso?  com experincia que falo isso.
Que qualidade de vida eu tenho? Que qualidade de vida eu teria
se o prognstico tivesse se realizado?
           Se me perguntarem qual o critrio para salvar uma
pessoa, respondo de imediato:
      -  fcil,  s o mdico se pr no lugar dela. No faa
aquilo que no gostaria que fizessem com voc.
      Uma vez vi um mdico na TV dizendo:
      - Toda vez que voc for fazer uma cirurgia, ponha na
mesa de operao sua famlia e pense se voc a realizaria...
       bem isso, mas conheo muitos mdicos que s pensam em
quanto a cirurgia vai custar, em quanto vo lucrar.
      Minha famlia vinha me ver todos os dias, mesmo eu
estando em coma. Minha me ficava horas me ninando,
conversando comigo, cantando, fazendo palavras cruzadas em voz
alta, e eu, aparentemente, inerte. Aparentemente, pois via-se
atravs de uma mquina que, ao sentir uma voz familiar, meus
batimentos cardacos subiam. O corao devia sofrer uma
descarga de adrenalina e entrava em taquicardia,
inconscientemente. Impossibilitada de devolver o carinho que
recebia com palavras, gestos ou olhares, devolvia com o
corao...
      Nessa altura dos acontecimentos, Caio e Cristian j
haviam chegado de viagem e tomado conhecimento da trgica
novidade.
      A seu modo, eles lamentaram muito meu estado. Podiam ter
lamentado bem mais, pois era pior que a prpria morte.
      Nessas horas, sempre tem gente que diz:
      - E, por acaso, voc sabe o que  a morte?
      Bem, eu estive bem perto dela. Estou falando de duas
paradas cardiorrespiratrias e quase dois meses em coma.
Repito, no me lembro de ter visto o tnel, nem um claro do
outro lado, como se costuma dizer, mas tambm no me lembro de
sofrimento, s de paz. Sofrimento conheci em vida, depois que
acordei, e no gostei.
      Durante a cirurgia, colocaram no meu crebro um dreno,
que no adiantou. A presso intracraniana continuou a
aumentar. O dreno no serviu de nada, s para deixar
cicatrizes no meu crnio. Fui levada novamente  sala de
cirurgia. Dessa vez, doutor Pacheco colocou no meu crebro uma
vlvula que sai do lado direito de minha cabea, percorre
superficialmente quase todo o meu corpo e vai pelo lado
direito at o baixo abdome. Tocando na minha pele pode-se
sentir algo plstico, cilndrico e duro, por baixo da
epiderme, e que vai me acompanhar pelo resto da vida. Essa
vlvula, que mora na minha cabea, percorre grande parte do
meu corpo, e vai at a barriga, no influi em nada nas minhas
sensaes.  como uma veia,  um tubinho que desce, por baixo
da pele, pelo meu pescoo, passa por baixo do seio, e vai at
perto da altura do umbigo. Lateralmente.
      Tenho uma grande cicatriz, por baixo dos cabelos, na
cabea, e uma inciso no final do caninho. Na cabea  onde a
vlvula comea, e no final da barriga, onde termina; mas eu
olho para a cicatriz perto do umbigo, sinto o tubinho
percorrendo todo o meu corpo e me pergunto que malabarismos o
doutor Pacheco fez para eu ter o estranho tubinho por debaixo
da pele, sem cortes, percorrendo quase todo o meu corpo.
      Depois das cirurgias, comeou mais de um longo ms em
UTIs, onde eu s dormia. Dormia e sonhava. Sonhos so
aparentemente sem nexo. Quem nunca sonhou? E em coma e igual.
Lembro-me de algumas pessoas, factos e imagens.
      Em um dos sonhos, eu estava com Lucas e passava mal. Sem
como nem porqu - essas coisas que s acontecem em sonhos
mesmo -, ele ligava desesperado para o mdico e pedia ajuda.
Engraado, fez no sonho o que em trs anos de namoro nunca me
mostrou... Queria que por um segundo Lucas perdesse a razo e
demonstrasse preocupao e ateno por mim, queria que um dia
ele atenuasse minha carncia... Bem tipo novela mexicana...
      Lucas morava no meu subconsciente e at em coma pensei
nele. Isso para mim tem uma importncia sem igual. Mostra que,
mesmo namorando outro homem e quase morrendo, dei um jeito de
me lembrar dele. Ele foi o grande amor de minha vida. Nunca
consegui esquec-lo. J havia gostado do Luciano e realmente
me apaixonado pelo Cristian, mas Lucas habitava fundo minha
alma, meu corao, todo o meu ser. Era uma coisa incrustada.
Eu no podia elimin-lo, porque ele estava em mim. Custei a
entender essa verdade...
     s vezes fico falando para mim mesma:
      - Onde ser que ele vai achar outra garota inteligente,
bonita, aberta ao judasmo, que se d bem com ele na cama, e
que goste dele como eu gostei? Onde?
       para chorar... Essa garota no existe mais. No sou
eu, ela nem est mais neste mundo...
      Quando comecei a trabalhar, em 1991, comprei para Lucas
um bonito chaveiro com meu primeiro salrio, e s depois de
muito custo ele o usou. Esse descuido era tambm revelado toda
vez que amos a uma festa, onde eu me sentia posta de lado, ou
mesmo quando fazamos amor, e eu sempre falava:
      - Amo voc!
      Mas os "eu tambm" eram escassos e raros. Isso me
deixava descontente, mas no o suficiente para terminar nosso
relacionamento. Eu, tola, achava que Lucas tinha dificuldade
para demonstrar seus sentimentos. Nunca cogitei a
possibilidade de ele no ser louco por mim, como eu era por
ele.
      Toda sexta-feira eu saa do trabalho cantando, pronta
para v-lo, mas ele sempre chegava tarde da noite, pois no
abdicava da sua sauna no clube. Quando ele chegava, eu j
estava com sono, tinha perdido o pique. Frequentemente
brigvamos, mas nem assim ele abandonava a sauna ou o jogo de
squash. Marcava repetidas vezes comigo um horrio e chegava,
por um motivo qualquer, horas mais tarde. Assim levamos quase
trs anos de namoro, at o dia em que explodi.
      Durante meu namoro com Lucas, sempre me perguntava:
      - Se ele realmente gosta de mim, por que no ficamos
juntos?
      Lucas se mostrava aptico, no tinha a minha clareza de
raciocnio. Claro que eu gostava de ficar com ele, em muita
coisa ele me complementava. Mas havia entre ns os seus
inseparveis amigos, e esses no podiam ser ignorados. Havia o
descaso dele, minha possessividade e, mais forte que tudo
isso, o cordo invisvel da religio, que insistia em nos
separar. Lucas no era forte a ponto de ignorar tudo isso e
fazer valer o corao.
      H agora a trombose cerebral. Ningum sabia que ela
viria, s Gilda poderia suspeitar; mas, de qualquer forma,
Lucas nem por sonho teria estrutura para segurar uma barra to
pesada. Justo quem? Lucas? Que nem sabe o que fazer se eu
espirro! E pensar que  ramos to ntimos... Se existe uma
pessoa que conheo at pelo avesso, essa pessoa  o Lucas. Mas
depois do AVC, ele continuou a viver e eu fui arrancada da
vida... Ns nos separamos. Hoje no temos nada em comum.

Dia 25 de Julho de 1996

Boa tarde, garota!

 Nem o que Gustavo me falou apagou Lucas de minha mente. Eis o
motivo de eu me lembrar dele at em coma. No sbado, dia 9 de
abril de 1994, fui a uma danceteria fina de So Paulo. L
encontrei um amigo do Lucas, o Gustavo, igualmente judeu. Era
tambm muito amigo do Betinho, que eu tanto odiava.
      Gustavo no era bonito, mas muito simptico. A sua
ltima namorada tinha sido catlica. Mais um caso entre judeus
e catlicos que no teve final feliz. Sei que at deve haver
judeus e gois que so felizes juntos, s quero mostrar que os
casos que no do certo so em nmero infinitas vezes maior. E
o caso de Bruno e de Maria Helena, por exemplo, ele judeu, ela
catlica, que hoje no esto mais juntos. Tambm Vtor (irmo
do Lucas) e Carla, eu e Lucas, Raquel (judia) e seu bonito
ex-namorado catlico... Coincidncia? Eu realmente creio que
no.
      Maria Helena ficou dois anos sem vir, sem telefonar, sem
dar notcias. Hoje ela e a irm se fazem presentes na minha
vida. Tenho saudades de combinar um cinema no shopping com ela
e Bruno, ou um churrasco no stio, uma viagem, um jantar, um
teatro...
      Falando de Bruno e de Lucas, Maria Helena exprimiu em
palavras uma dura constatao:
      - Eles no casaram com a gente porque no quiseram.
      Ao ouvir aquilo, ca no choro. Gostei tanto do Lucas,
apostei tanto nesse namoro... Uma carreira que prometia ser
brilhante, sonhos, um futuro azul, com casamento, filhos...
coisas que toda jovem almeja. Ser que um dia Lucas vai ver
isso?
      Maria Helena arrematou diante de minha tristeza:
      - Tenho certeza que, mesmo velhinhos, eles vo perceber
as mulheres que fomos.
      Mas, voltando, quando vi Gustavo na danceteria, sorrimos
e fui at sua mesa. Eu gostava daquela aproximao. Era um
jeito de eu estar perto do Lucas e tambm de lhe provocar
cimes. Fiquei muito emocionada ao falar com ele. Gustavo me
abriu os olhos. Falou que era claro, para quem via meu namoro
com Lucas, que existia um relacionamento desigual: s se via
amor da minha parte. Falou tambm das fraquezas do Lucas, de
como ele era dependente, monetria e emocionalmente, do pai.
Gustavo conhecia bem o amigo, quase to bem quanto eu. Mas "o
pior cego  aquele que no quer ver ... e eu no queria. At
seus amigos inseparveis viam que esse relacionamento era
desigual. Era bvio que eu gostava muito mais dele do que ele
de mim. Minha famlia tentou, por diversas vezes, me alertar,
mas uma mulher apaixonada no d ouvidos a nada... Tarde
demais.
      Em um outro sonho que tive, ainda em coma, Bia se
insinuava para Lucas, e os dois ficavam juntos. Tambm sem
explicao, eu assistia a tudo e me sentia muito magoada e
indignada com ambos. Eu e Bia  ramos muito amigas, e nosso
fim foi trgico. O meu e o dela. Ambas separadas da vida.
Ambas mortas. Vivamos cada minuto da vida como se fosse o
ltimo. At que foi. No momento certo, vou falar de sua morte.
Sua morte que veio completar a minha.
      Bia sempre foi muito diferente daquela que se dizia
minha melhor amiga, a Priscila. Bia jamais me abandonou, nem
eu estando tetraplgica e muda.

           Acabaram as aulas. Acabou tudo. Vamos pra faculdade
agora. E as amizades? No quero perd-las. Adoro minhas
amigas, principalmente a Bia. Nossa turma no pode se separar.
Ah, caramba! No quero que cada uma v prum lado, que encontre
outras amigas que se tornem mais importantes que ns, que,
quando nos encontrarmos, embora possamos parecer estranhas,
fique apenas uma obrigao: manter uma amizade do passado s
por aparncia.
      
      Lu,
      Eu no sei o que escrever, mas eu peo que voc nunca me
esquea porque nunca te esquecerei. Beijos,
      Bia.
      
      No meu aniversrio de 1993, Bia veio com um amigo. Era a
primeira vez, em muitos anos, que nos vamos, apesar de nunca
termos perdido o contacto. Ela estava magra, cabelos ondulados
e loiros, olhos cor-de-mel; havia se transformado numa mulher
muito bonita.
      Nosso encontro, aps anos, foi muito caloroso. Choramos
quando nos vimos e relembramos o tempo de ginsio. Tambm o
amigo dela foi afvel comigo. Seu pai, que era garom em um
restaurante aonde amos sempre e amigo de meu pai, sempre me
dava notcias dela, o que ajudou a estreitarmos os laos. Bia
era uma ptima companhia, estava sempre disposta a me
acompanhar nos programas. Em pouco tempo me transformei em sua
amiga ntima.
      Eu tinha centenas de amigos. Assisti passivamente ao
afastamento de cada um deles. Foram se distanciando, um por
um. No posso dizer que no sofri, j que no fazia mais parte
de suas vidas. No guardo rancor dessas pessoas, mas Priscila
 a responsvel pela maior decepo que um amigo pode dar. Eu
acreditei que  nas horas difceis que vemos os verdadeiros
amigos. As outras centenas de amigos que me cercavam eram
colegas, paqueras, vizinhos, parentes distantes... pessoas que
gostavam de mim, que me conheciam pouco e se deixavam fascinar
pelo que eu aparentava. Achei que a amizade de Priscila estava
presa ao que eu era, no s aparncias.
      A casca caiu. Uma trombose cerebral mostra que somos
mais do que aquilo que externamos e que a casca  frgil. Ela
pode se modificar totalmente, at ficarmos irreconhecveis.
Tudo em mim mudou, da cabea aos ps. Agora todo o meu corpo
est paralisado, restaram apenas as contraces involuntrias
que tenho nos msculos da face, como se fossem um tique
nervoso, e os gritos estridentes que substituem minha antiga
risada gostosa.
      Indiferente a tudo isso, Bia fazia parte da meia dzia
de amigos que me restaram (meia dzia  um saldo bastante
optimista...). Como se no bastassem os que j foram embora
com suas prprias pernas, uma amiga me foi arrancada, to de
sbito, to tragicamente, que nem pude lhe agradecer...
      Alm de sonhar com Lucas e com Bia, sonhei tambm com
meus pais durante o coma. Foi um outro sonho maluco. Eles iam
at o hospital me ver, saam de l, iam ao restaurante do
amigo de meu pai e almoavam. Comiam pombas assadas, servidas
pelo pai da Bia. No me pergunte de onde tirei isso, s sei
que me lembro assim.
      Estado de coma  um estado interessante. No se est nem
dormindo, nem acordada. Lembro-me de factos e pessoas. Muito
cuidado com o que se fala perto de uma pessoa em coma, ela
pode ouvir e se lembrar, como eu ouvi e me lembro de um monte
de coisas. Ainda no estava em coma, mas no foi  tico terem
me deixado ouvir a frase: "Ela no passa dessa noite". Nunca
me esqueci desse comentrio.
      J em coma, lembro-me da Gilda, no momento exacto em que
estava cumprimentando meu pai. Doutor Dcio chamou-a ao meu
lado e lhe disse:
      - Olha o que voc fez!
      E ela respondeu:
      - Mas isso  raro!
      Verdade,  raro. Mas  to destruidor que merece a maior
ateno. No se pode arriscar e ver se o raio cai duas vezes
no mesmo lugar ou no! Tive certeza de que a plula tinha mais
a ver com meu actual estado do que eu imaginava naquela
ocasio. Tive tambm de assistir ao desmoronamento, em uma
fraco de segundo, de todo o esquema, meu e de Lucas, para
ludibriar meus pais. E, desse esquema, Gilda, queira ou no
queira, fazia parte. No posso ter certeza, mas acho que essas
mentiras nunca viriam  tona no fosse o AVC. No me vanglorio
disso, s quero mostrar que meu azar vai alm do meu estado
fsico, estou moralmente destruda. Frases do tipo: "A vida 
minha", "Sei o que estou fazendo", "Eu me cuido" ou "Minha
cabea  meu guia" perderam totalmente o sentido para mim,
diante da realidade que me cerca.
      Azar, puro azar... uma trombose cerebral, na minha idade
e nas minhas condies  um caso em um milho, e eu fui
injustamente a escolhida. Quanta gente mata, rouba, estupra e
continua ilesa? Eu no fiz nada disso, e fui punida.  isso
que chamam de justia divina?  por isso que acho que a Gilda
foi negligente e imprudente. No podemos dar chance ao azar, e
ela deu. Em coma, eu vi a Gilda, e uma fora maior me empurrou
de novo ao meu sono.
      Tambm em coma, lembro-me nitidamente da irm do Caio. E
de suas palavras:
      - Est todo o mundo l fora te esperando... Caio est l
fora, aguardando...
      Era mentira, ningum espera uma tetraplgica, muda e
careca. Mas, nem de longe, eu suspeitava das minhas atuais
condies. S ouvi aquelas palavras e imaginei minha vida
parada, esperando por mim para continu-la. Aquelas palavras
me deram fora. Ningum podia suspeitar de que eu estava vendo
e ouvindo, mas dessa frase acho que nunca vou me esquecer.
Quem sabe, se no tivesse ouvido, meu fim teria sido outro...
      Uma vez combinei com Caio irmos a uma danceteria. Levei
Bia, que ficou abismada ao ver que ns dois estvamos juntos.
Caio me pagou uma vodca, danou comigo n vezes e ficou do meu
lado a noite toda. A uma certa altura da noite, ele me falou:
      - Eu te amo.
      Quantas vezes ouvi e disse essa frase! Mas tratava-se de
um amor muito frgil. Mas que amor sobrevive a uma trombose?
Em maio de 1994, eu estava com Cristian e com Caio,
erroneamente com os dois, e ambos juravam o seu amor. Hoje
estou sem ningum.
      Sei de alguns casos que mostram a fragilidade do amor, O
mais recente, entre tantos,  o de um jovem que conheci,
Antnio. Casado, pai de dois filhos, jovem e forte. Tudo devia
ir bem, at o dia em que ele sofreu um assalto, levou um tiro
e ficou tetraplgico. Pergunte-me onde est a mulher dele. Sei
l! S sei que na actual situao em que ele se encontra,
assim como eu, ele s pode contar com a famlia. Duvido que
ele tenha se casado sem amor, mas, como eu disse antes, se o
amor  frgil, no sobrevive a grandes tragdias. Amor, amor
puro e slido, eu tenho na minha famlia.
      Lucas, a essa altura dos acontecimentos, j havia se
dirigido ao hospital, e tambm lamentava muito o meu estado.
Mas sua atitude no se comparava  de Cristian, que no saa
de l. Eu tinha feito planos de esperar Cristian no aeroporto.
Em vez disso, esperei-o no hospital, em coma.
      Houve tambm um acontecimento superforte durante meu
coma. Gracita, uma amiga nossa, espectacular, catlica
fervorosa, levou uma santa  minha presena. Aqui, quero dizer
que Gracita deu um grande suporte a meus pais, ajudando a
cuidar de mim
      diversas vezes, mesmo depois que sa do coma.
Extremamente prestativa e sensibilizada com o meu azar, ela se
tornou muito importante na minha vida. Sempre que minha me
no podia estar presente, ela se desdobrava em cuidados para
substitu-la. Sei que, durante o coma, ela esteve presente,
mas no me lembro.... Lembro-me da santa...
      Veja s, durante meu namoro com Lucas, tentei ser uma
judia. Digo que tentei ser uma judia de razo. Mas ser
catlica parece que est incrustado no meu corao. Um dos
primeiros gestos que aprendi a fazer na vida foi o sinal da
cruz. E, em coma, percebi pelo tacto que, diante de mim, havia
uma santa. Tive uma reaco surpreendente. Abri os olhos, e
meu corao, no monitor, disparou. Isso mostra o que est
enraizado nas profundezas do meu ser. No foi uma estrela de
Dav que me emocionou, e sim uma santa.
      Ainda em coma, recebi a extrema-uno, sacramento para
poucos. Eu, realmente, sustentava a vida por um fio.

Dia 29 de julho de 1996

Boa noite, Juju!
      
      Eu ainda permanecia em coma, alheia a tudo o que se
passava, quando senti uma dor horrvel. Foi uma dor to forte
que, por alguns momentos, me arrancou do meu estado de
inrcia. Dei, involuntariamente, uma supermordida na minha
lngua, quase dividindo-a em duas com os dentes. Nesse
momento, acordei do meu sono profundo, mas voltei a ele em
seguida. Esva-me em sangue, que passou da minha boca para o
camisolo, manchando tudo.
      No sei quanto tempo se passou na UTI at que alguma
enfermeira notasse. Quando repararam, fui novamente para a
sala de cirurgia fazer uma transfuso de sangue e dar pontos
na lngua. Tenho a cicatriz at hoje. Essas mordidas
involuntrias so o resultado de uma disfuno neurolgica. 
impossvel controlar esses movimentos. Muitas vezes, durante
um dia, dou ntida impresso de estar mascando chicletes. Na
verdade, estou mordendo o nada, ou s tentando no babar e
engolir a saliva. Coisa impossvel, sem dar antes umas
mastigadas no vazio.
      Aprendi com minha fonoaudiologia que minha lngua est,
aos poucos, recolhendo a saliva. Coisa que uma lngua gil faz
em segundos e de uma s vez. Sou incapaz desse movimento e,
toda vez que engulo a saliva, preciso antes mastigar o nada.
s vezes, durante a noite, eu ranjo os dentes. Tudo 
involuntrio. Antes, esse ranger de dentes, que recebe o nome
de "trismo", era mais frequente, hoje diminuiu bastante. O
trismo e as babadas vo me acompanhar pela vida toda.
      Ficar tetraplgica e muda  terrvel, mas  s a ponta
do iceberg. Para evitar mordidas perigosas e involuntrias na
lngua, desde que me operaram pela primeira vez, me colocaram
uma guedel. A mordida s foi possvel porque ela se deslocou.
Ento o trismo entrou em aco, e a leso na lngua foi
inevitvel. Segundo os mdicos eu usaria guedel para sempre.
Mais uma previso errada dos neurologistas. Segundo eles
ainda, seria impossvel eu ter controle sobre meus dentes,
mordendo sempre minha lngua. Hoje no uso mais guedel,
lembro-me vagamente, principalmente quando estava em coma, de
que colocavam algo duro na minha boca, com fora, que ficava
preso nas orelhas, por um cordo, mais parecendo um cabresto,
e chegava at a porta da garganta. No  uma lembrana
agradvel, mas ficou.
      Apesar de hoje eu no usar mais guedel, dou pequenas
mordidas involuntrias na minha bochecha direita. Nada que
tire sangue, apenas incomoda.  to frequente morder a
bochecha, e sempre no mesmo lugar, que se criou at um calo.
Essas mordidas ocorrem mais, cerca de trs vezes ao dia,
estimuladas pela presena de algum alimento. Por qu? No sei.
Ser que algum saberia me dizer?
      O alimento nunca  mastigado. Com sorte ele  partido.
Sempre engulo sem mastigar. Por qu?  fcil entender...
Quando comemos, sem que ns percebamos, a lngua leva a comida
at os dentes e a mantm l at acabarmos de mastigar. Mas a
minha lngua quase no se mexe, O alimento fica zanzando na
boca sem destino. s vezes ele cai em um dente, e ento
aproveito para parti-lo. Levaria horas para mastigar uma s
refeio. Isso  invivel, tanto pelo tempo quanto pelo
trabalho. E pensar que comer era to fcil! No comeo me
enervava engolir sem mastigar. Actualmente, no vejo soluo.
Deixo o trabalho mecnico para o estmago. At pedi ajuda para
a fono. Ela, com boa vontade, tentou me ajudar. Mas o quadro 
esse, quase nada se pode fazer.
      Quando mordi a lngua no hospital, sei que mame, Xango,
Cristian e Jnior doaram sangue. Mesmo em coma, lembrei
vagamente do Xango.
           Namorei o Xango, mas, hoje, somos quase dois
irmos. Brigamos a valer, mas ele  uma pessoa em quem posso
confiar. Sei como lidar com ele. Conhec-lo foi uma das
melhores coisas que aconteceram no colgio.
      
      Todo mundo ficou sabendo do meu estado: amigas, amigos,
vizinhos, parentes, paqueras, ex-namorados e namorados. At
gente de quem eu no gostava como Ane Marie e Betinho. Todos.
Um dia, na sala de espera da UTI, se juntaram umas 150
pessoas.  verdade! Foi o que me disseram.
      No curso de Farmcia eu me tornei muito ntima da Ane
Marie. Dessa intimidade restou hoje um profundo dio. Na poca
era como ter eu mesma por companhia. Por ela ter um carcter
extremamente fraco, logo adoptou traos da minha
personalidade, facto que at chamou a ateno da Pat. Fumava,
quando eu fumava, cabulava aula, quando eu cabulava, para ir
ao CEP. At arranjou um judeu amigo do Lucas para namorar, e
tambm terminou na mesma poca que eu. Sei que eu no era m
influncia, mas Ane Marie tinha mesmo uma personalidade muito
fraca e logo tomava emprestados at os defeitos de outra
pessoa. Ela tambm foi  mesma mdica que eu e comeou a tomar
as mesmas plulas.
      Nessa poca estava voltando do Japo, depois de dois
anos por l, o meu grande amigo, Hricles. Era uma amizade
especial, que preservei com cuidado desde o colgio. Agora ele
ia fazer o segundo ano de Arquitectura na USP. Fui busc-lo no
aeroporto e, em um dos primeiros dias da sua volta ao Brasil,
levei Ane Marie para conhec-lo. Foi a que fiz uma grande
besteira: apresentar os dois. Como ele morava muito perto da
USP, e por sermos grandes amigos, eu e Ane Marie amos,
frequentemente, at a casa dele.
      Logo comearam a namorar. De certo modo, posso dizer que
permiti esse namoro, pois no teria dificuldade de namorar
Hricles. Mas preferi cultivar essa amizade. Afinal, fui eu
quem apresentou os dois; se tivesse interesse, no o teria
feito. Participei de uma parte desse namoro, mas logo Ane
Marie despertaria meu dio, proibindo meu melhor amigo, por
cimes, de me cumprimentar. No foi raro ter de passar recto
por ele na faculdade, pois ele ia sempre procurar Ane Marie.
Namoraram quase trs anos. Fiquei muito magoada e repetia
sempre:
      - Namorado  hoje, no  amanh; marido e mulher so
hoje, no so amanh; mas amigo  para sempre.
      No sei se eu estava to certa. At na minha formatura
tive de passar recto por ele. Achava, e acho, que Ane Marie
no merecia tantos sacrifcios, alm de Hricles no ser bem
quisto pela famlia dela. A louca e neurtica da me dela no
permitia esse namoro, at o dia em que ela consentiu, e o
romance acabou. Para mim ficava claro o contraste: a nobreza
do carcter do Hricles, diante da falta de personalidade da
Ane Marie. Espalhou-se a notcia de que iam se casar.
Felizmente isso no chegou a acontecer. Nunca vou perdoar Ane
Marie por balanar uma das minhas amizades mais caras.

Dia 4 de agosto de 1996

Oi, menina!
      
      Os mdicos chamaram meus pais em uma sala e descreveram
um prognstico pior do que aquele que apresento agora. Sem dar
esperanas, descreveram uma vida vegetativa, alimentao
atravs de sonda, tetraplegia, ausncia de fala, olhar sem
foco, respirao atravs de uma traqueostomia, fraldas e
hipertonia. Superei a previso deles todos.
      Era uma viso muito feia essa que meus pais teriam de
fazer da sua filha querida. Acertadamente, seria melhor v-la
morta do que sofrendo. Digo isso mesmo estando melhor do que
me descreveram.
      Minha me se desesperou, chorou, vomitou e sua presso
foi  lua. Meu pai quase teve um ataque cardaco. Na sala de
espera do hospital, teve sua primeira angina. Ele foi tratado
e agora usa sempre no bolso um vasodilatador sublingual. Ainda
bem, porque outras anginas viriam a acontecer, e com o
vasodilatador ele se preveniu.
      No meu actual estado, no tenho uma vida vegetativa, mas
quase. Consigo at me comunicar atravs da escrita, como estou
fazendo agora. Saio de vez em quando de casa, vejo Tv, leio
livros e revistas, vejo cinema, teatro, shows e vdeos. Fao
fisioterapias, hipoterapias (fsio no cavalo), hidroterapias
(fsio na gua), fonoaudiologia, psicologia e fazia terapia
ocupacional; e  s.
      Para uma moa que trabalhava, dirigia e saa todo fim de
semana, isso  muito pouco. Se voc acha muito, tente listar
tudo o que faz... a diferena  enorme!
      Tambm estava no meu prognstico comer atravs de sonda.
Durante todo o perodo de hospital, ela ficava presa no nariz
e ia, pelo esfago abaixo, at o estmago. Sempre que
vomitava, ela saa. Alguma enfermeira colocava de novo, e como
doa! Usando um arame e xilocana, a sonda era introduzida no
nariz e eu a engolia at o estmago.
      Tetraplegia... Se pensarmos como os fisioterapeutas, no
sou tetraplgica. Tenho, na verdade, uma tetraparesia: leso
nos movimentos. Mas, se pensarmos em algum que no mexe
braos e pernas, sou tetraplgica. Na viso dos fsios,
geralmente um tetra, como so chamados os tetraplgicos, fala,
apresenta perda de parte da sensibilidade, quase no se mexe
do pescoo para baixo, tem uma leso na coluna cervical e no
sabe a hora de ir ao banheiro - usa fraldas. Eu no me encaixo
nessa viso: no falo, tenho sensibilidade normal, me mexo
mais que um tetra - o que me permite hoje "catar milho" no
computador e at levar comida  boca -, no tenho leses na
coluna - e sim no crebro - e peo que me levem ao banheiro.
      No andar me incomoda, principalmente quando me vejo na
cadeira de rodas. Antigamente eu chorava, hoje j estou
calejada. Mas no falar incomoda muito. Vivo chorando por ter
perdido esse sentido. Queria muitas vezes dizer "Ai meu p!",
perguntar "Que horas so?" - j que no consigo nem ver o
relgio e falar ao telefone, conversar com meus amigos e com
minha famlia, cantar, mexer a lngua e os lbios para comer e
beijar - nem que fossem s beijos no rosto - " cumprimentar,
argumentar, comentar, discutir. Mas nada disso eu posso.
       incrvel como falar faz falta. Sinto essa falta a cada
minuto. O facto de no andar  coisa que a gente at esquece,
menos quando precisa se locomover,  claro. Mas no falar,
isso no d para esquecer. Dizer um "Oi", explicar um
mal-entendido, perguntar "Que dia  hoje? ", comentar coisas
sem importncia, jogar conversa fora, tirar uma dvida. So
coisas que fazemos, a cada momento, sem perceber. S se
percebe quando no se tem a fala. Isso causa tanta
frustrao...  por esses motivos que gostaria de ser uma
tetra de verdade, mas falar. Os poucos movimentos que tenho
no me adiantam de nada, ou de quase nada. Eu os trocaria pela
minha antiga fala, e acho que com lucro...
      Disseram que jamais meus olhos entrariam em foco. O que
 isso? Explico detalhadamente essas coisas porque tambm no
sabia, e se no as tivesse vivenciado jamais saberia.
Lembro-me do dedo indicador do doutor Dcio indo, diante dos
meus olhos, da esquerda para a direita. Simplesmente no
conseguia acompanh-lo com o olhar, apesar de suas ordens
incisivas. Isso so olhos fora de foco. Eles vem, mas no
direccionam o olhar. Eu seria assim.
      Hoje, aparentemente possuo olhos absolutamente normais.
E os meus olhos cor-de-mel so as nicas duas estrelas que
ainda teimam em brilhar no horror da minha fisionomia. Com
certeza a Luciana de antes ficou a, como uma menina dos
olhos. Seriam totalmente normais, a no ser por uns pequenos
problemas, que com o tempo percebi. Leio com um dcimo da
velocidade com que eu lia antes da trombose. Vejo cores e
objectos, tudo normal, mas de vez em quando dobrado. Antes era
mais, hoje  menos. Antigamente, via duas TeleVises.
Actualmente, isso no acontece. Mas, em algumas posies, vejo
em dobro. No sei se isso vai sumir com o tempo, ou se  uma
sequela.
      No conseguia respirar sem a ajuda de aparelhos. Foi
ento que me fizeram uma traqueostomia. Segundo os mdicos,
ela seria eterna, mas hoje s sobrou uma horrvel cicatriz.
Impossibilitada de respirar com o nariz, respirava pela
traqueia. Era nojento de se ver. Uma abertura de metal dentro
da traqueia. E funcionava tambm como uma abertura a uma srie
de infeces oportunistas. Pela traqueostomia tive as
infeces que causaram as pneumonias, alm de outras infeces
menores. A trqueo - como  chamada - juntava muita secreo,
que atrapalhava a respirao. Constantemente uma enfermeira
tinha que sugar, aspirar esse excesso, usando uma mquina, um
aspirador - que nada tem a ver com um aspirador de p.  uma
mquina com um motorzinho e um tubinho de plstico
transparente. O tubinho, quando ligado, suga, puxa a secreo.
Uma enfermeira ligava o aspirador que ficava perto da minha
cama e introduzia parte do tubinho na abertura da
traqueostomia. E o aparelho ia sugando catarro, sangue, de
dentro da minha traqueia. Doer? Era um pouco dolorido sim,
mas, mais que isso, dava aflio. Pelo tubinho transparente eu
via meu sangue sendo aspirado, e ia sentindo algo na minha
traqueia me machucando. Mas a comecei a sentir o que era
falta de opo. Era isso ou no conseguir respirar.
      Eu ainda estava em coma quando sofri minha segunda
parada cardiorrespiratria. E ela aconteceu, simplesmente, por
falta de ar. Eu respirava pela abertura da traqueostomia, e
duas enfermeiras, na pressa de irem embora e me trocando uma
fralda, me viraram e taparam a trqueo. Fiquei sem oxignio e
o corao parou. Nessa hora eu ainda estava em coma, mas abri
os olhos. Lembro-me de ver um monte de gente, de branco, ao
meu redor. Eu fazia uma fora danada para puxar o ar, mas
quase no conseguia, depois disso, apaguei. Vou guardar para
sempre essa lembrana terrvel.
      Fui levada s pressas para a emergncia, onde me
reanimaram. Teimosamente, voltei  vida, tendo em mente a
maravilha que eu tinha. No sobrevivi para viver tetraplgica
e muda, lutando para andar de muletas e falar tropegamente.
Que fazer?
      Quando sa do coma, j respirava pelo nariz, mas tinha
ainda a traqueostomia.
      Fraldas, no uso mais, mas j usei muito. No posso
esquecer a emoo, aps meses, de usar uma calcinha. Logo
quando cheguei do hospital, no sentia vontade de ir ao
banheiro. Usei fraldas, fraldas e mais fraldas. Hoje urino
praticamente a cada 24 horas, mas j fiquei 48 horas sem
precisar ir ao banheiro. Isso  muito bom: incomodar pouco
meus pais e meu irmo, para me transportarem at o vaso
sanitrio.
      Hoje, se quero ir ao banheiro, algum me leva, tira a
minha roupa e coloca-me em uma cadeira higinica. Vergonha?
Privacidade? Esquea! Faz tempo que no sei o que so essas
coisas. Para mim, so luxos do passado. De um passado no
muito distante, mas to perdido! Hoje no me Limpo sozinha.
Tambm no tomo banho nem me visto sozinha. Di na alma. At
choro escondida, mas tenho que esquecer o que  privacidade...
      No entendo direito a diferena entre os espasmos e a
hipertonia. S sei que devo ter os dois. Em dois anos de
fisioterapias, j ouvi muita coisa e aprendi muito, mas no
sei como diferenci-los. Pela minha atrevida ignorncia, s
posso tentar explicar como espasmos e hipertonia se manifestam
no corpo. Frequentemente tenho movimentos involuntrios. Acho
que isso so espasmos. Associado a isso, tenho dificuldade em
relaxar os msculos, algo fora do normal. Talvez isso seja a
hipertonia. Se me pedem para levantar as duas pernas do cho,
sentada, eu levanto. Pouco, mas levanto. Agora, se me pedem
que baixe,  intil, no baixa.
      Tambm sinto um medo constante de cair da cadeira de
rodas, da cama, ou do cavalo nas sesses de fsio. No, no 
medo,  pavor, pnico, horror mesmo! S estou bem na minha
cama hospitalar, com as duas proteces laterais levantadas. 
l que fico a maior parte do tempo. Esse medo medonho 
aparente...  como um susto, eu solto um som, fico ofegante,
sinto o corao disparar e mexo os braos rpida e
involuntariamente. No sei onde a hipertonia e os espasmos
entram, s estou contando o que se passa comigo.
      O medo  totalmente irracional. Racionalmente, sei que
no vou cair da cadeira ou de qualquer outro lugar, mas  mais
forte que eu. No consigo evitar. s vezes, penso:
      "Preciso ser forte. Que besteira! No vou cair... nem se
eu quisesse... no me mexo. Cair como?  psicolgico!"
      Mas no adianta pensar, ser racional. No sei o que
aconteceu com meu crebro ou o que permitiram acontecer. S
sei que essa sensao no  normal. Cama de solteiro, sem
grade, nem pensar. Eu admiro se algum consegue relaxar, at
dormir, em uma cama de solteiro! Isso, agora, no  para mim.
      Um grande AVC faz coisas estranhas no crebro. Esse medo
vive comigo, e no tem remdio, reza brava, chazinho ou
terapia que d jeito. s vezes, na fisioterapia, a terapeuta
fala:
      - Luciana, respira fundo, puxa o ar pelo nariz, solta
pela boca, relaxa.
       intil, nem respirar fundo eu consigo, e, mesmo que
conseguisse, duvido que o medo passasse. De noite, geralmente
os movimentos involuntrios que entendo como espasmos me
atacam. Um brao ou uma perna comeam a se mexer
involuntariamente. Tomo um calmante e consigo dormir. Mas
deram, no meu prognstico, uma hipertonia com contoro
aparente. Isto , braos e pernas como que dando um n. Essa
hipertonia eu no tenho mais. Muita gente olha e me acha
"normal", sem suspeitar dos movimentos involuntrios e dos
medos constantes que meu crebro me faz passar.
      Como se fosse pouco, tenho ainda uns movimentos
involuntrios e inoportunos sempre que algum que no  da
minha famlia se aproxima. Eu sei que deve ser horrvel e
estranho para uma pessoa ver algum em uma cadeira de rodas,
algum que no fala, e que se contorce inteira ao ouvir um
cumprimento. Mas eu no consigo evitar!
      Foi isso que me tornei: uma estranha para mim mesma.

Dia 13 de agosto de 1996

Juliana, minha doce companheira,

 Eu ainda dormia nas profundezas do coma, quando meus pais
contrataram uma enfermeira para passar as noites comigo. No
me lembro do nome dela, mas lembro-me de t-la visto em uns
flashes. Tenho certeza de que ela tinha curvas bem definidas e
abundantes, do tipo boazuda, cabelos curtos, e sem gestos de
afecto para comigo. Ela passava as noites no hospital,
exclusivamente para ganhar uns trocados e fazer seu trabalho.
      Foi fazendo seu ofcio que ela pecou. Uma noite, o soro
se desprendeu do meu corpo e ficou 14 horas vazando. Ela no
percebeu. Fiquei em coma, e em um perodo crtico, sem
medicao. Quando mame chegou, de manh, como fazia sempre,
me encontrou toda molhada. E indagou o que era aquilo.
      -   Ela deve ter feito xixi - foi o que a enfermeira
respondeu.
      Que xixi, que nada! Olhando com ateno, mame percebeu
que eu tinha passado a noite inteira sem soro. Depois desse
incidente, no me lembro mais dela.
      No coma, e durante todo o tempo que passei no hospital,
um mdico em especial me cercou de carinho e ateno. O pai da
Pat trabalha na UTI do Einstein e sempre que me via perguntava
docemente:
      -   Se voc quer que a Pat venha te ver, abra os olhos.
      Eu saa do meu coma e abria os olhos. E, em pouco tempo,
a Pat vinha me ver.
      Depois, mais tarde, quando recobrei a conscincia, ele
me emprestou um walkman. Sempre foi muito afectuoso comigo e
nos encontrvamos nos corredores do hospital, quando eu estava
indo ou voltando de maca de algum exame. Posteriormente,
quiseram me transferir para um hospital inferior, mas ele no
deixou:
      - Ela s deixa este hospital quando tiver alta!
      o pai da Pat foi um anjo bom que encontrei no meio de
tanta desgraa.  um mdico com vocao. Realmente, encontrei
poucos como ele at hoje. Comigo ele foi especial. No meio de
tanta dor posso me lembrar dele com ternura.
      Eu, realmente, encarava tudo aquilo que estava vivendo
como se fosse um sonho ruim. Quando sa do coma, no ca na
realidade, e achei que tudo s podia ser um pesadelo. Longo e
cheio de detalhes, mas um pesadelo. Eu podia jurar que, na
verdade, estava em casa, na minha cama, dormindo. Logo, no
era possvel receber alta e ir para casa. Eu j estava l. Na
hora desse encontro, eu acordaria, e o sonho ruim acabaria.
Esperei ansiosamente a alta.
      No pensei muito mais no assunto, j que, na minha
concepo, podia ser tudo, menos o que era: a realidade.
Quando cheguei em casa, esperei o sonho acabar, mas no
acabou. At hoje, mais de dois anos depois, espero ansiosa por
me ver de novo em frente do espelho, namoradeira,
independente, com longos cabelos loiros soltos ao vento...
mas, no fundo, eu sei, nunca mais.
      O que senti, de repente, mudando totalmente? Ficando
feia, muda, sem movimentos? Guardando na memria uma ltima
imagem do espelho e tendo a certeza de que essa viso vai
morar para sempre na lembrana? Desespero, saudade, tristeza,
azar, imprudncia, abandono... Ser que essas palavras
traduzem minha revolta? Na verdade, ainda bem que pensei na
hiptese de tudo ser um pesadelo, porque assim fui caindo na
realidade devagarinho. J imaginou se me desse conta da
situao assim que sasse do coma? Certamente entraria em
desespero, mas sem fala e sem movimentos como  que ia
extravasar? Acho que ficaria maluca!
      No me lembro de quase nada da UTI. Minhas primeiras
lembranas, em s conscincia, so de um quarto, no dcimo
andar, com TV, frigobar, uma poltrona, banheiro e uma bonita
vista do lado direito. Nem sei como fui parar l. Na minha
memria s existe esse quarto... e mame ao meu lado.
      Mame chegava toda manh para passar o dia todo comigo,
e  noite algum vinha busc-la. No sei o exacto momento em
que sa do coma, essa melhora foi gradativa. No se pode dizer
que reencontrei meus pais. Acredito que sempre eles estiveram
comigo. Sempre que mame chegava, eu chorava. Ela cantava:
      - De repente me deu uma estranha vontade de estar com
voc...
      Mas eu lembro que morri de saudades do meu irmo. Como
dois irmos, a gente vivia brigando. Mas, ao acordar do coma,
experimentei um amor fraterno como nunca senti. Meu irmo,
Marcus, cansado de me visitar como quem visita um vegetal, e
j revoltado com os "no sei dos mdicos, quando ele
perguntava como ela vai ficar?", esperou ansiosamente eu
melhorar.
      Nosso encontro foi emocionante.  inacreditvel como era
grande minha carncia, facilmente me emocionava. Por um lado,
at hoje me emociono com pequenas coisas, um gesto, uma cena
triste, uma palavra amiga. Estou meio abobada,
involuntariamente. Por outro lado, perdi completamente o medo,
mesmo estando 100 por cento indefesa. Sou incapaz de fazer um
gesto ou emitir uma palavra que me defenda, mas sou
inexplicavelmente corajosa. Assisto a filmes que antes me
apavoravam como quem v uma comdia. Nem a morte me assusta,
ou melhor, at me inspira simpatia. S uma coisa me mete
pavor, pnico, horror: cair.  incontrolvel, mas esse medo 
to constante quanto a necessidade de respirar.
      Quando vi meu irmo, ca no choro. Ele, cansado de me
ver como um vegetal, falou:
      - Poxa! Ela est melhor!  minha irm de volta!
      No ms que passei em coma, como em um passe de mgica,
Marcus mudou, transformou-se, encorpou. O cabelo dele era
desigual, sempre que saamos, eu o prendia com gel. Agora, era
fio recto. Marcus estava aprendendo a dirigir, eu estava
ensinando. Mas ele tinha se transformado em um supermotorista.
S uma coisa me entristecia: a sua faculdade. Ele viu que, com
meu AVC, anos de estudo foram embora e desanimou. Mais tarde
ele recobrou o antigo interesse, dizendo uma verdade:
      - Estudar  um risco, mas quase tudo  .
      Mame passava os dias inteiros comigo. Aos poucos fomos
nos dando conta de que, alm de no falar, eu no sugava, no
sabia usar um canudo, no assoprava, nem respirava pela boca.
Terrvel. Sem posse de nenhum movimento, eu s dizia sim e
no, e mesmo isso s com os olhos. Olhos abertos queria dizer
"sim". Olhos fechados significava "no".
      Um dia, minha me precisava sair para ir ao mdico e
havia pedido  Gracita para ficar comigo. Mas ela no chegava.
Minha me ento me perguntou:
      - Luciana, voc sabe o telefone da Gracita?
      - Sim (abri os olhos).
      - Mas e agora? S abrindo e fechando os olhos, como voc
vai transmitir o nmero de um telefone?
      Eu sofria de um mal chamado Looked-in Syndrome (presa
dentro de si mesma). Eu estava presa dentro de um corpo, meu
corpo. Entre as coisas estarem na minha cabea at eu externar
isso, havia uma grande distncia. Ainda tenho a sensao de
estar presa dentro de mim mesma, apesar de no estar mais
classificada nesse tipo de sndrome. Nada como a liberdade de
falar.
      Para eu passar para mame o nmero do telefone da
Gracita, ela foi me perguntando se o primeiro nmero era 0, ou
1, ou 2... A cada nmero correcto, era s eu abrir os olhos
para confirmar o sim . Mame discou e era realmente da casa da
Gracita. Isso provava que minha conscincia estava s, mas
presa.
      Depois, no hospital mesmo, aprendi a dizer "sim" e "no"
com a cabea. Mais tarde, usaram o mesmo mtodo dos nmeros
com o alfabeto. Quando comecei a movimentar um dos braos,
passei a mostrar as letras em uma cartolina. E esse mtodo
precrio segue at hoje.
      J imaginou passar mais de dois anos soletrando tudo de
importante que se tem que dizer? Como me tornei lenta! As
coisas de fundamental importncia eu transmito. Importantes,
porque no mundo da pressa sou mais lerda que uma tartaruga.
Uma simples frase parece que demora sculos para ser
construda. Em uma situao de pressa ou em uma discusso,
mesmo que se tenha algo de fundamental a dizer,  intil
tentar, O ouvinte tem que ter muita ateno, para ver e
guardar as letras que foram apontadas; pacincia, para ouvir
um texto soletrado, e tempo de sobra. Ou seja, situao rara.
O silncio  meu companheiro. Jogar conversa fora  coisa do
passado. Dizer que estou muda no diz toda a verdade, os mudos
se comunicam muito mais que eu. Mudez, nesse sentido,  quase
no se comunicar, com rarssimas excepes.
      Mais um dia no meu quarto de hospital passaria igual se
no fosse a pergunta de mame:
      -   Minha filha, voc tomava plula?
      Fiz que sim, e achei graa. Cada vez eu achava meu
pesadelo mais maluco.
      Ela respondeu:
      -    para chorar, Luciana! Ela te deixou assim.
      A plula  um anticoncepcional com aprovao mdica,
muita gente toma e no acontece nada. O facto  que eu no
podia tomar e no tinha condies de avaliar isso. Na verdade,
sem saber, dei todas as condies para um AVC,
desgraadamente, se manifestar. Entre essas condies, sem
dvida, a plula foi a mais importante. Veja. Copiei logo
abaixo um recorte do jornal O Estado de S. Paulo, do dia 5 de
junho de 1996. Infelizmente essa informao me chegou tarde
demais:
      
      MULHER CORRE RISCO MAIOR DE DERRAME
      
      WASHINGTON - As mulheres e as jovens so mais
susceptveis que os homens a um acidente vascular cerebral "
AC -, nos finais de semana e nos dias festivos, segundo um
estudo publicado na revista mensal norte-americana Stroke, de
junho. A pesquisa, feita pela Associao Norte Americana do
Corao, usou como base uma populao da Finlndia e
estabelece que as mulheres e as jovens so mais vulnerveis a
um A VC durante perodos de relactiva inactividade, O estudo
analisou "a sndrome do AC dos feriados vinculada ao consumo
de lcool mais elevado nesses dias, e a um aumento da
actividade fsica, sobretudo entre as mulheres finlandesas,
normalmente mais sedentrias que os homens. Outros factores
que aumentam o risco de AVC so o tabagismo e o uso de
contraceptivos orais. O estudo foi feito com 723 homens e
mulheres entre 16e 60 anos.
      
       bom esclarecer que derrame  um AVC mais comum que a
trombose. E esses dados da reportagem retractam direitinho a
vida que eu levava.
      Meu AVC no pode ser atribudo ao acaso,  diferente de
estar na rua, levar um tiro e ficar tetraplgica. E, se ele
no se deve totalmente ao acaso, algum tem de ser
responsabilizado. At hoje, mesmo sem meus pais me acusarem,
sinto que toda a culpa recai sobre mim; e, quando eles dizem
que no foi erro mdico, sinto-me directamente acusada, como
se falassem: "Quem semeia vento, colhe tempestades".
      Ser que fui eu que errei? Acho que errei do ponto de
vista farmacutico. Ou passou por mim despercebido o grande
risco que eu corria, ou essa informao foi dada em uma aula
entre tantas cabuladas para ir ao CEPE-USP. Mas tambm para
isso eu pagava  Gilda, para nunca correr riscos de sida,
sfilis, gonorreia, AVC, endometriose... e me faltou
informao, sofri um AVC, e c estou.
      Como farmacutica, eu at podia me automedicar, mas
desconfiei dos meus conhecimentos e procurei uma mdica para
me orientar. Negligncia, imprudncia, irresponsabilidade. S
restou muita raiva e dor ao ver minha vida destruda. A mdica
imponente devia ter me alertado de que contraceptivos orais,
cigarro, lcool, vida sedentria seguida de vida agitada,
colocavam-me em um grupo de risco. Um AVC podia acontecer, e
aconteceu.
      Eu, que fugia duma gravidez indesejada, de sida, de uma
endometriose, acabei encontrando coisa muito pior.
      Lucas... se eu sou culpada, totalmente ou no, ele
tambm no pode se isentar. Sinto-me como se estivesse dez
vezes grvida e o filho fosse s meu. As consequncias so s
minhas, isso ele no pode dividir. Eu  que fiquei
tetraplgica e muda. Mas  muito cmodo agir como se no
houvesse nada que o comprometesse, e no tenho nada que o
obrigue. Talvez isso lhe pese na conscincia, mas a quem
serviria de consolo? Eu entendo...  muito srio a gente ser
responsvel por uma vida, ainda mais uma vida destruda como 
meu caso. Mas, por que tive que ficar com as consequncias e
assumir sozinha o peso dessa responsabilidade? No estvamos
mais namorando,  verdade. Mas nos vamos, fazamos amor e eu
ainda tomava plulas.
      Eu no era uma coitadinha, forada a tomar
contraceptivos pelo namorado. Tenho minha parcela de "culpa",
se  que podemos chamar assim, pois ningum quer ficar como
fiquei. Eu assumo. Fiquei neste estado lamentvel e ainda sou
obrigada a ouvir minha famlia dizer:
      - Voc estragou sua vida e a nossa... Ns tnhamos
tantos sonhos com voc, cabea-de-vento...
      Ou:
      - Ser que a Luciana mente? Imagina... Eu no tenho
culpa se voc est assim, mas quem sabe se voc no procurou
isso?
      Eu entendo, menti para eles, fiz pouco caso da confiana
que depositaram em mim. Mas estou "segurando a peteca". A
Gilda deve estar com a vida feliz, no havia como provar
cientificamente sua irresponsabilidade. Nesse pas nada se
prova, justia ento...
      E voc Lucas? Voc no acha uma barra pesada demais para
eu segurar sozinha?
      Hoje, no passo um dia sem me lembrar da Gilda. Eu, com
esta sade problemtica, sem movimento e sem fala, lembro-me
que a procurei com a finalidade de evitar tragdias como esta.
Eu me sentia segura de estar sendo assistida por uma mdica.
      Mas ela no foi responsvel, sofri o AVC, e tudo que eu
tenho agora para tentar fazer justia so palavras, palavras
soletradas...
      E ela? Imagino que ela nem pense em mim...

Dia 17 de agosto de 1996

Boa tarde, amiga!
      
      Sabe que Cristian no saa do hospital, sempre ia me
visitar? Quando acordei do coma, tinha Lucas no corao. Mas
quando vi Cristian, sua constncia, sua preocupao, seu
carinho, me dei conta do homem maravilhoso que eu tinha a meu
lado. Seu amor, aparentemente, tinha sobrevivido at a um AVC.
Merecia, no mnimo, reciprocidade. S me lembrava da ltima
vez que tnhamos feito amor, antes de suas frias. E s me
vinham lembranas agradveis.
      Alm de tudo, acordei do coma supercarente. Socialmente,
no era e no sou ningum: no falo, no beijo, no abrao,
no pego na mo, no bebo, no fumo, no dano, no fao amor
e at minha risada assusta. Mesmo assim tinha um namorado. A
carncia era tanta que fiquei ainda mais apaixonada. Mesmo
tendo pouqussima noo do que me havia acontecido, supondo
vagamente que, mesmo que tudo fosse real, seria questo de
meses para eu voltar  activa; mesmo sentindo pouco a
realidade, eu achava o mximo a dedicao do Cristian. J no
me achava to bonita, simptica, afectuosa para ter um
namorado atraente, charmoso e carinhoso. Eu tinha e tenho medo
do futuro. Aquela era a ltima chance de eu ter algum na
vida. Hoje estou s. No culpo ningum, afinal, quantas
chances eu tive de ser feliz?
Quando eu j estava consciente, colocaram-me durante uma hora
na poltrona. Lembro-me de papai e de Jnior. Havia mais
algumas pessoas. Chorei o tempo todo, com a sensao de que eu
ia cair. Todo o mundo me segurava, mas no adiantava: eu tinha
e tenho sempre a impresso de que vou cair. Quando vejo algum
caindo na TV, dou um pulo na cama. Basta abaixar uma das duas
proteces laterais para que eu fique apavorada, como se algo
fosse me empurrar. Como j disse, esse medo  irracional. Sei,
racionalmente, que nem tenho movimentos para me locomover um
centmetro, mas o pavor continua at hoje, s que no choro
mais.
     Comearam as visitas, e algumas eram bem frequentes, como
a me do Wilson, um colega de colegial que tinha tentado me
namorar, me convidava para sair de vez em quando, tinha,
algumas vezes, tentado me dar um beijo na boca e fazia festa
no telefone quando eu ligava. Enfim, era um paquera.
     A me do Wilson, de quem no me lembro o nome, vinha me
ver quase todos os dias. Eu nunca tinha visto aquela senhora
antes de ir para o hospital. No h nada que me lembre dela.
Ao dar entrada no hospital, ela se aproximou de mim e, quando
sa do Einstein, sumiu. Hoje, dois anos depois, no temos
nenhum contacto. Ela vinha sozinha, com o Wilson e a namorada,
com o marido, ou com uma amiga. A amiga, mais velha que ela,
segurava nos meus ps tortos e ajudava a rezar.
     Havia uma enfermeira, no Einstein, que agia como um anjo
bom. Quando eu estava com alguma dor ou com algum incmodo,
Linda parecia adivinhar e surgia pela porta do quarto. Ela
passava delicadamente a sonda nasogstrica e, como por
milagre, eu no sentia dor alguma. Foi com ela que vislumbrei,
pela primeira vez, minha imagem em um espelho depois de todo
esse percurso. No me apavorei, apesar de no ter me
reconhecido, lembre-se de que eu achava tudo um pesadelo. Um
dia, fiz um exame que me deixava insegura, uma cintilografia,
e ela fez questo de ficar comigo durante todo o exame. Quando
as aftas me incomodavam, ela surgia com um remdio que tornava
a dor mais amena. Escreveu um trabalho sobre mim, para
apresentar na faculdade, e me ensinou o sim e o no com a
cabea, que me acompanham at hoje...
     Linda se desdobrava em carinhos e beijinhos comigo.
Carente como eu estava, achava tudo o que ela fazia o mximo.
Ela dizia que amos escrever um livro juntas e que nunca ia me
abandonar. Toda manh, vinha me dizer bom dia e me dar um
beijo.
     Loira, com cabelos lisos at o ombro e uma franja, no
muito magra, cheirosa, e com um rosto que me inspirava s
simpatia. Um dia, Linda foi transferida de andar, e fiquei
muito triste. Mas ela vinha sempre me ver, deixou seu novo
telefone e me ensinou um sinal para eu fazer se quisesse que
algum a chamasse. Perto de eu ter alta do hospital, ela me
apresentou a Vera, sua superamiga. A Vera no era enfermeira
do Einstein, mas era enfermeira de profisso.
     Quando tive alta, meu pai se viu forado pelo Lucas a
contratar pelo menos uma delas, pois ele achava que eu
precisava de uma enfermeira-padro. Elas iam todos os dias em
casa, me davam comida e banho, e passavam algum tempo comigo.
No segundo dia, j em casa, elas me apresentaram a uma
auxiliar de enfermagem que cuidou de mim por dois anos, a
Stphanie. Depois eu falo sobre ela.
     Linda e Vera me apresentaram tambm a uma fonoaudiologia.
Tive algumas sesses em casa, com a estagiria dessa fono,
Celina. Ela era oriental, jovem e moderninha. Tinha um pouco
do meu antigo jeito.
     Suas sesses de fonoaudiologia eram ridculas. Ela colava
em uma folha de sulfite recortes de um shampoo, um carrinho e
um sapato. Depois escrevia embaixo os nomes e me perguntava
qual era a fotografia que correspondia a um nome sem a letra
h. Ridculo! Parecia que eu tinha desaprendido a escrever. Ela
tambm trazia recortes de jornal e lia para mim. E eu pensava:
     "Quero falar! No ouvir notcia de jornal."
     Ela encheu meu quarto com bilhetinhos: "Engula a saliva
""No chore" e "Olhe para o lado esquerdo", pois olho sempre
para o lado direito.
     Por outro lado, suas tarefas de casa eram impossveis de
serem feitas. Ela escrevia, em uma folha de sulfite, um monte
de slabas e vogais para eu articular sozinha. Se pudesse, no
ia precisar de fono, sairia falando...
     Descobrimos que, quando se tem um caso como o meu na
famlia,  preciso muito cuidado onde se gasta o dinheiro,
pois parece um saco sem fundo: fonoaudiologas,
fisioterapeutas, psiclogos, terapeutas ocupacionais,
enfermeiras, mdicos, remdios, cadeira de rodas... Temos a
sensao de que o que cada um quer  o seu quinho. Desgraa
alheia ou no, no  problema deles. So profissionais.
Portanto, se no se pode fugir a esse mercado,  preciso ser
esperto e ver o retorno. No vamos retorno com a Celina. Ela
foi despedida.
     Fugindo tambm do excesso de despesas e das exploraes,
meu pai fez uma reunio com Linda, Veta e Stphanie. Ficamos
com Stphanie, que passou a vir de segunda a sbado por seis
horas dirias. Linda e Vera, mais caras, foram dispensadas.
No encarei aquela reunio como um adeus, pois, por diversas
vezes, Linda havia jurado no me abandonar. Mais uma decepo
da vida que tive que superar. Ambas sumiram, nunca deram
sequer um telefonema para saber da minha sade. Nem preciso
julg-las. Suas prprias atitudes falam por elas.
     Ainda no hospital, eu necessitava de algum que dormisse
sempre comigo. Por muito tempo, mame dormiu, depois
contratamos uma enfermeira para faz-lo. Alice me acompanhou
at o final de 1994, dormindo na cama ao lado da minha, at em
casa. Ela era bastante afectuosa comigo e, de vez em quando,
ainda me liga no meu aniversrio. Com a traqueostomia, era um
sufoco cham-la durante a noite, pois eu no emitia nenhum
som. Depois, sem a trqueo, fazia uns "h", na forma de som,
que serviam para cham-la. Ela vinha e me virava, pois at
hoje no rolo na cama. Sempre acordo e com os meus "h", chamo
algum para me virar... toda noite.
     Alice gostava muito de bater papo com outra enfermeira do
hospital. Na poca em que eu no emitia som algum, rezava para
que ela olhasse para mim, mas, se ela estava entretida com
suas conversas, eu passava despercebida. Ento eu chorava. Um
choro sem som e sem lgrimas que no chamava a ateno de
ningum. Nem que eu quisesse... tudo isso s para me virar na
cama. Que decadncia!
     Ela  baixinha, cabelos curtos e crespos, mulata, e
depois que engravidou ficou parecendo uma bolinha. Alice ficou
grvida de gmeos, brigou com o marido... Ela me contava tudo.
Ficamos amigas. Coisa fcil, pois era, e ainda sou,
extremamente carente. No carente de afecto, pois todo o amor
do mundo tenho da minha famlia, mas carente de convvio
social...
     Antes de contratarmos Alice, nos fins de semana, dormiam
comigo Cristian, Nelson e Beto. Pasmem! Com 150 amigos, era
justamente Betinho quem dormia ao lado da minha cama e de
madrugada me virava. Isso reforava a hiptese de estar
vivendo um pesadelo. De repente, gente de quem eu no gostava,
ou que, por algum motivo, no gostava de mim, agora se
desmanchava em sorrisos... Beto, Ane Marie, Poliana... A
presena dessas pessoas s me fez lembrar que, de verdade,
estava doente. Na poca, achei tudo estranho. No entendia que
agora no oferecia perigo nem para uma mosca. Achei engraado
e acreditei que s podia ser mesmo um sonho ruim.
     A idia do pesadelo se reforou quando vi Hricles e Ane
Marie entrando no meu quarto de hospital. Eu pensava:
     "Eles no estavam sem me cumprimentar? O que  que eles
esto fazendo aqui? Ah,  sonho! Tudo pode acontecer num
sonho..."
     S agora vejo a gravidade da situao. Mas recebia bem
essa proximidade. No por Ane Marie, de quem no gosto at
hoje, mas por ter de volta meu amigo Hricles. Algumas vezes
ele aparecia s. Em uma dessas vezes - ele no sabia qual o
tamanho da leso no meu crebro - ele me perguntou:
     - Voc lembra que j fazia um tempo que a gente no se
falava?
     Ele queria ver at onde minha conscincia estava s. Todo
o mundo, de um jeito ou de outro, veio at mim, tambm,
buscando essa prova. Eu percebia essas perguntas aparentemente
feitas ao acaso, mas que na realidade buscavam mais da minha
mente do que simples respostas. Percebia, no me ofendia e me
sentia aliviada de ter uma conscincia que correspondia a
todas as expectactivas.
     Eu e Hricles tnhamos muito do que nos lembrar... Anos e
mais anos de uma gostosa amizade. De posse de uma mente to
lcida quanto era antes do AVC, provei que tinha o fio de
minha histria nas mos.

Dia 23 de agosto de 1996

Oi, minha caladinha.

     Voc j est cansada de ouvir minha vidinha de hospital?
Eu fiquei mais ainda de ficar por l... Tudo parecia uma
eternidade.
     Toda manh aparecia no quarto do hospital uma auxiliar de
enfermagem muito boazinha: Andreia. Ela era responsvel pela
higiene dos pacientes e me dava um banho de leito, passava
perfume e escovava meus dentes. Banho de leito  um nome
bonito para o popular banho-de-gato. Como o nome diz,  um
banho na cama. No tem nada parecido com um bom banho... e
mais uma "passao" de panos hmidos. De maio at meados de
julho no vi um chuveiro, s depois, em casa.
     De tarde, apareciam no meu quarto Bruna e Mnica, duas
auxiliares de enfermagem muito atenciosas. Elas injectavam os
remdios na minha sonda, e l iam eles para o estmago. Tambm
faziam o controle, a medio diria da presso arterial e dos
batimentos cardacos. Nunca tive problema com a presso.
Consta que tanto nos paraplgicos quanto nos tetraplgicos ela
pode cair... a minha nunca oscilou.
     No hospital pude perceber muito bem uma coisa: as
auxiliares de enfermagem eram mais atenciosas e bastante
carinhosas com os pacientes. Mais que aquelas que tinham feito
uma faculdade para isso: as enfermeiras.
Comecei a ficar com muita dor devido aos remdios. Uma tarde
eu estava com Gracita e, ao ver Bruna e Mnica, ca no
berreiro. Berreiro  modo de falar, porque meu choro era sem
som. Sempre associava as visitas da Bruna e da Mnica com dor
de estmago e frequentemente chorava. Descobriram, ento, que
eu estava com gastrite! Alm dos meus remdios, ainda comecei
a tomar um para o estmago.
     Era complicado diagnosticar uma dor, porque eu no
falava, no reclamava, no me mexia... s fazia sim e no com
os olhos. Assim descobriram a gastrite e tambm uma bursite...
e mais remdios. De vez em quando, tinha que tirar uma
radiografia, e apareciam no quarto trs jovens rapazes que me
divertiam muito. Se estivesse como antes, no teria
dificuldade em conquistar um deles, mas percebi que agora no
chamava nenhuma ateno. Hoje, quando vejo um rapaz atraente,
logo penso:
     "Ah, se eu estivesse boa!"
     Tambm na parte da manh, sempre vinha uma mocinha fazer
limpeza no quarto. Pelas suas visitas dirias e pela sua
simplicidade, acabou se tornando minha amiga, minha e de
mame.
     Durante meu tempo de hospital, fiquei muito ntima da
ressonncia eletromagntica. Foi atravs dela que
diagnosticaram minha trombose. Um dia, estava no meu quarto do
hospital e chegaram os dois enfermeiros que sempre me
transportavam pelos corredores do hospital, o seu Milton e seu
Slvio. Eles me tiraram da cama, me puseram em uma maca, me
cobriram jeitosamente e me transportaram at a sala de
ressonncia. A ressonncia eletromagntica  feita em um
aparelho grande e branco, com um tnel no meio. Atravs desse
tnel, introduz-se a pessoa deitada. Diziam que esse exame no
doa e era verdade, mas, enquanto estivesse no tnel, teria
que permanecer imvel apesar dos barulhos horrveis que a
mquina soltava.
     Mame, que nunca me deixava, ficou perto da abertura
pedindo calma. Estava calma e no fiquei com medo do tnel,
mas era muito difcil controlar meus movimentos involuntrios,
ou melhor,  quase impossvel. Espasmos, hipertonia? Ficar
imvel como? S havia um jeito para eu ficar sem me mexer:
dormindo. Aps uma tentativa frustrada, resolveram me sedar.
Deram-me uma injeco na veia do meu brao. Um lquido claro
foi para o meu sangue e Logo dormi. No vi mais nada.
     Quando acordei, eu j estava na maca, indo para o quarto.
Sentia algo pinicar minhas costas, mas, na poca, eu no tinha
movimento algum, nem para fazer entender que tinha algo
estranho nas costas. Queria avisar, falar, mas isso est muito
alm do que sou capaz. Pensei em emitir um som... mas como, se
a traqueostomia no deixava? Eu ainda no me comunicava, s
fazia sim e no com os olhos. Ento fiquei bem quietinha na
maca. Cedo ou tarde amos descobrir o que me beliscava.
     Quando cheguei ao quarto, e me passaram para a cama,
vimos sangue no lenol da maca e uma agulha nas minhas costas.
Era isso, uma agulha, grande, francesa, esquecida
displicentemente na maca. A mdica que aplicou a sedao ainda
veio se desculpar, mas ficamos muito bravos. Podia ter sido
pior.
     J estava consciente, no meu quarto, no dcimo andar,
quando vi um tio que veio do Nordeste. Disse que veio me ver
No gostava muito desse tio e hoje gosto menos ainda. Ficou
muito claro que ele veio mais fazer turismo, no se
sensibilizando diante do choque emocional que eu e minha
famlia enfrentvamos. Meu tio usou e abusou da boa vontade e
da educao do meu perturbado irmo, diante da situao,
fazendo-o de guia turstico por So Paulo. Que coisa mais fora
de hora!
     Suas filhas, quando souberam o que me aconteceu,
disseram:
-    O que aconteceu com ela foi pouco!
     No imaginei que despertasse tanta inveja...
     Quando ele foi me ver, no me emocionei, mesmo sendo
fcil eu chorar. Sua visita durou uns 5 minutos e no me
transmitiu nenhum conforto. Fica difcil crer que ele se
deslocou do Nordeste at aqui, para fazer uma visita de 5
minutos... Que coisa mais sem propsito!
     No prprio hospital, tomei contacto com a fisioterapia.
No gosto das sesses de fsio. No gostava no Einstein, em
casa, e agora, que fao fisioterapia na Fundao Selma,
continuo abominando. Os fsios, de modo geral, tratam-me como
uma idiota porque no falo. No fundo, vivem da desgraa alheia
e repetem a todo momento:
-    Muito bom, Luciana!
     Por um movimento besta qualquer, ento, desmancham-se em
elogios, como se eu no tivesse senso crtico. Sei que no fiz
absolutamente nada de importante.  claro que toda regra tem
sua excepo. At nas sesses de fsio encontrei bons e raros
profissionais. Aprendi muito com eles. Achei uns profissionais
que se acham to bons a ponto de seleccionar seus prprios
pacientes. Entendi a que o terapeuta que pode, no me tem
como sua paciente: no falo, tenho uma tetraparesia, sou
emotiva, cheia de espasmos, no sou rica, para pagar as caras
sesses, e morro de medo de cair. Um caso curioso, porm
dispensvel.
     Sei que jamais adoptaria como profisso a fisioterapia.
Ainda bem que nem todos pensam assim. Afinal, a terapeuta
tenta recuperar meus movimentos perdidos. Mesmo assim, h dias
em que penso:
     "Cus, minha vida est nas mos desses profissionais!"
     Escolhi Farmcia para todo dia de manh ficar feliz por
fazer algo que me agradasse durante o dia. Tambm a fui
bastante punida. Quase todo dia acordo para fazer algo de que
no gosto:
fisioterapia. Se no fizer, no s deixo de progredir como
tambm atrofio.
     s s vezes acordo com um tremendo mau humor e penso:
     "Fisioterapia? De novo? Que saco..."
     Nesses dias, mal falo com meus pais, e s meu querido
irmo arranca de mim algum sorriso. Minha me troca minha
roupa... e eu de cara fechada. Sinto raiva de tudo: do novo
dia que est nascendo, da minha situao, das goteiras que -
literalmente - no largam do meu p, dos meus poucos gestos
vagarosos e imprecisos e por ter de deixar a minha cama
quentinha, o mundo dos sonhos, e cair na cruel realidade da
fisioterapia!
     No trajecto at a Fundao Selma, vou, de facto. muda.
Com certeza, mesmo que tivesse fala, no trocaria uma palavra
com meu pai, que vai guiando e tentando, em vo, me animar.
Meu mau humor  incrvel. E se expresso alguma palavra, sou
azeda, amarga... No raro, minha me me acorda com um bom-dia
e eu logo penso: "Bom dia por qu?".
     Mas sempre na Fundao Selma tudo desaparece. As
terapeutas, alm de tentarem pr em ordem o meu fsico,
cuidam, de propsito ou no, do meu psquico. Elas so gentis,
doces, educadas, prestativas. Tambm existem alguns homens,
embora em menor nmero, e eles so divertidos e legais.
     Uma vez ouvi de um paciente que ele adorava fazer
terapia. Ele estava conversando com outro paciente. Pensei:
"Argh! Eu odeio!", O outro paciente perguntou:
     - Do que voc gosta mais? 
     - Do carinho - respondeu o primeiro.
     Percebi muito isso depois de ter me tornado uma
deficiente: o carinho que algumas pessoas tm connosco. Claro!
As pessoas agem de diferentes formas ao depararem com uma
cadeira de rodas. Tem de tudo: gente que me olha com pena
(tudo bem!); que torce o nariz ao me ver como se eu fosse
portadora de alguma doena contagiosa (que dio!); que se
dirige a mim como se eu tivesse uma idade mental de 5 anos
(ridculo!); que fala comigo de igual para igual (quase
esqueo como  ser tratada com naturalidade!); e as pessoas
que, alm de se comportarem normalmente, sem me olharem como
se eu fosse um bichinho verde de anteninhas, ainda do um
sorriso especial, um gesto doce, uma palavra amiga.
     Alguns fisioterapeutas da Fundao Selma so assim. Isso
move muitos de ns, nem pela terapia em si, mas por esse
convvio generoso. Eu mesma, quantas vezes, fui 
fisioterapia, fonoaudiologia, s pelo prazer de socialmente
ser bem tratada, com naturalidade, com carinho, por uma pessoa
fora do meu crculo familiar. E essas pessoas acabam se
tornando grandes amigos!
     Como  gostoso fazer amigos mesmo muda e numa cadeira de
rodas!  claro que hoje no fao amigos com a mesma agilidade
de antes; mas os amigos de agora no vo sair correndo se uma
nova tragdia acontecer. E uma amizade com uma base slida.
     De qualquer forma, eu e, com certeza, os demais
deficientes aceitamos bem esse modo de agir doce, porm no
apelativo. E ns, deficientes, somos carentes. Mente quem diz
que no. Pense comigo: na verdade todo o mundo gosta de ser
bem tratado, mas isso  extremamente difcil para quem vive
numa cadeira de rodas... e mesmo ser tratado normalmente 
raro. Alm disso nossas limitaes nos privam de vrias
actividades sociais, at de contactos fsicos como de vez em
quando dar um abrao. Lembro-me que li em algum lugar que,
para se viver feliz, so necessrios seis abraos por dia...
Bem, isso fica complicado numa cadeira de rodas! Tudo isso
mais a dor pessoal de cada um que vive assim nos tornam
carentes. E carncia casa bem com carinho.
      isso. Do carinho. Mas esse modo de agir dos
terapeutas, at o presente momento, no despertou em mim o
pensamento: "Que legal! Vou fazer terapia" 
     Talvez eu associe isso ainda s tapotagens nocturnas e
dirias, que me enchiam o saco. Tapotagem  um monte de tapas
nas costas que se d para desprender catarro dos pulmes. Meu
pulmo era muito frgil. Todo dia fazia inalao e na hora da
tapotagem eu pensava: "L vem a hora da surra..."
     Durante o tempo em que fiquei em coma, meu p ficou
equino. Para entender o que  p equino,  preciso imaginar um
p so, normal. Os ps fazem 90 graus com nosso corpo. O meu
p, quando acordei do coma, estava parecendo p de bailarina.
No faz 90 graus com o corpo, faz mais. E o calcanhar nunca
encosta no cho.
Quando sa do hospital, fui com papai at a Associao de
Assistncia  Criana Defeituosa (AACD), e fizemos uma
goteira, uma espcie de bota para os ps. Tnhamos esperana
de que a goteira corrigisse meu p equino - o esquerdo -, e
era necessrio us-la sempre, at dormir com ela. A goteira
forava o tornozelo, deixando-o vermelho, e doa. Ficamos com
medo de que provocasse escaras, umas feridas comuns nas
pessoas invlidas, principalmente naquelas que perderam parte
da sensibilidade. As escaras comeam com uma vermelhido na
pele, tornam-se fundas na carne e quase incurveis. Alm de as
goteiras favorecerem as escaras, so quentes, pesadas e seu
uso  invivel. Concluso: no usei e tambm o p direito, de
tanto tempo deitada, ficou equino. Agora, com os ps tortos,
s fico em p de novo se fizer uma cirurgia.
     Quando, na fisioterapia, foram um msculo perto do p,
ocorre o clonus. Uma hiperactividade, uma "tremedeira" da
perna, como se eu estivesse nervosa e batesse o p no cho. O
clonus acontece porque o calcanhar nunca encosta no cho. Tudo
 involuntrio e sem controle.  normal sair da terapeuta com
as pernas tremendo. Me sinto ridcula...
     Estou a poucos dias de uma cirurgia. Um mdico
ortopedista vai operar meus ps. Depois disso, um ms de gesso
e, posteriormente, muita goteira. O mdico disse que, com
certeza, eu vou ficar em p. Eu acredito nele. Ficar em p no
 andar. Na fisioterapia existem aparelhos que pem a gente de
p. No posso us-los por causa dos ps equinos. Mas isso est
prestes a mudar. Essa cirurgia me d esperanas de poder
voltar a andar. E ainda um mdico fisiatra disse que, se essa
cirurgia tivesse sido feita h mais tempo, eu j estaria
andando. S vendo para crer...

Dia 27 de agosto de 1996

Ol, menina!

     Um dia a guedel saiu, e mame, para evitar que eu
mordesse a lngua, no seu amor inconsciente de me, colocou
rapidamente o dedo entre meus dentes. Apliquei-lhe,
involuntariamente, uma supermordida. To forte que criou calo
de sangue no seu dedo, e ela teve de fazer curativo. Doeu mais
em mim do que nela, pode ter certeza. Eu no queria
machuc-la. Para que serve um crebro que no faz o que a
gente manda? Eu no tinha mais controle sobre meu prprio
crebro! E essa descoberta vinha dia a dia...
     Semanas mais tarde, com a ajuda da fisioterapeuta, e sob
os olhares atentos de minha me, resolveram deixar minha boca
livre. Tnhamos medo de que eu mordesse a lngua, mas a
retirada da guedel e de um outro aparelhinho representaria um
avano.
Os mdicos eram contra. Mas, corajosamente, tiramos.
Incrvel... no mordi a lngua, e nunca mais tirei sangue
dela. S tenho a cicatriz, que no me deixa esquecer desse
tempo.
     Comecei a engolir gelatina de uva e gua, de colherzinha
pela boca. O resto dos alimentos ia pela sonda. Dos 50 quilos
que tinha, fiquei com 33. A alimentao atravs de sonda,
apesar dos cuidados da nutricionista, no era suficiente.
Engraado  que eu no sentia fome. Tinha a impresso que
poderia passar meses sem comida. Reeduquei meu crebro.
Durante meses, perto do almoo ou do jantar, pensava comigo
mesma:
     "Luciana, voc deve estar sentindo fome."
     Com o tempo essa sensao voltou. Hoje, dois anos depois,
tenho de novo 50 quilos e sinto fome normalmente.
     Cristian vinha me ver sempre. E ele me dava muito
carinho, apesar de, agora, eu ser completamente inerte. Em um
dia, estavam na minha frente, no meu quarto de hospital,
Cristian e Lucas. Cristian me deu um beijo na boca. Se  que
se pode chamar aquela tentativa de beijo. Meus lbios no se
abriram, meus olhos no se fecharam e alm do mais minha
lngua permaneceu imvel. E pensar que eu gostava tanto de
beijar... Lucas assistiu quela cena. Antigamente, se a
Luciana Scotti desse um beijo na boca de um namorado na frente
de um ex, isso significaria: "Olha o que voc perdeu!". Agora,
aquilo, que nem era um beijo, queria dizer: "Olha do que voc
se livrou!".
     Essa descoberta veio aos poucos. A descoberta de que
minha vida era outra. Recentemente me dei conta de que nunca
mais vou ter marido, filhos, no vou mais fazer amor, beijar,
beber, danar, nadar, andar de bicicleta, paquerar, namorar,
dirigir, ter uma carreira, fumar, andar de patins... e talvez
nunca mais ande nem fale. Desesperador, no ?
Dos meus superiores da Colgate, ainda vi Clinton uma vez. Ele
veio me ver em casa, logo que sa do hospital. Tambm foi me
ver no hospital, quando eu estava em coma. Clinton coordenava
todo o pessoal: eu, Cristian, Jnior, Cleusa, a insuportvel
Poliana... Loiro, superbonito, alto, de olhos azuis, bronzeado
e Engenheiro Qumico, superinteligente. Em todo o perodo que
fiquei por l ele nunca me lanou sequer um olhar mais
atrevido, o que foi uma pena.
     No posso me esquecer do Jnior... esse no me abandona.
Se  que isso  possvel, agora somos mais amigos do que
antes. Ele sempre  pontual, marcando presena quase toda a
semana, dando-me foras para superar as intempries da vida.
Antes ele vinha e me trazia um agradinho: bala, biscoito,
sorvete... Agora ele est momentaneamente sem o carro. Suas
visitas que eram semanais, ficaram quinzenais, e agora ele s
pode me presentear com sua presena. Actualmente ele v quo
triste  minha sina: essa de depender dos outros. Enquanto ele
espera uma carona, eu espero um copo de gua, um prato de
comida, um cobertor, e todo o resto.
     Uma vez eu disse ao Jnior que meu corpo era igual ao de
antigamente. Mais por vaidade, do que pela inteno de pregar
uma mentira. Tenho certeza de que quem j me teve nos braos
nem tem dvida de que meu corpo  outro. Essa certeza est
estampada no rosto do Clber, do Lucas, do Lu e do Cristian.
     Quem tambm veio me ver no hospital foi Helena, do RH da
Colgate. A Helena  uma pessoa muito legal e delicada. Ela me
emprestou um rdio. Habituada a ouvir som no meu Uninho,
seguindo o mesmo costume, passei a ouvir FMs danantes, sem me
dar conta da dura realidade que me cercava.
 Hoje, meu irmo diz que a rdio que eu ouo  "rdio de
velho". No  bem isso, s me adaptei  cruel situao a que
estou entregue. Na verdade, no troquei de estao de rdio;
ela  que mudou de estilo, como se tivesse se adaptado a mim.
Se no tivesse sofrido o AVC, no teria eleito essa rdio como
a minha predilecta. Como  que vou ouvir canes que me do
vontade de sair pulando, se nem posso dar um passo?! Passei a
ouvir baladas romnticas, que no liberam tanta adrenalina,
como o dancing-music, que eu adorava muito. Mas ainda sinto
vontade de cantar... E hoje canto dentro de mim minha doce
cano italiana, Eros Ramaz.zotti-Esodi... 
 
 lo da qui non posso andarmene-diceva
 I miei piecli sono troppo stanchi epoi
 Questa terra  Ia mia terra, vecli l 
 Quel ciliegio l ho piantato proprio 
 E fra qualche mesefiorird 
 Come un segno di speranza rifiorir

     Uma noite eu estava vendo TV com mame e ca no choro. TV
mostrava um cantor cantando uma msica da qual eu sabia a
letra de cor. Deu-me uma vontade louca de cantarolar aquela
cano to conhecida. A letra da msica estava na minha mente,
queria p-la para fora, mas eu estava presa. Presa dentro de
mim mesma. Pode existir agonia maior? Chorei. Aprendi a cantar
com crebro, mas ainda fecho os olhos e me vejo cantando. E
canto mesmo Quase sem querer, do Legio Urbana 

Tenho andado distrado, impaciente e indeciso 
E ainda estou confuso, mas agora  diferente...
Quantas chances desperdicei, quando o que eu mais queria 
Era provar pra todo mundo
Que eu no precisava provar nada pra ningum... 
mas no sou mais to criana
aponto de saber tudo

Me delicio com Querem o meu sangue, dos Tits:

Dizem que guardam um bom lugar pra mim no cu
Logo que eu for pro belelu
A minha vida s eu sei como guiar
Pois ningum vai me ouvir se eu chorar
Mas enquanto o Sol puder arder
Eu no vou querer meus olhos escurecer
Pois se eles querem o meu sangue
Vero o meu sangue s no fim
E se eles querem o meu corpo
S se eu estiver morto, s assim
     
     Essas so minhas melodias internas... Canto direitinho,
apaixonada ainda pela vida...

Dia 6 de setembro de 1996

Querida Juju,

     Acabei de fazer uma cirurgia para meus ps ficarem de
novo rectos, a 90 graus. Voltei do hospital hoje. Dor... estou
sentindo muitas dores, mal consigo escrever. E eu que achava
que j havia sofrido muito... Fiquei dois dias internada e
agora estou com um gesso que vai da ponta do p at o joelho.
E tudo isso para ter a remota possibilidade de um dia, talvez,
voltar a andar. Ser que tanta dor e sacrifcio vo ser
recompensados?
     Quando acordei do ps-operatrio, pensei que fosse
morrer. Foram quatro horas de operao. Faltou-me o ar.
Colocaram uma mscara de oxignio. A traqueia doa muito,
porque fui entubada, mas meus ps doam muito mais.
     Quando subi para o quarto, ainda estava grogue da
anestesia geral. L estavam Stphanie, que ficou comigo todo o
tempo, e toda a minha famlia, que j estava apreensiva com a
demora. A noite foi terrvel. Sentia muitas dores e acordava
para vomitar. Stphanie sempre comigo, at durante a noite.
Como j disse, ela  uma auxiliar de enfermagem, que me foi
apresentada pela Vera e pela Linda, no segundo dia aps eu ter
recebido alta do Einstein. Alta, forte, morena, cabelos ralos
e curtos, mais corpulenta que magra e uma voz macia. No
comeo, no gostei dela e sempre fazia careta quando me
perguntavam se ela havia me agradado. Acho que, na verdade,
no gostava de nada que me lembrasse que agora era tetra e
muda.
Muitas vezes Stphanie saiu de casa chorando. Ela no se
conformava ao me ver, to jovem e bonita, submetida a tudo
aquilo. Meu mundo encolhera, chegara s dimenses de um
quarto, de uma cama. Ela ainda se comove ao me ver falante e
feliz, em uma foto ou em um vdeo. Antes eu tambm ficava
emocionada ao me ver como antigamente, hoje sei que emoes
no levam a fiada, s me desgastam.
      Actualmente, no existem palavras que possam agradecer
todo o zelo, dedicao, carinho e cuidado que ela teve por
mim. Stphanie foi mais que uma segunda me. Inmeras vezes
ela se ps no meu lugar e viu quo desesperador  ficar sem se
mexer, sem falar, adquirir outra aparncia, dependendo de tudo
e todos e quase nunca sendo ouvida. Desde que conheo
Stphanie, ela sempre me ouviu, mesmo soletrando, e nunca me
disse:
      - No posso ouvir, porque estou com pressa. - Uma frase
to frequentemente ouvida por quem s se comunica
expressando-se por uma letra de cada vez.
      Durante dois anos, seis horas por dia, de segunda a
sbado, ela conviveu comigo. Conversvamos sobre tudo... Eu a
cativei e ela a mim. Tornamo-nos muito amigas. De vez em
quando a gente discutia, mais pela convivncia, que por
qualquer outro motivo. No final dos seus dias de trabalho
connosco, seu salrio j estava muito defasado, pois pagvamos
abaixo do mercado. Mesmo assim, ela continuou me respeitando e
fazendo minhas vontades. Permitindo, por exemplo, que eu
escolhesse minha roupa aps cada banho e nunca me empurrando
qualquer uma.
      Stphanie deveria chegar s nove horas. Nove, dez, onze,
s vezes at meio-dia. Ela se atrasava, mas vinha. Chegava,
dava um beijo e dizia bom dia.
      No comeo do nosso convvio, eu falava com ela o
estritamente necessrio, s piscando. Mas a Stphanie sempre
se dirigia a mim com carinho. Um dia, ela estava usando uma
malha de botes, e um boto caiu e ficou numa dobra da malha.
Eu vi e tentei avisar. Avisar como? Sem falar e sem me mexer,
foi aquela novela! Depois de uns 15 minutos ela entendeu. Riu
gostoso do meu esforo, que consistia num par de olhos
esbugalhados, fixados no boto cado e num monte de "h", "h"
aflitos! Parecia que ela trazia um escorpio na blusa!
Agradeceu, me deu um beijo e comeou a nossa amizade. Na
verdade, "baixei a guarda". Eu vivia com raiva do mundo, mas
aprendi a aceitar o carinho das pessoas. Aprendi com
Stphanie. A mesma que me dava banho e dizia:
      - Se voc acertar o que esqueci de fazer, te dou uma
caixa de chocolate.
      Eu pensava, pensava e fazia no com a cabea,
desistindo. Ela dava uma dica:
      - Esqueci de fazer uma coisa que voc sempre cobra e
hoje esqueceu de me avisar...
      Com um olhar esperto, como dizendo "Ah, j sei!", e j
com movimento no brao, eu levava o dedo indicador ao dente, e
ela dizia:
      - Acertou! Esqueci de escovar seus dentes!
      E na manh seguinte, l vinha Stphanie com o chocolate.
Assim, ela trazia um pouco de graa a uma convivncia que
seria montona. Ela me conhecia to bem! Conhecia todos os
meus sinais em cdigo, alm de muitas vezes simplesmente
adivinhar o que eu queria. Ela me perguntava por exemplo:
      - De que cor voc quer o vestido?
      Eu pensava: vermelho. Ento eu procurava algo vermelho
no quarto e apontava.
      Stphanie imediatamente dizia:
      - Ah, vermelho!
      Ou ento eu apontava para a axila, e ela perguntava:
      - Desodorante?
      Se eu abria a boca, queria dizer gua. Se eu passava a
mo no rosto, perfume. Esses e muitos outros sinais foram
sendo criados durante nossa convivncia para agilizar a
comunicao.
      Com o passar dos anos, Stphanie comeou a chegar tarde
todo dia, dava um beijo de bom-dia e dizia:
      - Hoje s vim te dar banho. Tenho que voltar correndo
para casa.
      Durante o banho, ela me contava entre lgrimas, do
glaucoma avanado do pai.
      - Ele no enxerga quase nada e deixei ele em casa
sozinho. Tenho que voltar, dar almoo para ele e pingar
colrio no olho dele.
     O tempo foi passando. Stphanie era o alicerce forte de
sua casa, assim como eu fui o da minha, at ter o AVC...
Surgiram alguns problemas familiares e ela se viu obrigada a
me deixar. Mas no me abandonou. Frequentemente ela vem me ver
e aproveita para me dar um banho. Sempre que preciso, como
agora na cirurgia, e sem que eu pea, ela se prope a ficar
comigo e a me cobrir de conforto. Assim  Stphanie, uma coisa
boa no meio de tantas ruins... Um anjo da terra...

Dia 17 de setembro de 1996

Boa tarde, Juliana!
      
      Eu dizia que nunca minha presso oscilava. Voltei da
cirurgia, fui fazer terapia na Fundao Selma, fiquei em p e,
de repente, tudo escureceu. Minha presso caiu muito, fiquei
tonta, e logo me puseram deitada com as pernas para cima.
Muito tempo deitada d nisso. Mais uma prova de que a terapia
 essencial.
      Estou ficando em p todo dia, nem que sejam s 10
minutos, e passo quase o dia inteiro sentada, como agora, s
que escrever na cama  mais cmodo. Actualmente, luto contra o
fluxo sanguneo que me "foge" da cabea quando fico de p. O
corao se habituou a bombear o sangue na horizontal, ou seja,
deitada; quando fico na vertical, o sangue "escapa" do
crebro. Preciso desses exerccios porque quero um dia voltar
a andar, mantenho essa esperana. Assim como mantenho tambm o
desejo de voltar a falar.
      Quem tem trqueo geralmente no fala, pois todo o ar sai
pela traqueia. Ainda no meu quarto de hospital, no Einstein, a
trqueo foi diminuindo, quer dizer, foram-se efectuando as
trocas de abertura da minha traqueia por anis menores, e o
buraco da traqueostomia ia fechando. Eram 9 e foi decrescendo
at chegar ao 1. Hoje restou uma cicatriz horrvel bem na base
do pescoo, no conhecido gog.
      Entendo que, junto com meus movimentos, foi embora meu
poder articulatrio. Como dizer vogais, dar um beijo, comer,
ou dar um sorriso? Meu problema motor  muito grande, nunca
vai chegar perto do que era. A parte do crebro que alguns
dizem ser responsvel pela fala est intacta. Por outro lado,
sabemos que  impossvel falar sem mexer a lngua.  o meu
caso.
      No incio, achava que algo, um no-sei-qu tecnolgico,
resolveria meu problema, e explico por qu. Um dia, estava em
casa, comendo, rindo e engasguei. Tossia muito. Imediatamente,
meu irmo bateu nas minhas costas. Desengasguei e falei:
      -   Obrigada!
      Nem sabia mais como se falava a palavra obrigada, mas
falei! Superntido, igual a como se escreve... nada parecido
com os sons distorcidos que a fono, com muito esforo, arranca
de mim. Como  possvel algum que  muda dizer, de repente,
obrigada? Desafio mdicos e fonos a me darem uma explicao
convincente. Minha mudez foi trada por uma palavra.
      Tudo o que se passa comigo procuro entender e, assim, j
aprendi muito. Logo eu, que nem sabia o que era uma sonda. Mas
essa histria do obrigada  um lance que at hoje constitui
mistrio para mim. Foi to rpido, mas, naqueles segundos, eu
podia ter falado qualquer coisa, e a primeira coisa que me
veio  cabea foi uma palavra de agradecimento.
      Por isso acho que temos que estudar mais e mais e
descobrir como  possvel despertar a fala de um crebro que
sofreu um AVC. Que tem um cerebelo quase totalmente destrudo,
mas que em uma confuso da respirao - engasgando, rindo, e
tossindo - conseguiu nitidamente emitir uma palavra. Pode ter
sido uma coincidncia instantnea de sinapses, mas temos de
descobrir como isso foi possvel. Afinal, nem mexo direito a
lngua. Como foi possvel dizer obrigada? Como utilizar 70 por
cento do crebro que est inactivo? Ainda estamos
engatinhando, principalmente quando o assunto  crebro...
      Tambm notei que, alm de no falar, minha risada
gostosa tinha se transformado em um grito estridente, horrvel
e assustador. No hospital no me apavorei, porque achava mesmo
que tudo era um sonho. Pouco a pouco fui percebendo que ria
diferente das outras pessoas: todo mundo ri "para fora", o ar
sai da boca em uma risada normal, e eu rio "para dentro", o ar
entra na minha boca. O som?  pior que o de uma gralha
histrica! Essa  at uma parte cmica, convenhamos, do riso,
meu riso.
      Meu irmo percebeu isso, e toda vez que a gente vai ao
shopping ele comea a contar piadas, eu rio, todo o mundo olha
assustado e ento eu rio mais ainda, mais alto, sem parar. E
quanto mais eu gargalho, mais as pessoas olham... e quanto
mais olham, mais eu gargalho... Meu irmo se diverte com isso,
e rimos juntos pelo shopping.
      Um dia fui ao cinema ver Romeu e Julieta. Era uma verso
nova, mas  lgico que ambos morreram no final. Nisso, ouvimos
algum chorando. Caio, que estava connosco, observou em alto
som:
      - U?! J viu Romeu e Julieta com final feliz?
      Pra qu? Comecei a rir no silncio do cinema, todos
olharam com aquela cara de "O que  isso?", ento ri mais e
mais...
      Ainda no me sinto  vontade com minha risada, procuro
evit-la racionalmente pois, com um som to feio, rir em
pblico me mata de vergonha. Continuo rindo das mesmas
situaes e factos, por isso hoje ainda evito tudo o que me
leve ao riso: shows de humoristas, comdias de teatro e filmes
de humor. Quando vou ao cinema, escolho antes o filme. Se 
engraado, no vou.
      O melhor programa que fiz depois da trombose foi ter ido
com Marcus e Hricles ao Simba Safri, onde pude rir 
vontade, sem sair do carro.
      Foi uma tarde de domingo, bem ensolarada. J de cara eu
estava animada com o passeio. Eu me imaginava dentro do carro
do Hricles, com meu engraado irmo, absolutamente livre para
rir como quisesse. Eles me enchiam de cuidados e diziam:
      - Olha l, Lu. Que engraadinho aquele macaco!
      O macaco engraadinho veio no vidro do carro, na minha
frente, e comeou a fazer graa. Eu ria com meu riso de hiena
ferida. O macaco ouviu aquele som e comeou a guinchar, como
se quisesse dialogar comigo. Hricles e meu irmo caam na
risada e eu ria com mais fora ainda. E os macaquinhos vieram
todos para cima do nosso carro. Foram instantes mgicos, pois
eu me sentia conversando com eles, brincando. Eu e os
bichinhos nos entendemos ali, rimos, fizemos caretas, sem
medo, numa aproximao total. Senti que estava prxima a
essncia da comunicao. Da comunicao primria, primitiva.
      O riso vazava do nosso carro e chegava aos ouvidos dos
passageiros do carro ao lado, que olhavam assustados
procurando a origem daqueles uivos. Ri da cara assustada das
pessoas ao ouvirem meu riso, ri da reaco das pessoas diante
do desconhecido.
      No comeo achei, ingenuamente que, quando voltasse a
falar, teria de novo minha risada. Hoje sei que, se voltar a
falar, nunca mais vou rir como antigamente. J vi gente com
leso cerebral rir feio, mas sou preo duro para se vencer um
campeonato. S no entendo por que... ainda. Sou
persistente...

Dia 7 de outubro de 1996

Juliana, minha amiga!


 Tenho um tio que simplesmente adoro! Ele tem problemas
cardacos,  oito anos mais velho que meu pai e irmo dele.
Meu tio  muito engraado, e lembro-me que, antes de ter o
AVC, dei gostosas gargalhadas com ele.
      Eu estava no hospital, consciente, comunicando-me s com
"sim e no", na cama hospitalar, de trqueo, sem andar, sem
falar, de sonda, cabelos rapados, vendo um pequeno pedao do
mundo pela janela e totalmente irreconhecvel. Estava nessas
condies, quando vi meu tio querido diante de mim, naquele
quarto. Chorei. Pela primeira vez, depois da trombose, com
lgrimas. Meu tio, que sempre me fez rir, acabou sendo o
responsvel pela volta das minhas Lgrimas. E foi bom chorar
com lgrimas, me molhar com elas. Choro seco  estranho, 
engasgado, parece que fica pela metade...
      Nesse mesmo dia, fui transferida de andar e de quarto.
Criei laos de amizade com aquele pessoal que fazia servios
no meu quarto, no dcimo andar, diariamente. Fiquei bastante
tempo no hospital e me habituei com eles; e eles comigo.
Lamentei ficar longe da Bruna, da Mnica, da Andreia... que se
tornaram ntimas e torciam pela minha melhora.
      Fizemos uma pequena mudana. Mame recolheu coisas como:
termmetro, cremes, gazes, escova de dentes. Despedimo-nos de
todos e fomos para o quinto andar. Foi a ltima vez que o seu
Slvio e o seu Milton me emprestavam suas pernas.
      O quinto andar era frio e impessoal. No conhecamos as
enfermeiras, as auxiliares, os fisioterapeutas... Mas seria
por pouco tempo, a alta se aproximava. Na minha concepo, o
fim do pesadelo estava perto. Na verdade, estava apenas
comeando. Ainda recebi algumas visitas amigveis do pessoal
do dcimo andar.
      Mesmo no quinto andar, fazia constantemente
fisioterapia. Ela havia entrado na minha vida para nunca mais
sair, mas eu no sabia. Alguns amigos assistiam sem cerimnia
s sesses de fisioterapia. Entre eles, lembro-me do meu irmo
e do Lucas.
      Um dia entrou um terapeuta no meu quarto, e logo pensei:
      "Esse cara  gay!". Olhei para Lucas, e ele para mim, e
camos na risada. Eu conhecia Lucas to bem e sabia que ele
tinha pensado a mesma coisa, to rpido quanto eu. Por poucos
minutos rimos da nossa gostosa cumplicidade. Por um momento, e
nunca mais. O Lucas, por quem me apaixonei e namorei trs
anos, morreu junto com a garota que ele namorou, em maio de
94. Ele no existe mais. Procuro o cara que demonstrava
carinho e atraco por mim, mas no o encontro mais.
      Olho para minha imagem reflectida no espelho. Como quero
despertar interesse, carinho e ateno? Despertar pena talvez
seja mais humano. Lucas e todos os meus ex-namorados s me
tratam com igual atraco nos meus sonhos...
      Quarta-feira, dia 6 de abril de 1994, foi o ltimo dia
em que fiz amor de verdade e guardo lembranas garantidamente
boas, pois me vi nos braos de um homem que, como amante,
nunca me decepcionou: Lucas. Acho que essa  a evidncia mais
forte. Apesar de no namor-lo mais, de estar tentando viver
outro relacionamento, era s Lucas me chamar que eu ia. E ele
me chamava.
      Nosso encontro foi cheio de coincidncias: foi em um dia
6 que comeamos a namorar, e em um dia 6 ele me teve pela
ltima vez. Fiquei fazendo comentrios fnebres, imaginando
como seria meu enterro... no pensava que, em menos de um ms,
quase perderia a vida, de verdade. Apesar de estar envolvida
com Cristian, como me sentia bem e feliz em fazer amor ou s
de estar perto do Lucas!... Pena que ele nunca falou em
voltarmos a namorar.
      Pensando no AVC, ainda bem que nunca mais esse assunto
veio  pauta. Seria uma barra pesada demais para Lucas segurar
e, para mim, seria uma decepo. Talvez j fosse tarde demais.
Talvez tenha sido melhor assim. Hoje, aparentemente, somos
amigos. Excepto por um pensamento que me assola e no me deixa
 vontade diante de Lucas: acho que ele tem mais a ver com o
que aconteceu comigo do que aparenta.
      O que ele demonstra? Nada. Nem parece que um conjunto de
factores me levou  trombose. Nem parece que a plula foi um
deles. Nem parece que Lucas, de certo modo, incentivou essa
deciso. Nem parece que ele me estimulou a mentir. Tudo
aconteceu para mim como se fosse pouco ficar tetraplgica e
muda.
      Actualmente, ele vem me ver uma vez por ms. Daqui a um
tempo suas visitas sero semestrais ou anuais. Ser que 
assim to fcil continuar com a prpria vida e de vez em
quando visitar a ex-namorada, tetraplgica e muda? Ou ser
que, embora no demonstre, ele sofre com isso?
      Voc pode estar pensando: com tamanha desgraa, o que o
tal Lucas pode fazer? Pensando na minha actual situao,
realmente, ele no pode me tirar dessa. E sei que, se pudesse,
ele o faria. No peo muito, s um pouco mais de
companheirismo.
      Uma noite, meu pai e Hricles estavam comigo no quarto
do quinto andar, e precisei ser trocada. Duas enfermeiras
vieram trocar minha fralda, enquanto o meu pai e Hricles
ficaram esperando do lado de fora do quarto. Na manipulao,
senti que as enfermeiras foravam sem querer a sada da
trqueo, que estava folgada porque tinha sido diminuda
naquele dia. Era a traqueostomia de nmero 1. Eu sentia que
estava saindo, mas como  que ia avisar? Saiu. As enfermeiras
tentavam coloc-la de novo, sem sucesso. Meu pai e Hricles
entraram no quarto, e viram, exposto, um buraco nojento na
minha traqueia.
      Um mdico da UTI lindo, por sinal - veio em meu socorro.
Ele ligou para a mdica responsvel pelas trocas de
traqueostomia, e decidiram tirar de vez. Eu ia voltar a ficar
com a traqueia fechada. O mdico fez um curativo, que deu
origem a essa cicatriz horrvel que carrego comigo. Mas fiquei
to feliz!... Acho que nunca senti tamanha felicidade. De
facto. isso significava que eu ia sem trqueo para casa, mas,
para mim, representava o fim prximo de um pesadelo
simplesmente monstruoso: minha vida.

Dia 9 de outubro de 1996

Querida amiga,

 Parecia que eu ia receber alta. Logo iria para casa. Para
mim, nada me tirava da cabea que eu iria brevemente acordar e
pr um fim naquele sonho mau. Estava elctrica e radiante.
       bem verdade que dei entrada no Einstein inconsciente,
cheia de aparelhos e beirando a morte; agora eu tinha
sobrevivido,  facto. Mas ganhei de presente uma vida de
sofrimentos, frustraes e renncias. Era isso ou a morte. O
que voc escolheria? O que voc acha menos penoso? Por que
temer um fim inevitvel? Cedo ou tarde todos ns vamos morrer.
Eu temia muito a morte na adolescncia e cheguei a registrar
esse temor:
      
      Ontem morreu uma irm de mame, Tia Emilia.
      Que vida ingrata, no? Ela era frgil, cheia de f em
Deus e preocupada com as pessoas. Viveu com problemas de
sade, desde que nasceu at ontem.
      Sentirei saudade... sentia-me feliz com ela e sabia que
ela me adorava. Dificilmente sorria, mas muitas vezes a vi
chorar. Foi uma sofredora... Estou inconsolvel...
      J chorei um monte, O que acontece com quem morre? Para
onde vo? Onde ficam? Sei que a nica certeza da vida  a
morte, mas ningum a aceita. Descobri que tenho medo de
morrer... Por que Deus leva embora as pessoas que amamos? Por
que no nos ajuda a viver mais e mais, com alegria e sade?
Por qu?
      O futuro me angustia porque ele contm a minha morte.
Uma vez que o homem nasceu, j  bastante velho para morrer.
No se possui realmente seno aquilo que se pode esperar. Eu
j estou morta, uma vez que devo morrer.
      
      Hoje no temo mais a morte, ela tornou-se uma idia
simplesmente natural para mim. Talvez por ter estado diante
dela, talvez por achar que muito sofrimento no vale a pena.
      Mesmo nessas condies to precrias, eu ia receber
alta. Certamente eu no estava ganhando nada com essas
experincias mdicas, pelo menos achava isso. Mas na minha
iluso eu estava feliz. Minha alta representava o fim de um
pesadelo com fraldas, sonda, fisioterapia, enfermeiras,
mdicos, exames, traqueostomia, inalaes, raios X... Nem
imaginava que esse pesadelo, de facto, estava s comeando.
      No dia planeado para eu receber alta, nem dormi  noite,
de tanta emoo. Papai e mame apareceram cedo. Mame me
colocou uma camisolinha de flanela, de manga comprida, xadrez,
vermelha e azul. Finalmente demos adeus aos camisoles de
hospital. A camisola xadrez era comprida, para no mostrar a
fralda.
      Alguns mdicos vieram se despedir, eram muitos, uns 13.
Eu, sem filar, somente ria amigavelmente. A nica coisa que me
importava  que logo iria para casa. Naquela poca eu no
pensava direito no horror em que os mdicos tinham
transformado minha vida.
      As coisas estavam nesse p, quando o doutor Dcio ligou.
      Ele e o doutor Clvis tinham decidido que eu passaria
mais um dia no hospital. A alta tinha sido adiada por um dia.
Ca no choro. Desesperadamente eu queria pr um fim naquele
sonho monstruoso. Na minha teoria, eu estava dormindo em casa
e, logicamente, precisava estar l para acordar. L eu
acordaria e aquele sonho ruim ia chegar ao fim. Mas no teve
jeito, por mais que eu chorasse. Outro dia no hospital ia ser
inevitvel. Se pudesse, gritaria, xingaria, espernearia, mas,
como no podia fazer essas coisas, traduzia toda minha raiva
em pranto. Coisa que fao at hoje.
      Na minha doce ignorncia, queria voltar ao meu mundo o
mais cedo possvel e pensava que um dia de hospital no
representaria uma melhora. Troquei de roupa e voltei aos to
familiares camisoles. A alta ficou para o dia seguinte.
      Um novo dia chegou, e novamente papai e mame vieram
cedo. Pus de novo a camisola xadrez. Chegou a hora de pagar ao
hospital... Meu seguro-sade, que foi introduzido pela
Colgate, pagou todas as despesas do hospital. Quando vejo
propaganda de planos de sade na TV, penso em como o seguro
que eu tinha me deixou satisfeita. Sem ironia.
      Mas o seguro-sade no pagou os mdicos. O seguro at
tentou realizar o pagamento deles, mas eles fizeram um
oramento baseado em milhares de dlares, acima de qualquer
tabela. A seguradora se recusou e no pagou. Minha famlia,
que nunca foi de posses, viu-se em uma cilada... pagar aos
mdicos como? Sa dessa situao como caloteira. Os mdicos
nunca foram pagos. Minha famlia havia deixado claro que o
pagamento deles estava nas mos do meu seguro-sade. A
seguradora se recusou e minha famlia no tinha
infra-estrutura para arcar com essa despesa.
      Meses depois de eu ter recebido alta e estar em casa,
alguns mdicos que trataram de mim no Einstein entraram com
uma aco contra meus pais. Se ns tivssemos a quantia que
eles pediram, teramos pago, mas de onde arrumar?
Definitivamente, ns no tnhamos dinheiro, nem propriedades,
portanto, essa aco durou mais alguns meses e no deu em
nada. Cretinice.
      Enfim, o seguro fez uma proposta de pagamento, muito
inferior  exorbitncia que eles tinham pedido. Os mdicos no
aceitaram e acabaram ficando sem um tosto. O seguro pagou a
conta do hospital, e no foi barato.
      Bom, mas no dia da alta, criou-se um dilema: como eu
iria embora para casa? Lucas me fazia uma perfeita
tetraplgica, muda e doente, recm-sada de um hospital.
Insistiu muito para eu voltar para casa de ambulncia. Quanto
a mim, queria parecer o mais normal possvel. S tinha uma
certeza: j estava cheia de hospital. Queria sair de l de
carro. Mesmo sem fala, consegui impor minha vontade e sa do
hospital de carro. Voltei no carro do Hricles, pois Lucas era
incapaz desse gesto. Tambm estavam a Linda e a Vera, que
foram para minha casa seguindo Hricles no carro delas.
      Assim, deixei a minha vida de hospital, que comeou no
dia 2 de maio e acabou no dia 14 de julho de 1994. Esperei
ansiosamente o fim daquele pesadelo, que nunca veio.
      Nada era sonho, nunca foi sonho...

Segunda Parte

UMA VIDA PARTIDA

Dia 15 de outubro de 1996

Querida Ju,

 Chegando em casa, fiquei to feliz! Aquele era meu lugar, que
me viu saindo, chegando, recebendo namorados, dando festas,
telefonando, comendo, bebendo, rindo, brigando... Minha casa,
meu cantinho. Chorei de felicidade quando entrei e tambm
chorei ao ver meu carro: meu querido Uninho. Companheiro de
tantas farras! Quantas vezes fui passear e danar com a Bia!
Quantos namorados carreguei l dentro! Quantas vezes dirigi
tendo Lucas ou Cristian ao meu lado! Da faculdade ao CEPE-USP,
aos cursos e ao trabalho, ele me carregou fielmente. Um carro,
vermelho, lindo, exactamente como o deixei... Um simples
objecto? Aquele bem material lembrava um pedao de mim. Aquilo
que eu gostava de recordar, e sabia que no existiria mais.
Olhei para meu Uninho e vi que nem dirigi-lo podia. To perto
e to longe.
      Fui carregada para o sof da sala, e mame fez um
espaguete. Animei-me com o antigo aroma do molho. Eu ainda
comia atravs de sonda, mas arrisquei umas garfadas daquela
delcia. Qual no foi minha surpresa ao perceber que eu no
conseguia nem engolir os pedaos pequenos de massa que me eram
oferecidos. Aprendi que com gua ficava mais fcil. E assim
foi. Comi macarro com muita gua. Hoje j consigo engolir
pedaos pequenos de espaguete, mas mastigar est alm das
minhas capacidades.
      Sonho com uma picanha malpassada.  um desejo simples,
mas acho que nunca mais vou a uma churrascaria matar minha
vontade. Engolir carne, alm de indigesto, no tem sabor...
Fico imaginando uma deliciosa picanha, do jeitinho que gosto,
malpassada, suculenta, sangrenta... Hum... Comer
prazerosamente...
      As vizinhas logo vieram me ver, animadas, as mesmas que
se reuniram para promover, posteriormente, um bingo numa
igreja vizinha para angariar fundos e ajudar no meu
tratamento. Depois fui carregada para a parte de cima da casa,
para meu cantinho.
      Meu quarto estava irreconhecvel, assim como a dona. No
lugar do carpete, um plstico laranja cobria tudo, protegendo
meus pulmes do p. A minha cama no era mais a mesma. Era uma
cama hospitalar superalta, para ser mais fcil mexerem comigo,
me trocarem ou me virarem de noite.
      No meu criado-mudo existia um inalador (eu fazia
inalaes dirias; hoje no fao mais). Do lado da cama, um
suporte para a alimentao por sonda e eventuais soros. Na
cozinha, uma poro de latinhas de comida lquida, que o
marido da Gracita deu. Tambm havia uma pauprrima cadeira de
rodas e um aspirador de traqueostomia que nunca foi usado.
Tive de ir me adaptando a esse novo cenrio.
      A cama, o suporte, o inalador, o aspirador e a cadeira
de rodas foram doaes da Colgate.
      A Colgate  realmente uma ptima empresa, desde que voc
se encaixe num modelo capitalista e no cause problemas
sociais. Alis, como todas as empresas,  claro. A empresa
oferece almoos, festas, sorteios, cursos, coquetis e
prmios. Tambm me deu a oportunidade de conhecer muita gente
inteligente. Mas uma tragdia aconteceu, e ningum est livre
disso. O RH (Recursos Humanos) da Colgate disse um dia para
meu pai:
      - A Colgate no  me da sua filha.
      Essa frase traduz bem o comportamento que a empresa
adoptou diante do meu AVC.
      Recentemente, conheci um rapaz tetraplgico, do tipo que
no se move, mas fala: Antnio. J o mencionei antes. Ele est
empregado na mesma empresa em que trabalhava antes de ficar
tetraplgico. Ainda contrataram um ajudante para ele. Acredito
que seja difcil eu sonhar com essa possibilidade. Quando
cheguei em casa, nos primeiros dias, senti uma grande saudade
do meu trabalho, mas j estava ficando claro que voltar a
trabalhar seria um obstculo quase intransponvel.
      Pouco tempo depois que entrei na Colgate, procurei fazer
ps-graduao, pois tinha acabado a faculdade e odiava ficar
parada. Um amigo recomendou-me a Fundao Vanzolini. Era
particular, com um curso de dois anos e matrias optactivas.
Direccionei meu curso para Controle de Qualidade e ISO 9000.
      Na Colgate, fui falar com meu chefe, Clinton, porque a
empresa, de hbito, pagava integralmente cursos de
ps-graduao. Para a Colgate no seria nada, mas para mim
seria um grande alvio financeiro. Clinton pareceu empolgado,
mas era uma deciso que no dependia dele. Quem tinha que
aceitar minha proposta, e pagar minha ps-graduao em troca
do meu aperfeioamento na rea em que eu actuava, era o chefe
dele, Flavino.
      Preenchi um requerimento de bolsa de estudos e aguardei
ansiosa uma resposta. A notcia veio alguns dias depois: o
pedido foi indeferido. Decidi fazer a ps-graduao por conta
prpria.
      Desde os 22 anos, a empresa fora a minha aposentadoria.
Agora, com 25 anos, ainda no estou aposentada, mas  uma
coisa que est prxima. Primeiro a companhia quis me tirar o
seguro-sade. Hoje, depois da insistncia do meu pai, consegui
um seguro muito inferior ao que tinha, e  graas a ele que
minhas fisioterapias so pagas. Realmente meus pais no tm
condies financeiras pra arcar com despesas mdicas,
teraputicas e laboratoriais. Depois que for desligada desse
seguro-sade, onde vo aceitar uma tetraplgica muda num dos
tantos planos de sade que existem? Estou convencida de que
seguros so feitos para pessoas saudveis. Eu, desfilando de
cadeira de rodas, sou mais malvista que as pessoas idosas.
Estar ainda ligada  Colgate  um porto seguro, pois ainda
tenho garantidas as fisioterapias, hospitais, exames e
mdicos. E depois? Perco tudo isso...
      Para a Colgate, sem dvida, eu os deixo em posio
desconfortvel. Ansiosa por livrar-se o quanto antes desse
estorvo, imps uma condio: s paga meu seguro de vida se eu
estiver aposentada e interditada. Hoje estou interditada, mas
a interdio, na verdade, nada tem a ver com a Colgate. Nesse
processo jurdico, estabeleceu-se que eu no respondo mais
pelos meus direitos civis.  difcil de entender? Nem tanto.
Eu no assino nada, no tenho conta em banco, praticamente no
respondo por mim. Existe uma pessoa que controla tudo que 
meu, um curador. No caso, eu no poderia ter um curador
melhor, meu curador  meu pai. Nem eu mesma teria tamanho zelo
para com meus bens. Mas a interdio foi feita para facilitar,
devido aos meus limites fsicos. Como o Governo me paga
mensalmente uma coisa chamada licena-sade, eu no preciso ir
receber isso pessoalmente pois meu pai, que  meu curador,
recebe essa quantia, vai ao banco depositar, faz tudo por mim.
      Eu ainda sou funcionria da Colgate, apesar de no
trabalhar mais e no receber um tosto da empresa. Ela no
pode me demitir, pois eu era uma funcionria activa que ficou
doente. Quando acontece uma situao assim, o trabalhador,
ausente do trabalho, recebe a licena-sade do Governo at
voltar a trabalhar ou at ser aposentado. No meu caso, vou ser
aposentada e s ento me desligarei totalmente da Colgate. A
partir disso, vou receber do Governo uma aposentadoria mensal,
como todo aposentado. Eu ainda sou uma funcionria da Colgate
e, nessa condio, tenho um seguro-sade empresarial comumente
conhecido por plano de sade, alm do seguro de vida que fiz
ao entrar l. O seguro de vida deveria ser pago em caso de
morte ou, como  meu caso, invalidez permanente. Mas at a
data de hoje o pagamento desse seguro no foi efectuado. A
Colgate disse vrias vezes ao meu pai que eu s receberia o
seguro de vida se eu estivesse interditada e aposentada. Um
dia a Colgate nos entregou uma carta da seguradora confirmando
essa condio.
      No entendo. Outros seguros de vida so pagos sem essas
exigncias. Estou interditada, mas evito me aposentar para no
perder o seguro-sade e, consequentemente, o pagamento das
terapias que me sustentam psquica e fisicamente. Sem isso,
como pag-las? Estou preocupada porque perco o seguro-sade
empresarial, que me foi to til e ainda paga parte da
fisioterapia. A terapia tornou-se vital, pois, alm de
representar uma remota esperana de voltar a andar, no me
deixa atrofiar. Sem movimento, os msculos se atrofiam; tambm
os tendes, os nervos e at os ossos. Vejo-me numa cilada:
      quando for aposentada, quem vai pagar as terapias, se
minha famlia gastou at o que no tinha comigo?
      Tambm logo conheci a Previdncia Social, o INSS. Fui
fazer uma visita mdica e fiquei surpresa ao ser atendida por
um mdico que era pai de uma amiga de faculdade. Recebi um ano
de prazo para voltar l e depois, eventualmente, ser
aposentada. Voltei ao INSS mais duas vezes. Sempre recebendo
um ano de licena-sade. Ainda no me aposentei, mas vou
voltar em julho de 1997.
      Meu primeiro dia em casa passou rpido, com muita gente
 minha volta e uma certa confuso para todos se adaptarem ao
meu retorno.
      noite, deitada na nova cama, mas sentindo o aroma de
meu quarto, percebi que o pesadelo no se desfez e ca numa
profunda depresso. No era sonho, era realidade mesmo. Minha
casa no era a mesma, estava pronta para me receber de uma
maneira diferente da costumeira. Eu estava diferente.

Dia 16 de outubro de 1996

Bom dia, amigona!

No dia seguinte  volta para casa, comi uma sopa de batatas e
vomitei. Com a comida, veio junto o tubinho que estava preso
no nariz e ia at o estmago: a sonda. Lembrei da dor que
senti cada vez que tiveram de rep-la. Diante daquela
situao, olhei para meus pais e balancei a cabea desesperada
e negativamente. Sem fala, era o mximo que eu podia fazer.
Queria dizer:
      - Outra sonda, no! Pelo amor de Deus, chega desse
treco!
      Meus pais, comovidos com minha dor, consentiram em no
por uma nova sonda, mas levantaram uma questo: e os remdios?
      Com a sonda, os comprimidos eram diludos, injectados no
tubinho e iam directo para o estmago, deixando minha lngua
Livre do contacto com os comprimidos. Alis, essa foi a nica
vantagem que achei na sonda. Experimentamos ento, diluir os
comprimidos no leite e tentar com uma seringa. Tortura pura. A
soluo foi comprar um triturador de comprimidos: tambm
conhecido por "almofariz". Trs vezes ao dia, mame
transformava aqueles horrveis comprimidos em p e misturava-o
a um delicioso creme de chocolate que ela fazia. Comi creme
com remdio, diariamente, trs vezes ao dia. At enjoei, por
um tempo, de creme de chocolate.
      Minha me  uma ptima cozinheira. Daquelas que atraem o
mundo com o aroma de seus temperos. Minha me  minha...
      Ainda me lembro da minha me fazendo um ditado de mil
palavras quando eu estava aprendendo a escrever. E descendo
comigo a rua de casa, para pegar um nibus, de manhzinha,
para ir  escola... Di profundamente, no meu corao, olhar,
hoje, para as centenas de apostilas, dezenas de cadernos e
livros, milhares de exerccios e provas que guardei. Poderia
estar escrito numa delas que eu teria que sofrer esta e tantas
outras dores. E poderia poupar minha me desta dor...
      Mame sempre foi muito companheira, muito amiga... eu
nem suspeitava quanto.
      Lembro-me das doces manhs da minha adolescncia, das
sextas-feiras: mame saa cedinho para ir  feira. Cedinho
mesmo, l pelas seis da manh, o que mostra a disposio dessa
guerreira. Nunca foi acomodada, nunca deixou seus afazeres
para a ltima hora, O que devia ser feito, ela fazia logo.
      Enquanto ela saa para a feira, eu ficava dormindo e s
acordava com o barulho do carrinho de feira avanando no
quintal. Eu curtia uns momentos de preguia na cama e
levantava ao ouvir sua voz ao lado da minha cama:
      - Ciana, trouxe pastel quentinho do jeito que voc
gosta. Vai, levanta!
      Mame era assim... No era melada, no distribua
beijinhos, mas vivia demonstrando que sua famlia no lhe saa
do pensamento e do foco de sua vida.
      Enquanto eu comia o pastel, na cozinha, ela dizia:
      - Vi um brinquinho na feira, na banca da Mercedes, que 
uma graa. Comprei pra voc. - E tirando o brinco da bolsa: -
Voc gostou?
      Eu via e fazia que sim com a cabea, sem dar muita
importncia, sem pensar muito no seu jeito mpar de mostrar
amor. Durante 22 anos foi assim. Eu mantinha um relacionamento
bem afectuoso com meu pai, cheio de beijos e abraos, e esse
relacionamento distante com minha me. As vezes, eu e ela
brigvamos feio, e, no calor da discusso, eu gritava:
      - Voc tem inveja de mim! Eu no preciso de voc! Voc 
quem precisa de mim!
      Nossa, quanta bobagem eu disse. Como a gente fala
besteiras na hora dos enfrentamentos... Ah, ? Eu no
precisava dela? Sei... Com meu AVC minha me mostrou o que ela
sempre foi e eu no estava disposta a ver: uma pessoa
simplesmente incrvel.
      Hoje ela me chama de "chuchu", me faz companhia no meu
silncio, me enche de beijinhos, fala por mim, me defende, me
alimenta... cuida de mim 25 horas por dia. No existem
palavras no mundo que traduzam o que essa mulher representa
para mim. Somos mais que me e filha. Nosso grau de intimidade
 to grande que ela sabe que algo est errado comigo s de
bater o olho, e pergunta:
      - Tudo bem, Chuchu?
      Sobre minha me eu poderia escrever um livro todo, e nem
assim eu transmitiria a dimenso do nosso amor.
      Quando voltei para casa, eu me propunha a comer tudo o
que me viesse pela frente, principalmente as delcias que
mame fazia. Algumas coisas se tornaram difceis de engolir,
mas eu aprendi a evit-las com o tempo. Os remdios?
Definitivamente, foram um obstculo que superei com o passar
dos anos. Eu tomava quatro comprimidos fortes. Um pior que o
outro. Tinha at um que deixava a lngua dormente. Hoje tomo
trs, mais fracos.
      Uma vez, mame sugeriu que eu tentasse engolir os
comprimidos inteiros. Como no mexo a lngua, os remdios eram
colocados bem no fundo da boca, perto da garganta... Um gole
de gua e, um a um, engoli os quatro comprimidos. Foi assim, e
continuo a tomar remdio dessa forma at hoje. Frequentemente,
acontece de eu engasgar. At com saliva eu engasgo.  uma
coisa que geralmente ocorre com lquidos. J reparei que no
posso inspirar quando estou engolindo gua, leite, suco,
sopa... Mas no consigo prender a respirao, ento, uma
inspirao  inevitvel, engasgo e vem um acesso de tosse. At
j esqueci o que  beber sem tossir.
      Viu como estou diferente? Em mutao, minha querida
amiga...

Dia 19 de outubro de 1996

Oi (apenas oi).

Nos primeiros meses da minha volta do hospital, minha casa
ainda ficava cheia de gente. Muitos queriam me ver, por
mrbida curiosidade; j os mais chegados pareciam querer me
impedir de tomar contacto com minha nova realidade, me poupar
de sofrimentos talvez. Vizinhos, parentes, Clber, amigos da
Colgate, Pat, amigos do meu irmo, do Cristian, Hricles,
Lucas, colegas de faculdade... Tanta gente! Pessoas que at me
deixaram surpresa com sua presena. E eu repetia comigo mesma:
      " incrvel como notcia ruim se espalha."
      Walter foi uma das pessoas que me surpreendeu com sua
visita. Foi meu namorado quando eu tinha 14 anos e se tornou
inesquecvel.

     O Walter (um carinha de 17 anos, musculoso, de So Jos
dos Campos, que a Vernica estava paquerando) comeou a danar
com uma garota no baile, e, quando dei por mim, estava morta
de cimes.
      Depois ele veio e tirou a Vernica para danar. Mal
consegui disfarar minha inveja.
      Daqui apouco, l veio ele e finalmente me tirou para
danar - Danar msica lenta com o Walter  ptimo. Ele 
superatraente. Abraa com um jeito confortabilssimo...
flutuei nas nuvens e quase desmaiei. Depois que paramos de
danar, ele me olhou e falou que eu era a garota que melhor
danava.
      Acho que estou gostando do Walter.  isso a. No sei
como.
      
      A Vernica j foi embora, mas antes que deixasse o chal
falei que estava gostando do paquera dela e... Tudo bem, ela
me deu a maior fora.
      Fui alguns dias para So Paulo e senti muita falta do
Walter. Voltei hoje para Caragu. Acabei de v-lo: lindo,
atraente... S que ele est namorando. Mas o namoro dele vai
mais ou menos. Tenho muitas chances.
      O olhar dele  um mel lindo, e ele  o dobro. J faz um
ms que ele me deu a sua correntinha. Eu no tiro de jeito
nenhum. Se um dia ele me pedir em namoro, eu aceito correndo.
      O Ano Novo foi lindo. Fomos eu e a turma toda para a
praia. O Walter foi sem a namorada e jogou champanhe em mim.
Encontrei um carinha de 20 anos, que me pediu em namoro, mas
eu dei o maior fora nele. Eu gosto do Walter.
      Ontem  noite eu estava vindo para casa sozinha com
Walter, conversando. Na conversa, eu perguntei de quem ele
gostava, pois ele no est mais namorando. Lgico que foi uma
indirecta que deu certo. Ele olhou para mim e disse:
      - Luciana, sua bobinha.
      Paramos no meio do caminho e nos beijamos. Ai, ai...
      Ele hoje apareceu de manh, para irmos  praia. De
tarde, para irmos jogar vlei com a turma. E, daqui apouco,
vem me buscar para irmos aos prdios, onde est o pessoal.
      Ficamos juntos, conversamos, nos beijamos e nos
abraamos. O Walter  uma gracinha; eu adoro ele e ele diz que
me adora. Acredito nisso.
      
      Esses namoros adolescentes so a melhor coisa do mundo!
Tudo to simples, um mundo to assentado nas nuvens... Creio
que brigamos s uma vez. As brigas eram sempre bobas, to
inocentes quanto os namoros dessa idade. Um dia,  tarde,
fomos todos a um jogo de vlei. Walter sempre jogava, mas,
como eu no gostava, ficava s assistindo. Binho, um amigo
nosso, ficou ao meu lado na plateia, conversando comigo, e
Walter ficou morto de cimes.
      Fui embora antes de o jogo acabar e,  noite, fui at o
chal dele, pois a gente ia telefonar para a Vernica. Era
aniversrio dela. Mal chego l, encontro um amigo do Walter.
Ao cumpriment-lo, Walter sai do chal e me v conversando com
seu amigo. Ele ficou furioso e nem me disse um simples oi.
Depois de telefonarmos, fomos para a praia, onde o pessoal
fazia fogueira e tocava violo. Ficamos um tempo em p. At
que perguntei:
      - Walter, eu te fiz alguma coisa?
      - No!
      E de novo o silncio. Ele se sentou, e eu chorei de
raiva.
 Quando ele percebeu, me puxou e comeou a afagar meus
cabelos. Eu encostei no brao dele e chorei mais ainda. Ele
comeou a explicar seus motivos.
      Depois de tudo dito, nos abraamos e uma emoo
superforte me invadiu. Ele disse que me amava. Ns nos
beijamos, e uma linda Lua reflectia um mar de prata. No final,
no passamos mais do que cinco minutos brigados. Fazer as
pazes foi uma prova do afecto que temos um pelo outro.
      S sei que quando esse meu namoro acabar, devido 
distncia, vou sempre me lembrar de uma das fases mais
gostosas da minha vida.
      
      Foi um namoro de vero, de vero adolescente, com Sol,
com estrelas, com beijos e afagos, com gosto de cu e de
sal... Um cu azul, sem nuvens pra gente se preocupar.
      Azul.... Lembro-me de que Lucas me pediu um dia a pedra
que havia me dado, romanticamente, num Dia dos Namorados. No
Dia dos Namorados de 1991, eu queria dar o mundo de presente
para Lucas. Em vez disso, dei uma camisa de seda e um jeans de
marca. Samos e, na "nossa casinha", trocamos os presentes.
Primeiro ele me deu um papel com a frase de uma cano em
ingls:
      - Espero que voc no se incomode de eu pr em palavras
quo maravilhosa  a vida se voc est no mundo.
      Chorei ao ler.... Depois ele me deu um topzio azul, da
cor dos olhos dele. No tinha muita utilidade, mas, apaixonada
como estava, achava tudo o mximo. H dois meses, ele pediu a
pedra de volta, dizendo que ia mandar fazer uma gargantilha
com ela. E fez, O colar, realmente,  uma bonita jia, e numa
data mais importante eu o coloco. Recebi educadamente o
cordo. Mas que valor ele adquiria perto do que eu tinha,
durante anos, esperado? Quase nenhum. Desde que ganhei a
pedra, esperei, ansiosamente, v-la transformada pelo Lucas,
numa gargantilha. Esse gesto afectuoso nunca veio. Se eu no
tivesse tido o AVC, certamente nunca o teria ganho.
Representava um prmio de consolao, no o amor que esperei
tanto tempo. Seria melhor no t-lo.
      Nunca expus minhas idias, meus sentimentos reais...
Hoje percebo como deixei passar coisas, driblei sentimentos e
emoes, evitei deparar com mgoas e dissabores. No mundo que
a gente vive, parece que todos so assim. Nada fica muito
claro, tudo pode ser adiado...
      No fundo, bem no fundinho mesmo, durante todo o tempo em
que convivi com Lucas, eu poderia ter desconfiado que existia
algo de errado nesse relacionamento, que minha famlia tinha
razo, que eu estava dando muito mais amor que recebendo.
Quero hoje acreditar que em algum lugar do meu ser habitava
essa desconfiana, mas eu nem pensava nisso, nem poderia
imaginar algum tipo de desigualdade em nossos laos afectivos.
Eu no queria imaginar. E se eu sabia disso... eu no queria
admitir.
      Com muita coisa na vida, a gente age assim. Como se
estivssemos nos defendendo de ns mesmos, dos nossos prprios
pensamentos. Somos capazes de convivermos anos e anos com uma
pessoa qualquer e deixar nos enganar por aparncias, palavras,
gestos. Ns nos iludimos, nos machucamos; mas algumas vezes
podemos evitar isso. Deveramos mergulhar profundamente no
mago do outro ser. Seja ele um namorado, um marido, uma
amiga, um colega, sei l... Isso nos pouparia decepes,
muitas vezes dolorosas.
      Eu nem sempre pensei assim e vejo que  absolutamente
verdadeira e sbia a conhecida frase: "O essencial  invisvel
aos olhos,  preciso buscar com o corao". Hoje me olho no
espelho, lembro-me de como as pessoas se encantavam pelo o que
eu demonstrava ser e tenho certeza de que essa casca que
ostentamos no passa disto: uma casca frgil, uma folha seca
que pode se despedaar.  preciso ir alm. Observando mais
atentamente as pessoas, procuro ir mais profundo que as
aparncias e reflicto muito sobre todos que se aproximam de
mim. Eu nem sempre reflectia, ia deixando a vida seguir seu
fluxo e no me preocupava se eu estava me iludindo ou no, se
eu estava me mascarando ou no para os outros.
      Quantas decepes, quanta dor teria sido evitada. No me
refiro apenas ao Lucas, mas quantas vezes deixamos de olhar o
outro, quantas vezes nos enganamos com o prximo e pensamos:
"Que decepo! Fulano se revelou uma pessoa que eu no
conhecia!".
      Quem sou eu para dizer como evitar isso? Hoje, apenas
uma essncia, porque a casca se foi, se desmanchou no ar...
Mas tenho certeza de que a alma  mais verdadeira que as
imagens que carregamos, que as atitudes so mais sinceras que
as palavras, muitas vezes enganosas. A reflexo nos leva ao
caminho da autenticidade.
      Se falo assim,  porque s com este livro tive a
oportunidade de mostrar tudo o que fui obrigada a calar, mas
no a pensar. Eu me sinto falando o que, por anos, carreguei
entalado na garganta. Essa  tambm a minha voz do passado.
Enfim, e a que preo, minha verdadeira voz  quem fala.
Porque, se o corpo est mudo, as palavras no esto.  por
isso que acredito que elas se faro ouvir. Como o "obrigada ",
que ultrapassou o AVC, saiu pela boca afora e ecoou no ar.

Dia 20 de outubro de 1996

Boa tarde, Juju!

Durante algum tempo tomei conscincia de que todo o caos
instalado na minha famlia, aparentemente, s tinha uma
culpada: eu. Criou-se ento uma situao antiptica muito
subtil. Se era difcil para a famlia aceitar uma gravidez
indesejada, ca numa situao muito pior. Eu fumava e tomava
plulas escondida dos meus pais. Vida dupla? Talvez. Mas no
vejo como tal. S sei que tive uma convulso e fui parar num
hospital. Pronto, todo o meu esquema de mentiras foi por gua
abaixo, e meus pais descobriram tudo na minha bolsa.
      Sempre fui firme nas decises. Sempre confiei em mim. 
exactamente por isso que me pergunto por que no confiei mais
em meus conhecimentos de farmacutica. Sinto-me ainda culpada
por isso. Todo o mundo vivia repetindo:
      - No tome medicamento sem antes consultar um mdico.
      Como farmacutica, sei que essa frase  verdadeira;
tambm, como uma pessoa instruda, eu sabia disso.  claro que
sabia tambm que h mdicos e mdicos. O cigarro e a plula
anticoncepcional, juntos, provocaram a trombose, e nem por
meio segundo fui alertada. Devia ter confiado menos na mdica
e mais em mim.
      Qudruplo azar: muda, tetraplgica, desmascarada e ainda
carrego o peso de saber que foi a plula um dos fortes
factores do meu acidente. Tem gente que diz que  o nico.
      Comecei a pensar... De facto. desestruturei minha
famlia, o que j foi um enorme castigo. Faz parte do meu
carcter pensar muito no meu pai, na minha me e no meu irmo,
e no ter, absolutamente, nenhum apego ao dinheiro. No sou
uma superfilha, mas sou do tipo mo-aberta. Acho que o
dinheiro s possui uma finalidade: gastar.
      Quando me vi trabalhando na Colgate, por exemplo, me dei
por satisfeita. Comprei poucas coisas, mas tudo que o dinheiro
permitia. Doces, compras de supermercado, consultas mdicas,
remdios, frutas, pagava algumas contas da casa... esses
pequenos agradinhos que fazem nosso dia-a-dia mais gostoso.
Estava pensando em pagar um plano de sade para meus pais. As
coisas estavam assim, quando tive a trombose.
      Depois que sa do hospital, pensava nos agrados que
costumava fazer, mas me dei conta de que no tinha mais
dinheiro, no trabalhava. E no era s isso. E as enormes
despesas que eu dava?
      E dou? E o sustento da casa? Tudo nas costas de um homem
com problemas cardacos e com mais de 60 anos. E eu inerte.
Quer prejuzo maior que minha sade, que era to perfeita? E o
trabalho que dou, tendo, muitas vezes que ser carregada pelos
meus prprios pais? E que moral tenho hoje com eles, aps
descobrirem que eu tomava plulas e depois de ter tido um AVC?
      Quando vejo meu pai, hoje tambm meu curador, tenho
vontade muitas vezes de falar em alto e bom som:
      - Te amo, meu doce pai italiano!
      Eu era a "queridinha do papai", como as filhas
geralmente so. Ele morria de zelo ou cimes, sei l. Mas
consigo fechar os olhos e v-lo como antigamente, me olhando
feio se eu me demorava ao telefone com algum rapaz, se eu
chegava tarde, se eu bebia alm da conta. E hoje tenho,
claramente, a certeza de que aquelas broncas e repreenses
eram manifestao de sua vontade de querer algo melhor para
mim.
      Lembro-me que chegava de madrugada, rezando para que
ningum estivesse acordado. Antes de entrar na sala, eu olhava
a janela e no via luz, ento eu abria a porta e... L estava
ele, na poltrona, sentado, me esperando! Como um co de
guarda, vendo a que horas eu chegava, com quem, como...
      Outras vezes eu entrava na sala e no via ningum. Ento
eu tirava os sapatos e subia para o meu quarto no escuro.
Quando eu chegava no topo da escada, escutava:
      - Luciana?
      Agora, quantas vezes ouo meu pai dizer:
      - Devia ter repreendido mais, ter sido mais enrgico,
enquanto era tempo.
      Ser verdade? Seria possvel mais zelo e cuidado? Mais
repreenso evitaria o AVC? Ningum nunca ter essa resposta...
Meu pai foi perfeito, mas acho hoje que ele sofre duplamente:
por me ver assim e por se culpar por no ter evitado.
      Com o AVC minha vida se quebrou em duas, e todos que me
cercam viraram dois: um antes AVC e um ps. Ningum, sem
excepo, se comporta igual, e meu pai no foge  regra. No
sou mais aquela menina, a sua menina, geniosa, teimosa, que a
todo o instante precisava de um freio; mas vou ser sempre uma
menina, que precisa muito mais dele agora, e ele sabe disso.
      Meu pai me ajuda como pode e durmo toda noite feliz por
estar sempre junto a mim e sossegada por ter o melhor curador
do mundo.
      Se todo o esforo que vocs, meus pais, fizeram foi em
vo, lamento profundamente. Mas, acreditem, a maior
prejudicada fui eu mesma. Tudo isso devo, em grande parte, 
Gilda, que nem soube, ou no quis exercer direito sua
profisso. Concordo. Como ela poderia imaginar que isso
aconteceria comigo? Mas no posso perdo-la por no ter me
alertado do risco de uma trombose cerebral. Um AVC no 
bobagem, no. Por muito pouco no perdi a vida e agora no
consigo nem assoprar uma vela. A Gilda continua ganhando
dinheiro e pondo outros pacientes em risco. No me sai da
cabea o seu comentrio na UTI, ao lado dos neurologistas:
      - Mas isso  raro!
      Raro, sim, mas plenamente possvel e verdadeiro. Eu tive
minha vida, meu bem mais precioso, destruda.  isso que
chamam de justia? Ter chegado a essas concluses diminui meu
sentimento de culpa e tambm me d a certeza de que fiz o que
era possvel, alm de mostrar que agi dentro do bom senso. No
tomei medicamento sem conselho mdico.
      E a resposta a tudo isso foi s uma: amor... E isso me
fez sentir mais culpada.
      Meus pais e meu irmo me cobrem de carinhos. Antigamente
me sentia pssima. Eu mesma, sozinha, reflecti muito sobre o
assunto e me libertei da culpa, mas no totalmente. Acho que
tenho minha parcela de culpa, mas quantas jovens tomam plulas
e fumam sem os pais saberem?
      Erro mdico, sim. Mas um erro mdico subtil, de
diagnstico. Primeiro por ter me dado plulas de "terceira
gerao", sendo que eu fumava... e a Gilda sabia disso.
Segundo, por no ter me alertado para o risco de um AVC... e
ele veio rpido. Terceiro, porque, mesmo com queixas de dores
de cabea, ela no me alertou para o facto de que eu fazia
parte de um grupo de risco e poderia vir a ter uma trombose.
Esses erros so imperdoveis, apesar de menos grosseiros que
uma anestesia mal aplicada.
      Outro mdico errou. O do Pronto-Socorro Municipal de
Santana, o primeiro hospital para onde fui levada, ainda
consciente mas em convulso. Em vez de terem me encaminhado
sozinha com meu pai na ambulncia ao Santa Izabel, deviam ter
corrido comigo para o Einstein, onde eu teria sido entubada,
salvando meu crebro de leses mais graves. Ouvi tambm de um
novo neurologista que minhas sequelas poderiam ter sido bem
menores se tivessem usado um anticoagulante at cinco dias
aps a convulso. Stphanie depois confirmou e disse:
      - At eu, auxiliar de enfermagem, sei isso. Os mdicos
no sabiam?
      Prefiro crer que no.
      Hoje sou a expresso de vrios erros, os meus prprios e
os dos mdicos. No entanto, sirvo ao menos de alerta para os
milhares de jovens mulheres que se encontram nas minhas
condies anteriores.

Dia 22 de outubro de 1996

Juliana,

      Em casa, logo me dei conta de que estava vivendo minha
tragdia pessoal. Nunca mais iria ver a imagem que o espelho
disse, por 22 anos, que era a minha. Nunca mais iria danar
alegremente. Comecei a pensar e vi que tinha um monte de
verbos que me deram adeus: nadar, dirigir, paquerar, transar,
beijar, trabalhar, falar, andar, cantar...
      Ca em desespero. No em um momento de desespero. No em
um desespero do qual se entra e sai. No desespero em que vivo.
Pior ainda. Ele vive em mim. S em sonho me vejo rindo,
falando e andando como eu era. Descobri um infinito prazer em
dormir; durmo o mximo que posso. Enquanto estou dormindo,
estou feliz.
       trgico acordar e voltar  dura realidade. No comeo,
eu acordava e pensava:
      "Ser que estou mesmo tetraplgica e muda?"
      Ento eu tentava me levantar da cama. Intil! Hoje no
tento mais, mas me pergunto:
      "No ter sido traio de mais do destino?"
      Durante um longo perodo, um mau humor tomou conta de
mim, principalmente quando acordava. Um novo dia nascia,
contrariando minha vontade, mostrando que a vida continuava, e
com ela minha esperana em dias melhores. Demorei muito a
aceitar isso. Durante muito tempo me zanguei ao ver o Sol
brilhar teimosamente todas as manhs. Hoje no me zango mais.
      Quando tentava driblar meu desespero, eu ainda namorava
Cristian, apesar de achar que no estava mais aos ps dos
carinhos dele. Lamentava e lamento infinitamente a hora em que
ele se despediu de mim e foi viajar. Uma outra mulher estaria
esperando por ele. Ele voltou e encontrou uma jovem careca, de
fraldas, tetra, sem vida social e sem fala. Eu me perguntava
quanto tempo levaria para ele se dar conta de que a mulher que
estava naquela cama no era a mesma que um dia fez amor com
ele.
      Pensando na minha situao, achava que tinha direito a
um pouco de felicidade e certamente eu era feliz com Cristian.
Lgico que estava brava com a vida, por me ter me tornado uma
tetraplgica, mas esquecia tudo ao lado dele. Cristian
representava muita coisa: era meu ltimo elo forte com a vida
de antes. Ele me dava uma tremenda vontade de melhorar, pois
eu achava um absurdo ter um namorado e nem poder abra-lo.
Isso me impedia de cair em depresso, pois, apesar de estar
totalmente modificada, ainda tinha um relacionamento
satisfatrio. Era minha ltima e derradeira esperana de fazer
minha vida um pouquinho parecida com o que eu sonhei durante
anos. Um elo de amor, pois aquele jovem bonito realmente
gostou de mim. No o suficiente, para lidar com todas as
limitaes que eu agora possua. Mas no o culpo. Como eu, ele
gostava mais de si mesmo.
      Durante um breve perodo fui feliz nesse sentido. Eu
amava e era amada. Meus olhos brilhavam quando ele vinha me
ver, no cabia em mim de felicidade. Feliz? Cristian  minha
ltima lembrana dessa sensao de felicidade.
       verdade, eu gostava mais do Cristian estando
tetraplgica. Ele era a luz no meu sombrio destino. Eu j
estava me envolvendo antes de ele sair de frias. Mas o
destino no esperou. Deixou-me muda, sem cabelos, com fraldas,
sem movimentos, sem vida social e completamente apaixonada.
      Quando meus pais souberam que eu ia permanecer
tetraplgica, disseram ao Cristian:
      -   Afaste-se. Essa dor  nossa.
      Ele no quis, mas isso no tardaria a acontecer. S
lamento o modo como acabou o nosso namoro.
      Cristian vinha me ver s segundas. Se antes eu era
programa de sbado  noite, agora meu namorado me reservava as
segundas. Logo de incio, aprendi a ser tolerante e
agradecida. Alis, uma coisa no posso negar: ficar como estou
trouxe-me um grande crescimento interior. Se era briguenta,
ftil e esnobe, ganhei doses de tolerncia, pacincia,
humildade e resignao. Passo meses comigo mesma e vi que
aprendo muito em observar. E como dizem: "A palavra  de
prata, e o silncio, de ouro
      Apesar desse crescimento interior, frequentemente sou
confundida com uma louca, retardada mental, ou analfabeta. J
me perguntaram o que  uma alface, quanto era dois mais dois,
se eu sabia quem era meu pai, onde estavam o teto e o cho, se
uma bola verde era vermelha... E, como eu carrego uma
cartolina com letras para me comunicar,  comum algum
indagar:
      -   Como ? Est aprendendo as letras do alfabeto?
      A Luciana de antigamente diria o que eu at chego a
pensar:
      -   No, seu burro! Isso  um mtodo de comunicao!
      Mas, lenta e pacientemente, acabo escrevendo: 
      S-O-U AL-F-A-B-E-T-I-Z-A-D-A E A-T- F-O-R-M-A-D-A.
      Eu no escondia do Lucas que estava apaixonada pelo
Cristian. Minha vida agora era s verdade. Pus uma foto do
Cristian num porta-retractos e deixava-a em exposio, com
orgulho, coisa que nunca fiz com as fotos do Lucas.
      Um dia fomos para a praia. Ficamos no chal oferecido
pelo marido da Gracita. Eu, papai, mame, a inesquecvel Bia,
Cristian e Hricles. Foi a que me dei conta de que, por mais
fora que fizesse, o meu mundo era outro: o triste mundo dos
deficientes.
      Cristian dirigia, cantava e punha a mo na minha coxa. E
eu ia, inerte, do seu lado. Bia ia atrs segurando minha
cabea! Meus amigos jogavam, bebiam, fumavam e riam. Eu, do
lado de uma mesa, na cadeira de rodas e de fraldas, estava
mais preocupada com meus engasgos com a saliva do que com a
conversa deles. Na praia, eles exibiam sade, e eu,
cicatrizes. Aos poucos, tomei conscincia do abismo que nos
dividia.
      Eu j havia tido um sinal de alerta de que deveria me
afastar de Cristian ainda no hospital. O sinal veio claro pela
me de Cristian, que sempre foi encantadora comigo. Mais que
isso, ela no poupava elogios quando falava comigo. S que ela
morreu para mim quando fiquei doente. Como muitas pessoas,
nunca se interessou por mim de verdade, pelo meu interior, que
 a nica coisa que continua exactamente igual ou, diria eu,
muito melhor que antes. Quando ca doente, ela chegou ao
Hospital Einstein antes da minha famlia; mas, percebendo o
estrago que a trombose deixara, foi bastante esperta para
nunca me visitar em casa. Sei, por instinto, que ela se
esforou, depois do AVC, para manter Cristian longe de mim. O
que iria inevitavelmente acontecer, mais cedo ou mais tarde.
       incrvel o que uma trombose cerebral faz... hoje no
temos nenhum contacto. Descobri que muitas pessoas no fazem
seno passar por nossas vidas. Agora, que vivo parada, 
possvel v-las passando.
      Mais de dois anos depois, quase no recebo visitas,
excepto das raras pessoas que gostam de mim de verdade. Essas
se demoram mais. No comeo, minha casa era cheia de gente,
depois se esvaziou e as visitas se restringiram aos finais de
semana. Actualmente, passo muitos fins de semana s, a
escrever...
      Como agora no sou atraente, no falo e estou
completamente indefesa,  normal deparar com gente de quem no
gosto. Gente que se aproxima mais por curiosidade e certamente
pensa: Bem feito!". Foi assim com gente da faculdade que veio
me ver, com minhas primas que morriam de inveja de mim, com a
Poliana, que agora se faz de amiguinha, e at com gente do
colgio. Foi preciso eu desenvolver muito "sangue de barata".
Essas pessoas matam a curiosidade e raramente voltam.
      Eugnia  um caso  parte. Hoje no tenho palavras para
agradecer tanto aconchego. Gosto muito dela.
      Caio foi muitas vezes ao hospital, era carinhoso comigo
e at fez uma campanha, para arrecadar fundos para meu
tratamento. Acho que ele esperava um milagre, como ainda
espero. Em setembro de 94, vendo que isso no ia acontecer,
ele s queria uma desculpa para cair fora. E dei essa
desculpa. Eu estava namorando Caio e Cristian, mas namorar
dois era muita pretenso na minha situao. Um j era de mais.
Sem querer, um dia mame comentou do meu namoro com Cristian,
e isso foi mais que suficiente para Caio se distanciar. Para
ele, esse romance, meu e do Cristian, tinha acabado no
Carnaval... Tinha acabado no momento em que ficamos enrolados
no Carnaval...
      Caio foi se distanciando pouco a pouco, e assim acabou
nosso romance. Ningum nunca tocou no assunto. E acabou sem
explicaes. De vez em quando, ele vem me ver. Mais por
obrigao que por afecto. Acho que ele procurou a Eugnia, que
parece que gosta muito dele. A partir da eles recomearam o
estranho relacionamento que sempre tiveram, que no  amizade
nem namoro. Alis, a se ver pelo nosso, a vida de Caio  feita
de estranhos relacionamentos! Eugnia  uma "amiga"
inseparvel do Caio. Antes eu jurava que era s amizade, mas
hoje tenho certeza de que "existe mais coisas entre o cu e a
terra do que sonha nossa v filosofia". 
      Eugnia  moderna e simptica, tem um corpo super
bem-feitinho, um sorriso superbranco, que se destaca no seu
corpo negro. E acho que ela  apaixonadssima pelo Caio. Ela
, hoje, uma das poucas pessoas com quem posso contar. Entendo
que ela deve lamentar meu azar. Mais que isso, vejo que ela
chega a se imaginar na minha situao. Suas visitas so
frequentes, o que actualmente muito me comove, pois  difcil
ter amigos fiis depois de um AVC.
      Ela me ensinou a lidar com o preconceito. Ela, porque 
negra, e eu, porque ando de cadeira de rodas. E pensar que eu
andava por a de "nariz empinado"... Alis, me espantei ao ver
que despertava preconceito e pensei:
      "Como  que  essa histria?! Agora as pessoas evitam
minha presena?!"
      Era exactamente isso, uma situao nova para mim. As
pessoas tm realmente muitos preconceitos, por cor, raa,
deficincia... Tudo muito enrustido, mas tm.
      Quando sa do hospital e fui para casa, no estava
consciente do estrago que a trombose cerebral tinha provocado.
A verdade era que eu, se antes era um perigo, cercada de
homens, agora nem uma mosquinha me temia.
      Em geral, aprecio suas visitas, menos as inmeras vezes
em que ela aparece com Caio a tiracolo, o que me d mais
depresso do que a trombose j por si s me legou, se  que
isso  possvel.  que, quando Eugnia aparece junto com Caio,
 como se eu no fosse mais mulher. Se voc entender como
"mulher" no um ser humano s do sexo feminino, mas algum que
tem um homem,  vaidosa, falante, faz charminho, l revistas
femininas,  independente, ou pelo menos tenta ser, e tantas
outras coisas. E, no sou mesmo... mas no gosto de me lembrar
disso.
       assim. Quando no se fala, perde-se a personalidade.
Quanta gente que no era querida veio me ver...
      Um que se tornou muito prximo foi Hricles. Esse
japons bonito no escondia, em outras pocas, sua atraco
por mim. Agora, ele no vai alm de um ptimo, excelente
amigo. Na verdade,  o que ele sempre foi. Hricles foi
essencial para a minha adaptao, para eu me acostumar a viver
assim. Primeiro, ele me trouxe do hospital. Tambm foi o
primeiro a me levar ao shopping, ao cinema, ao teatro. Fomos
ver um show. Levou-me  praia,  piscina. Comemos um pedao de
pizza, um sunday, e at um pouco de churrasco...
      Ele e Ane Marie - que no me inspira nenhuma simpatia -
namoraram contra a vontade da me dela durante anos. Como voc
deve se lembrar, quando a me resolveu no mais colocar
empecilhos logo o namoro acabou. Ela veio me ver em casa, uma
nica vez... depois no voltou mais.
      No se pode negar que eu e Hricles daramos uma linda
histria de amor: A tetraplgica e seu fiel apaixonado ou O
amor que sobreviveu a uma tragdia. Mas a realidade  to
diferente... Primeiro, porque a palavra namoro saiu do meu
dicionrio quando Cristian saiu da minha vida. Saram o verbo
e o substantivo. Segundo, porque entre mim e Hricles existe
algo mais forte que muitos namoros: uma intensa e slida
amizade.
      Hricles arrumou, recentemente, uma namorada e
transformou as visitas semanais em mensais, por enquanto...
Faz meses que me promete um cinema ou um passeio. Ele ainda me
faz grandes favores. De todo o modo, j vi muitos romances
dele acabarem...
      
      Conheci um garoto que est na minha classe, e ficamos
muito amigos. O nome dele  Hricles, e  o japons mais lindo
e inteligente que j vi.
      Bem, na festa. Hricles me chamou para danar. Disse que
gostava de mim e que queria namorar comigo. Eu olhei para meu
grande amigo e disse que ia fazer de conta que ele no me
havia dito nada.
      
      Hricles  um barato! No  nada absurdo agente trocar
presente no Dia dos Namorados assim como trocamos no Natal
Batemos um papo como sempre. Uma relao muito amiga. Pouca
gente entende, v s amor, e no amizade. Para o inferno com
elas! Poderia escrever muitas pginas sobre o Hricles, mas
no precisa. Entre a gente, tudo  assim...
      
      Mas eu no entendo. Ao mesmo tempo em que ele,
espectacularmente, conserta meu computador sem cobrar
absolutamente nada, pergunta:
      - Quer sair amanh?
      Fao que sim com a cabea.
      - Ento eu telefono amanh.
      E no liga. No passa aqui. No d satisfao. V l se
algum marcava um compromisso comigo, antes do AVC, e no me
dava satisfao. O que mudou? A verdade  que perdi a beleza,
a sade, a fala... e tambm o respeito.
      No  s o Hricles. Ca num esquecimento total. Dos
amigos que eu tinha, uns poucos vm, de vez em quando, me ver.
Sair comigo? Raras vezes. Caso algum no queira ir, ou mude
de idia depois de combinar tudo, no recebo explicao. Acho
que aprendi errado. Eu jurava que  nas horas de dificuldade
que vemos os verdadeiros amigos. Bom, das duas, uma: ou eu no
tinha amigos verdadeiros, ou uma trombose  uma prova dura
demais para qualquer amizade. Se voc jura para si mesma que,
por ser bonita, socivel, namoradeira, simptica, cheia de
amigos, nunca ficar sozinha,  bom saber que existem acasos
capazes de determinar uma solido inesperada e, junto com ela,
muita decepo.
      Sobrou muito pouca gente que ainda se lembra de mim.
      Jnior tambm veio me ver durante muito tempo,
semanalmente. S no vem agora, porque est sem carro. Espero
que ele no termine como os demais, que vieram, vieram, vieram
me ver e depois foram deixando de vir. Cansaram... e seguiram
suas vidas normalmente, como se eu nunca tivesse participado
delas.
      Penso que qualquer um na minha situao se sentiria como
me sinto: abandonada. No esqueo fcil que os amigos, outrora
to queridos, somem durante meses, at mesmo anos. De repente
aparecem, e me cobrem de beijinhos e presentes, e voltam a
desaparecer.  difcil aceitar essas ausncias pacificamente,
como se no representassem nada, como se no sentisse a falta
dos amigos, como se eu tivesse outros compromissos que no o
de receb-los.
      Todos tm uma desculpa. O trabalho. O namorado. Os
estudos. Mas ningum assume que  s questo de prioridade.
Quando sa do hospital, eu era novidade: todos queriam ver a
amiga que ficou tetraplgica e muda. Dois anos depois,  comum
sumirem e reaparecerem, como se eu pudesse no sentir sua
ausncia, como se no morassem mais do lado esquerdo do peito.
Dentro do corao...
      Penso no Jnior. Trabalhando, estudando, sem carro,
casado, com trs filhos, mas no me esquece. E os velhos
amigos, aqueles amigos do para sempre, para o que der e vier?
Ocupados demais? E os que s vieram me ver uma ou duas vezes
assim que sa do hospital? E aqueles que nunca vieram? Amigos
das boas horas?
      Se eu tivesse outra rotina, com certeza sentiria menos
saudades. Mas, da maneira como vivo, meu nico convvio social
so as visitas que eles me fazem e que vo escasseando,
escasseando... Hoje estou quase s. Meu pai, minha fono, a me
da Bia, todos repetem que esse  o caminho natural da vida.
Que remdio, seno entender e aceitar?
      Duas vezes na semana, Marta - a japonesinha do Einstein
- vinha em casa me fazer fisioterapia. Eu no gostava e no
gosto de fsio, mas a necessidade ensinou-me a lev-la com
afinco.
      Aprendi, com a observao, que o lado esquerdo do meu
corpo era e  muito melhor que o lado direito. Enquanto mexo
facilmente a mo esquerda, por exemplo, fao uma fora danada
para mexer a mo direita... e no consigo.
      No inverno, eu tenho um p quente e outro frio.

Dia 26 de outubro de 1996

Ol, minha linda!

, o meu lado esquerdo tem muito mais movimento que o direito.
Tanto  assim que uso o brao esquerdo para quase tudo:
      comer, escrever, digitar, ver papis, pegar coisas,
mexer no cabelo, coar onde alcano, mexer em controles
remotos, tentar abraar... Quando cheguei do hospital, alm de
ter perdido a postura, no tinha nenhum movimento. Parecia uma
maria-mole, flcida, amorfa. Aos poucos, desenvolvi o lado
esquerdo, e eu no era canhota! O lado direito continua como
veio do Einstein, visivelmente inferior ao lado esquerdo.
      Agora entendo por que fazemos naturalmente muitos
movimentos com quase nenhum esforo. Um lado do meu corpo me
obedece bem mais que outro. Fao um esforo sobre-humano para
mexer o lado direito com muito menos resultado. Comparando as
duas metades do meu corpo, entendo o que me aconteceu, O meu
cerebelo esquerdo foi quase totalmente destrudo e, como a
informao  cruzada, o meu lado direito quase no se mexe.
      Isso pode se reflectir na minha face. O lado direito do
meu rosto no sorri, no chora, a lngua no mexe, a
sobrancelha no levanta... O lado esquerdo mexe mais, mas
muito pouco, quando comparado ao que era. Por exemplo, no dou
um sorriso voluntariamente. Se agora mesmo quiser dar um
sorriso, no consigo. Mas se algum entrar no quarto, e me
contar uma piada, vou sorrir espontaneamente. Por isso acho
que a trombose cerebral facilitou uma certa naturalidade. Nada
de sorrir para ser simptica, mesmo porque no consigo, s se
a pessoa realmente me agrada. Nesse aspecto, melhorei muito,
sou mais autntica e fiel a mim mesma... E aos outros tambm.
      Depois da desastrosa Celina, aquela que queria me
ensinar a "escrever", pegamos outra fono, a Rosa. Era uma
jovem senhora, muito religiosa e com quem eu me dava muito
bem. Gostei do trabalho dela porque reaprendi a fazer bolinhas
na gua com um canudo, apagar uma vela, mexer a lngua,
prender a respirao, exerccios que tinham realmente uma
funo. Ela passava um rolinho gelado no meu rosto e escovava
minha lngua, para "acordar" os msculos. Stphanie olhava
tudo atentamente e, de vez em quando, vestia a personalidade
de fonoaudiloga.
           As amigas mais presentes na minha nova vida eram a
Pat - apesar de morar longe - e a Bia. Na presena das duas,
eu ria, chorava, desabafava, falava do Cristian, vomitava,
tomava banho, comia... Tantas vezes chorei ao ver Bia arrumada
para sair, sentia saudades das nossas sadas. Ela me dizia
docemente:
      Voc ainda vai danar muito comigo...
           Ela no cansava de me dar palavras de optimismo.
Hoje sei que no vamos mais danar, porque ela no est mais
entre ns e porque j vou achar muito se conseguir dar uns
passos de muletas. Que dir danar...
           Descobri, no meio do caminho, quem me fez horas de
companhia: a TV. Durante meses, tive a TV como praticamente um
anestsico. Passava a maior parte do tempo deitadinha na minha
cama hospitalar, vendo programas. Todos. Dos mais inteis aos
raros que trazem algo de interessante. O que  lamentvel. Ver
uma pessoa to dinmica, parada. Isso foi muito comum at
Ncolas me dar um lap-top e eu comear a passar horas
escrevendo. Do Ncolas falo depois.
           Minha vida deu marcha  r. Mas isso  dizer pouco.
 algo diferente. Talvez seja mais parecido com a sensao de
estar quase ganhando o jogo e se ver obrigada a andar vrias
"casas" para trs. No cai na casa" do desemprego (fique duas
rodadas sem jogar), nem na casa de uma reprovao (volte 5
casas). No! A casa do AVC elimina voc do jogo. O resultado
da jogada determina se voc pode comear de novo ou no, mas
no h garantia nenhuma. Na verdade, voltei a entrar no jogo.
Jogada nele, como um beb quando vem ao mundo. Com uma
diferena crucial: no sou uma criana. No existe a
expectativa de sentar-me aos seis meses, andar com um ano,
falar, correr, etc. Este comeo  outro.
           Lutava para conseguir escrever de novo, o que s
aconteceu em meados de 1995. Toda manh, eu acordava cedinho
e, enquanto esperava Stphanie chegar, fazia uns exerccios de
caligrafia, conseguidos por mame com uma amiga do Nordeste:
           Margarida, que me ajudou muito. Nessa poca,
Andresa me deu uma caneta com meu nome. Eu olhava aquele
objecto to familiar, pensava na incrvel distncia que nos
separava e repetia para mim mesma:
           "gua mole, em pedra dura, tanto bate at que
fura..."
           A pedra dura era o meu corpo, que havia
desaprendido a escrever. A gua mole era a minha vontade de
assinar meu nome, votar, estudar...
           No final de 94, houve eleies. Eu queria ter
votado, mas no conseguia nem fazer um X. Neste ano, houve
novas eleies. J consigo escrever, e nem precisava, pois o
voto foi electrnico, mas no votei. De 94 at hoje aprendi a
ver alguns problemas que no via. Voto num colgio cheio de
escadas. Isso nunca tinha sido empecilho, mas, quando se anda
de cadeira de rodas,  . Como no falo,  comum duvidarem da
minha inteligncia. E se no me deixassem votar? Vencidos
esses problemas, tinha mais um. Todo o mundo sabe que depois
que a gente vota assina o nome. Pois bem, s vezes, na hora em
que vou assinar meu nome, me d um espasmo superforte,
travam-se os movimentos, a letra fica ilegvel. O que eu ia
fazer depois de j ter votado?
           Denise  a telefonista da Colgate com quem eu me
dava bem na poca em que trabalhava l. Ela ainda vem me ver.
Logo que voltei para casa, ela veio com a famlia e trouxe um
rapaz. Era namorado da filha dela. Um rapaz jovem que tambm
teve problemas de movimento e de fala. Ele entrou na minha
casa andando, fortalecendo minhas esperanas de melhora. Hoje
tenho certeza de que minha leso cerebral foi muito maior que
a dele, O Zeca parecia absolutamente normal, menos quando
mostrava sua fala trpega. Quando o escutei falar, no pude
evitar um pensamento:
           "Vou falar assim?"
           Hoje eu ficaria muito feliz em simplesmente falar,
independentemente do jeito.

Dia 1 de novembro de 1996

Minha querida Ju,

      Apesar de ter me apegado muito  Marta e de ter
progredido muito, resolvemos trocar de fisioterapeuta. A Marta
era extremamente competente e carinhosa, mas era muito cara.
No comeo, minha famlia submeteu-se a tudo: enfermeiras
exploradoras, fisioterapeutas careiros, fonoaudilogos sem
utilidade... Mas, passado o choque de ter um acidente na
famlia, o bom senso volta, retomam-se "os ps no cho", e
colocam-se as despesas numa balana.
           Fui apresentada a um rapaz charmoso e simptico que
iria cuidar de mim. Paulinho era amigo de um amigo do
Cristian. Vinha no fim da tarde tratar de mim por uma hora e
foi o primeiro a levantar a hiptese:
           - Pode ser que ela volte a andar de bengalas.
           Achei que aquela idia era assustadora. Hoje,
aceito qualquer uma: muletas, bengalas, andador... Contanto
que eu consiga ir sozinha a um banheiro.
           Paulinho se deu bem comigo. Aprendi, ento, que 
necessrio uma relao de simpatia entre fisioterapeuta e
paciente. Tambm o ouvi dizer para meus pais que ia me deixar
90 por cento boa. Fortificaram-se as esperanas. Por isso eu
me aplicava bastante e achava Paulinho o mximo. No faltava
motivao.
           Pensando agora no Paulinho, eu o considero um
profissional medocre. Ele adorava estalar meus ossos.
Acontece que aprendi que um bom fisioterapeuta no provoca
estalos. Paulinho queria que eu movimentasse o lado direito do
meu corpo igual ao lado esquerdo. Como terapeuta, ele no viu
a brutal diferena que existia. Nem eu sabia... aprendi com a
observao. Pouco progredi em equilbrio e movimento. Noventa
por cento boa? Cinquenta estava bom...
           Ele falou em me fazer voltar a andar at o final de
1994. No foi em 94, nem em 95, e certamente no ser em 96.
Quem sabe em 97? Hoje acho que "o futuro a Deus pertence"....
Mesmo.
           O maior erro do Paulinho foi no uso do FES, em que
ele se dizia experiente. FES deve ser uma sigla em ingls para
estimulao elctrica, vulgo choque.  assim mesmo, parece
inacreditvel: voc paga para tomar choque! Com esse estmulo,
os msculos se mexem. Voc consegue andar, pedalar, enfim,
fazer o movimento que o fsio quiser. At comprei um FES
pequenino. Era um aparelho com elctrodos, que so grudados na
pele, e com um boto que regula a intensidade da estimulao
elctrica.
           Todo mundo sabe que choque di. Principalmente para
quem tem a sensibilidade normal, como  meu caso. Paulinho
colocava aquele botozinho no mximo... A finalidade do FES 
"ensinar" o crebro, atravs de estmulos elctricos, a
realizar movimentos perdidos. Grosso modo,  isso. Mas o
objectivo do FES no  provocar dor. E eu as sentia. Mais
tarde, comecei a fazer fisioterapia fora de casa, onde
Paulinho tinha uma clnica. L havia um aparelho com
elctrodos que produziam choques fortssimos. Eu apertava
forte a mo da minha me e ia sofrendo dores fortes. Um nico
pensamento fazia-me suportar tudo:
           "Se esses choques me deixarem boa, tudo bem."
           No deixaram. S me transmitiram um grande trauma
quanto  estimulao elctrica. Basta ouvir a palavra
"choque", para eu sentir dor. Continuei com esse tratamento
sdico at que conheci a Fundao Selma, onde estou at hoje.
           Foi o simptico namorado da Priscila quem indicou a
Fundao. Ele contou que era uma clnica de fisioterapia para
deficientes. L se tratava de todo o tipo de acidentes: tiros,
mergulhos, atropelamentos, derrames...
           A Ceclia era uma garota que teve algum tipo de
acidente e ficou paraltica. Por ser filha de um rico
empresrio, teve uma clnica montada s para ela. Comecei a
fazer fisioterapia na Fundao Selma e dei adeus ao Paulinho.
           Durante muito tempo, tratei essa clnica como "A
casa dos monstros". Eu me inclua entre eles,  claro. E 
realmente um horror... cada caso!
           Tem o Lus. Ele deve ter uns 22 anos. Devia ser um
jovem interessante, levando-se em conta como esses acidentes
nos transformam... Lus  a vtima de um racha desastroso. Ele
treme muito, no anda, no fala e eu, sinceramente, no sei
at onde vai a conscincia dele. Como eu, ou pior, vive
babando. Usa sonda e  branco como papel, pois dizem que a me
tem vergonha de sair com ele!  s pele e osso e carrega uma
cicatriz de traqueostomia, como a minha. Consigo ficar horas
olhando para ele, tentando adivinhar se sabe o que se passa
com ele. Lus no cumprimenta ningum, olha o nada e vive
mordendo a prpria mo. Quem ser que sofre mais: eu,
consciente, ou ele, aparentemente inconsciente?
     O Ricardo  muito novo. Sinto pena da juventude que ele
transmite. Tem s 16 anos e  completamente tetraplgico. Foi
s dar um mergulho em So Sebastio e ficou tetra. Perdeu
muito da sensibilidade, mas fala. Ele morre de frio e chega
todo "empacotado". O frio que sentimos, pois tambm sinto, 
pela falta de movimentos, mas o meu  suportvel. Ele vem todo
encapuzado, mas, mesmo assim, tremendo.
     O pior caso que vi at hoje  o de uma moa que devia ser
muito bonita e vaidosa. Deve ter uns 24 anos. Foi fazer uma
cirurgia plstica no nariz, teve uma complicao com a
anestesia e seu fim foi trgico. No sei exactamente o que
aconteceu, mas ela est inconsciente, sem movimentos, sem fala
e toda entronchada. Para se ter uma idia, ela pe os dois ps
num pedal da cadeira e as pernas adquirem a forma de
"tesoura".
           Recentemente, nas minhas idas  fisioterapia, tenho
encontrado Antnio. Dizem at que ele est namorando e que
est sempre viajando. Penso muito nele. Um tetraplgico que
praticamente no se mexe e usa a boca para fazer funcionar o
computador e guiar a cadeira de rodas. Falam que o caso dele 
pior que o meu mas, dependendo do ponto de vista, isso no 
verdade. O caso dele pode ser mais difcil de reabilitar que o
meu. Concordo. Mas a mgica da reabilitao, em ambos os
casos,  muito remota.
           Bom, uma vez que temos a vida toda pela frente, 
melhor estarmos adaptados. Por um lado, ele sai ganhando: faz
amigos, fala ao telefone, d ordens, tem emprego,  presidente
de uma associao.  mais fcil quando se pode falar. Garanto
que ningum vai test-lo perguntando quanto  dois mais dois.
Por outro lado, tenho uma grande vantagem: meu brao esquerdo
 capaz de se movimentar. Isso me permite algumas actividades
como estar agora escrevendo no computador, por exemplo. Mas
so actividades solitrias. Descobri que a fala  que faz
nossos laos sociais. Sendo muda e tetraplgica, no posso
sequer me comunicar por gestos. De todo o modo, essa pequena
agilidade com o brao esquerdo permite-me ainda comer sozinha,
folhear uma revista, segurar um copo... E, enquanto Antnio
assopra as velas de seu bolo de aniversrio, eu coo a cabea.
Espero que minha melhora no pare nisso.
           Foi na Fundao que conheci Ncolas. Ele no 
paraplgico. Nem tetra. Na verdade, ele  tetrapartico, como
eu, s que com muito mais movimentos. Ele come sozinho todo
dia. Sai sozinho do carro. Acho que ele se vira na cama e at
empurra a prpria cadeira; coisas que eu no fao. Mais
importante: ele fala, meio trpego, mas fala. Logo que me viu
na Fundao, ele me cumprimentou normalmente, coisa que no
acontece quando no se fala. Alis, eu tive que me habituar a
isso. As pessoas raramente cumprimentam quem no fala. Por
exemplo, na Fundao Selma, a cada seis semanas aparece um
grupo de estagirios. De fisioterapia,  claro. Na hora em que
eu chego, eles so gentis, como os terapeutas em geral so.
Mas, se eles saem mais cedo, e eu estou numa sala especial
fazendo fsio, a grande maioria  capaz de entrar na sala,
dizer tchau para a terapeuta, virar as costas e sair. Como se
eu no fosse gostar de um cumprimento. Como se eu no fosse
gente. Como se no fosse digna de um tchau. Como se no
entendesse... Realmente no sou capaz de responder, mas da a
ser ignorada?...
           Agora, imagine! Se nem os estagirios de
fisioterapia, com quem convivo, me cumprimentam, o que direi
das centenas de pessoas que encontro por a? A fala d
identidade, algo que no tenho mais. A falta de cumprimentos
no  tudo.  comum algum fazer uma pergunta,
displicentemente, e, no minuto seguinte, lembrar-se de que
voc no fala. Ento "fica o dito pelo no dito". Quantas
perguntas ficaram no ar?
           Quando comecei a escrever, escrevi uma carta para
Ncolas contando um pouco da minha vida. Ficamos to amigos
que um dia Ncolas perguntou:
           - Quer namorar comigo?
           O que eu respondi? Nada. No respondi. Acho uma
coisa completamente sem propsito.
           No natal de 95, ele e algumas outras pessoas me
deram o lap-top. Este em que escrevo. Alm de ser um tremendo
passatempo  um aparelho que auxiliou muito na minha
comunicao, que  praticamente a escrita. Ajudou-me com
Ncolas, que no entende o alfabeto da cartolina que eu
carrego.

Dia 4 de novembro de 1996

Minha companheira

 Tia Bianca veio da Espanha me ver, a caminho do Nordeste.
Queria abra-la e relembrar os velhos namorados da Paraba.
Sem falar e sem me mexer, s chorei, sentadinha na cadeira de
rodas. Tinha e tenho receio de me mostrar, pois estou
irreconhecvel. J encontrei amigos e ex-namorados que passam
por mim at sem olhar. Eles simplesmente no crem que naquela
cadeira se encontra a metida da Luciana Scotti. Experimentei
essa sensao quando vi Tia Bianca. Senti vergonha de no ser
eu mesma.
           De vez em quando, Poliana, que me transmitia
falsidade e me causava desconforto, vinha me ver. E eu,
indefesa. Com muita dificuldade para expressar meus
pensamentos no via bem aquela aproximao. Foi assim, at que
encheu a pacincia e a proibi de aparecer. Poliana se fazia de
amiga, coisa que nunca fomos. Mas, num dia, sem querer, deu-me
uma informao preciosa. Contando as novidades da Colgate,
disse:
           - Cristian est meio namorando com uma tal de
Mnica. A garota  meio novinha e telefona l no laboratrio,
atrs dele, com frequncia.
           Acho que at hoje ela no sabe que essa notcia foi
terrvel, caiu como uma bomba. Mantive a moral at Poliana ir
embora. Depois fiz o que podia: chorei. Tinha vontade de
telefonar para Cristian e ouvir, pelo menos, uma explicao...
Mas sem fala e sem movimento, como era possvel? No tinha
outro remdio a no ser esperar ansiosamente Cristian
aparecer.
           Desabafei com Alice, que ficou com pena de mim e
levantou a hiptese de Poliana estar mentindo... Mas a notcia
me foi dada to displicentemente que era impossvel ser
mentira. Poliana, e muita gente mais, no sabe at hoje que eu
e Cristian  ramos namorados. Ela me contou que eu estava
sendo trada como quem conta uma bobagem qualquer.
           Nunca mais vou esquecer a minha primeira sensao
de impotncia feminina. Eu j no fazia as coisas acontecerem,
s esperava que elas se realizassem. Sei que a autopiedade 
piegas e no leva a nada, mas no consegui evitar de pensar:
           "Sou uma coitada!"
           Era verdade naquele momento. A perda de Cristian
era um tombo dolorido na realidade. Eu queria tanto ouvir uma
explicao. Queria falar. Queria falar e chorava. Mas que
satisfao eu esperava afinal ouvir? Qual teria sido minha
reaco? Ser que eu entenderia? Hoje sei que bastaria ele ter
me dito que apenas atendia ao chamado da vida.
           At Cristian aparecer no consegui dormir. Pensei
dez vezes no que fazer. Decidi terminar tudo, mesmo porque
esse fim era inevitvel. Era exigir muita maturidade e muito
amor de um cara jovem e bonito de apenas 23 anos.
Amadurecimento que eu nem tinha nem conseguia ver. Era melhor
que eu tomasse a iniciativa e acabasse o namoro. Foi a coisa
mais sensata que fiz... antes que a vida o fizesse. Alguma
coisa eu ainda fazia acontecer.
           A traio no me incomodava tanto. Quem era eu para
querer fidelidade de algum? O que achava e acho um absurdo
era a infidelidade se manifestar num momento to delicado...
Quer dizer que enquanto eu quase morria, ficava tetraplgica e
muda, meu namorado tratou de me substituir por algum
perfeita? Belo apoio!
           Na noite em que minhas vizinhas organizaram o bingo
para me ajudar financeiramente, Cristian apareceu. Dei chance
para ele se explicar, coisa que no adiantou. Eu gostava muito
dele e foi difcil tomar a iniciativa de dar um basta naquilo
em que nosso romance havia se transformado. No pude berrar a
plenos pulmes. Dessa vez, nenhum vizinho ouviu a gritaria.
Enfim, a ltima palavra foi minha. Soletrei, letra a letra, o
fim do nosso namoro, que, na realidade, j havia acabado.
           Na verdade, Cristian sentiria muito, muito mais se
me perdesse numa outra situao. Nem lembro exactamente o que
eu disse, mas recordo bem umas palavras do Cristian antes de
sair do meu quarto:
           - Posso te visitar de vez em quando?
           Pensei duas vezes antes de responder, depois
balancei afirmativamente a cabea. E posso quase jurar que ele
foi embora aliviado.
           Por um longo tempo, alimentei muita raiva por
Cristian. Realmente, amor e dio andam de mos dadas. S me
acalmei, mesmo, quando a minha psicloga ps na minha frente
uma antiga foto minha, na qual estava saudvel e de longos
cabelos loiros, e me perguntou:
           - O que essa menina teria feito se o namorado
tivesse tido uma trombose?
           Olhei bem para a minha cara de sapeca na foto e no
tive dvidas. Se a situao fosse inversa, logo, logo eu
arrumaria um substituto para Cristian. Entendi que era uma
atitude normal, inevitvel, vital.
           Quando Cristian saiu da minha vida, dei adeus,
definitivamente, a algum tipo de relacionamento amoroso que
eventualmente pudesse travar. Quero ter na lembrana namoros
"completos", e no situaes que me constranjam. A vida
continua,  verdade. Mas est acima da minha capacidade
admitir um romance sem andar, sem falar, sem abraar, sem
fazer amor... Andar e falar so hoje minhas necessidades mais
imediatas, e  nelas que me concentro.
           Apesar de eu ter sensibilidade normal, exactamente
igual  que possua antes do AVC, pus um obstculo na busca de
uma sexualidade prxima do normal.  que esse "prxima do
normal" se encontra a milhes de anos-luz do que conheo como
sexualidade, e meu obstculo  minha cabea. Eu abomino
qualquer remoto pensamento que traga  minha cabea uma imagem
minha, como estou, namorando ou tentando uma relao sexual.
Em vez disso, preferi me imaginar fazendo amor como eu era. Eu
deparei com o ridculo da situao e sufoquei tais desejos.
Hoje, tais pensamentos encontram um campo minado no meu
crebro e no frutificam.
           Posteriormente, houve uma festa em uma danceteria
que eu frequentava antes do AVC, para arrecadar fundo para meu
tratamento. Cristian no deu as caras nessa festa. Viver assim
s tem uma definio, no  uma provao, nem uma comprovao
de fora e f,  apenas uma existncia de lembranas e
frustraes.
           Eu via aquela pista de dana que era to minha. Vi
Bia, Caio e meu irmo danarem prazerosamente. Vi meus amigos
beberem e se divertirem. Ouvia a msica, que me dava vontade
de sair pulando. Vi jovens desconhecidos paquerando e olhei
para mim.
     O que vi, ento?
           Uma garota que era atraente e charmosa, tinha
namorado, carreira, um corpo bem torneado, que se relacionava
bem com as pessoas, gostava de danar, de nadar, de andar de
bicicleta, de se vestir, de namorar, de dirigir e agora estava
sem falar e sem andar... Percebi que no era e no tinha mais
nada, e que tudo que gostava de fazer no dava mais. E chorei.
Chorei quase todo o tempo que fiquei na festa. Eu no ligava
mais para as pessoas, tudo bem que vissem meu pranto.
           Segurei forte a mo de Lucas, que estava l, mas
duvido que ele tenha entendido um tero do meu sofrimento. Meu
irmo me olhava com d. Caio veio falar comigo, todo suado de
tanto danar... Eu s chorava... At que Betinho nos levou, eu
e minha me, para casa.
           Nunca mais fui a danceterias. Para qu? Para passar
vontade e cair em depresso? Neste meu novo incio a vida
adquiriu um preto-e-branco; hoje procuro colori-la com outras
cores...
           Por mais absurdo que possa parecer, a irm do
Betinho arranjou uma outra festa para arrumarem fundos para o
meu tratamento. Alm de no ter mais ganho, tinha um gasto
extraordinrio: enfermeiras, terapias - incluindo fsio, fono,
psico, terapia ocupacional, hipoterapia e hidroterapia -,
cadeira de rodas, fraldas... Outras pessoas tambm se
mobilizaram para obter algum dinheiro. Alm da festa, Beto -
pasme! - doou uma TV. Hricles, que trabalhava em uma grfica
fez uma rifa, e meus amigos ajudaram minha famlia a vender.
           Meu aniversrio, em 3 de outubro de 1994, ainda foi
cheio de gente. A vizinhana, gente da Colgate, Gustavo,
Lucas, o surpreendente Betinho, a inesquecvel Bia... entre
outros. Percebi que, apesar de ser o meu aniversrio e de
estar toda arrumada, no provocava sensao, como em outras
pocas. Essa observao se confirmou no aniversrio seguinte.
Isso foi uma das coisas mais difceis: entender que passei
rapidamente de garota atraente e sedutora, para musa
inspiradora... de pena.
           Eu no entendia isso em 94. Por isso escolhi uma
roupa bem decotada, no me importando com as cicatrizes e no
vendo que meu corpo j no era o mesmo. Eu mal ficava sentada
numa poltrona, tombando para os lados. A bonita roupa decotada
ficava ridcula e, a cada 5 minutos, algum vinha arrumar...
Fazia charme como podia... S depois reparei que j no me
olhavam como mulher.

Dia 5 de novembro de 1996

Querida Juju,

No comeo morria de vergonha de sair de casa, e ainda me sinto
um pouco uma extraterrestre... Todos me olham aonde quer que
eu v. Vivo dizendo que, se ganhasse um centavo por pessoa que
me olhasse, j estaria rica.  muito estranho ver-se numa
cadeira de rodas e perceber centenas de olhos em cima de voc.
No comeo, voltava para casa chorando. At me acostumar com
essa situao, aconteceu de tudo. Um dia, fui a uma feira do
Mundo Mix, com Caio, Eugnia e meu irmo. Uma adolescente
chegou perto e perguntou:
           - Por que ela est na cadeira de rodas?
           Ora! Parecia-me que a resposta era bvia. Perguntas
idiotas merecem respostas imbecis. Acho que meu irmo se
enfezou, porque respondeu:
           - Porque ela  mais esperta que voc, que fica
andando. Ela gosta de ficar sentada.
           No pude segurar o riso. Mas nem sempre me d
vontade de rir.
           Esse tipo de cena  comum. As crianas, por
exemplo, param, olham, viram para trs e at apontam. Como 
que eu me sinto? No comeo, muito constrangida, com muita
vergonha. Vergonha de tudo: das goteiras, da cadeira de rodas,
da cartolina com o alfabeto, da minha risada, de comer em
pblico, da ausncia de fala e movimentos. Hricles e meu
irmo, alheios a tudo isso, levaram-me a um monte de lugares.
Eles me propiciavam o maior bem-estar possvel.
           Meu amigo oriental me foi de grande valia no
momento, sem dvida, mais difcil da minha vida. O que
Hricles fez por mim, at uns meses atrs, foi realmente
excepcional. Eu dizia que ele era mais que um irmo, era meu
anjo da guarda japons. Ele me proporcionou diversos passeios,
compras, comidas de que eu tinha saudades... Foi com ele que
revi a pracinha onde eu namorava Clber, a Colgate, conheci
seu lugar de trabalho e fui de novo a uma festa.
           Esse meu anjo foi me dar apoio at no Nordeste, em
fevereiro de 95! Sou muito grata a ele... No fim de 94, ele e
meu irmo, corajosamente, me levaram a um barzinho. Depois do
AVC, foi a primeira e a ltima vez que ingeri bebida
alclica. Desconhecendo a incompatibilidade entre meus
medicamentos e o lcool, e morrendo de vontade, tomei uma
caipirinha de canudo. Fiquei to realizada. Vi a felicidade
numa caipirinha.
           No outro dia, Stphanie me contou de uma conhecida
que fazia uso de anticonvulsivantes, meu remdio perene. Ela
tomou bebida alcolica e entrou em coma. Coma! De novo? No!
Nunca mais bebi uma caipirinha. Nem nada que contivesse
lcool. Tentei at tomar refrigerante. Sem sucesso! O gs faz
coceira na minha lngua e no engulo um nico gole sem me
engasgar. Dei adeus aos refrigerantes e me contentei com os
sucos de frutas.
           Comecei a fazer fono numa clnica indicada pela
irm da Simone, amiga do colgio. Essa clnica  uma extenso
de uma renomeada universidade particular paulistana,
Pontifcia Universidade Catlica (PUC). Nela eu conheci
Marina.
           Marina  uma fonoaudiloga culta, professora e
muito competente.  ela quem executa essa parte do meu
tratamento e foi com ela que aprendi tudo o que sei da fala.
Antigamente eu achava, com certa ingenuidade, que, se soubesse
bastante sobre a fala, acabaria falando. Se tivesse pensado um
pouco mais, teria chegado  concluso de que no  assim que
funciona. Se fosse assim, as criancinhas nunca falariam. Eu
mesma falava sem saber nada. Agora j sei que no resolve o
problema mas, ainda assim, gosto de aprender.
           Aprendi, por exemplo, que linguagem e fala so duas
coisas distintas. Se me comunico bem pela escrita, se sei o
nome das coisas que me rodeiam, se meu discurso tem lgica,
ento no tenho problema de linguagem. Tenho um forte
impedimento articulatrio que me causa a ausncia de fala. 
como ela diz:
           - A fala est a!
           Eu sei quando, como e o qu falar. Quer dizer,
minha mente sabe; minha boca, no.
           Aprendi tambm que tenho algo como uma falsa
afasia. Falsa, porque no apresento problema de linguagem. 
s falta da fala, provocada por um AVC. "S"  fora de
expresso. Aprendi tambm que a afasia pode ser de
compreenso, o que absolutamente no  meu caso, ou de
produo. Dentro da afasia de produo, existe a disartria,
que  a dificuldade de articular palavras, resultante de uma
perturbao dos centros nervosos. Por isso pode-se dizer que
tenho afasia de produo ou disartria.
           Aprendi tantas outras pequenas coisas que nem d
para enumerar. Tambm me dei conta de algo terrvel: eu penso
para falar, e, se voc fala, no pensa antes. Isso  fcil de
observar. Recentemente, comecei a conseguir soltar uns sons.
Ento penso:
           "Tenho que encher os pulmes". Na expirao, fao o
ar vibrar as cordas vocais... Se quero emitir algo que parea
com um MA, junto os lbios. Um LA? Promovo o dificultoso
encontro da lngua com os dentes superiores. Um FA? Dentes
superiores encontrando lbio inferior. Tudo isso, e muito
mais, morava no meu inconsciente e eu falava perfeitamente.
Com o AVC perdi essa espontaneidade. Estou reaprendendo tudo,
conscientemente. Mas, enquanto eu estiver vinculada ao
consciente, uma coisa  certa: no vou falar...  humanamente
impossvel controlar a respirao, a articulao e ainda
raciocinar sobre o que se vai falar. Foi por no ter passado
pelo consciente que, consegui emitir o "obrigada na nica vez
em que falei aps o acidente. A conscincia s veio depois.
Quando me dei conta de que havia falado.
           Atravs dos exerccios que a Marina orientava,
percebemos que minha respirao  muito curta. O tempo mximo
de expirao  de trs segundos. Dizer um longo A, nem pensar.
Percebemos, tambm, que eu no tinha nenhum controle sobre a
respirao.
           Ela foi contra o uso do computador como meio de
comunicao:
           - Usando um alfabeto, a fala vem mais depressa.
           E se no vier?
           Explico melhor minhas cartolinas. Deve ter uns 35 X
15 cm,  branca com as letras em negro. Nela esto as vogais,
as vogais acentuadas, as consoantes, a vrgula, o ponto de
interrogao e tudo o que se usa na escrita. Essa  a minha
fala. Primeiro vm as consoantes, divididas em fileiras:
           B C D ... K L
           M N P ... T V
           X W Y Z
           Depois temos as vogais, os nmeros de 0 a 9,
acentos, pontos de interrogao e exclamao, dois-pontos...
           Se quero escrever meu nome, aponto com o brao
esquerdo para as letras de cada fileira:
           L-U-C-I-A-N-A S-C-O-T-T-L.
           Antigamente, o ouvinte emendava as letras:
           L-U-C-I-A-N-A-S-C-O-T-T-I
           At que inventamos um gesto, que eu conseguisse
fazer, simbolizando o fim de uma palavra. Esse mtodo 
extremamente lento, experimente fazer uma frase dessa maneira
e veja que discrepante diferena senti entre falar e soletrar.
Alm de lento, esse mtodo cansa o ouvinte. A pessoa ou se
adianta no que quero dizer, ou desiste de me ouvir. Vamos
supor que quero dizer que "isto  difcil". Ento aponto:
           L-S-T-O  D-I-F...
           Na nsia de ser mais rpido, o ouvinte pergunta:
           - Diferente de qu?
           Isso  s um exemplo do que acontece com milhares
de palavras. Um D-I-F pode ser traduzido por diferente,
difcil, difuso, etc. Se acontece algo parecido com esse
exemplos ou se desistem de me ouvir, posso perder a pacincia
e tentar atirar a cartolina longe. Meu lanamento no vai alm
de 10 cm, mas fica clara a minha raiva. Odeio com todas as
foras a pobre cartolina, que no me fez nada.  a primeira
vez que dependo de uma coisa e a odeio ao mesmo tempo.
           Tambm  comum acontecer de uma pessoa no querer
me ouvir. Nesse caso,  s no me dar a cartolina. O ditado:
"Quem tem boca, fala o que quer, quem tem ouvido, ouve o que
no quer, definitivamente no se aplica a mim. Pelo menos a
primeira parte.
           H ainda os casos em que fazem de conta que me
entenderam, subestimando uma das nicas coisas sadias que
tenho: minha conscincia. Vamos imaginar, por exemplo, que eu
queira dizer uma frase como: "Gosto de morango no vero".
Primeiro, para o ouvinte no emendar todas as letras, vou
soletrando palavra por palavra, uma de cada vez:
           G-O-S-T-O
            muito frequente a pessoa a quem me dirijo dizer:
           - Como ? Faz de novo.
           E aponto devagar letra por letra:
           G-O-S-T-O
           A pessoa diz:
           - Grosso?
           Fao que no, com a cabea, e repito:
           G-O-S-T-O
           Finalmente o ouvinte diz:
           - Gosto?
           Balano a cabea afirmativamente e sigo em frente:
           D-E
           - De?
           Fao que sim e vou soletrar a prxima palavra:
           M-O-R-A-N-G-O
           Percebo que no fui entendida. Mas escuto um:
           - Ah! Pode parar, j te entendi.
           Mas o interlocutor no repete a palavra "morango",
mesmo porque no me entendeu... No me incomodo de repetir 20
vezes uma mesma palavra, mas no posso concordar que insultem
minha inteligncia falando que j entenderam uma frase que
ainda est na metade. Como isso  possvel? Na verdade, como
posso ter sido compreendida apenas ao dizer: "Gosto de..."?
Isso faz algum sentido? Voc pode at achar meu exemplo
gritante. Como  que algum vai confundir gosto com "grosso"?
Mas isso  mais comum do que se imagina... centenas de vezes,
com milhares de vocbulos. E sempre querem me dar a impresso
de que me entenderam. Querem, mas no conseguem.  bvio que
ningum pode entender uma frase ainda na metade!!!
           No sei por que o ouvinte quer me dar a falsa
impresso de que me entendeu... Se for para me fazer feliz,
no consegue. Prefiro repetir exaustivamente uma palavra e ser
entendida, a escutar um "Ah, entendi" no meio da frase.
           Esses so alguns dos problemas que me acompanham.

Dia 6 de novembro de 1996

Ju,

Eu, sem dvida, estaria mais perto de falar, se tentasse me
comunicar atravs dos sons que produzo. Mas  uma idia
descartvel, s de pensar... No vou me expor ao ridculo.
Meus amigos e minha famlia conheciam uma outra Luciana, no
uma garota sem movimento, que anda de cadeira de rodas e que
solta uns quando tenta falar. Poupo-me de mais uma vergonha.
           Uma pessoa vem sempre me ver. No a Simone, amiga
do colgio, mas a me dela, a Irm.
           
           Simone, Quero que voc leia este dirio, porque ele
 minha vida.
           Voc sabe que confio em voc pra caramba. Voc me
entende. Voc, a Priscila e o Hricles so as pessoas mais
importantes da minha vida. Se eu perder um de vocs, ser como
se eu tivesse perdido um brao. Adoro vocs. Voc tambm, 
claro.
           O que voc vai ler  tudo que me aconteceu de mais
importante nestes 16 anos que vou fazer. Leia, pense e me
aconselhe nas coisas que posso melhorar, pois no quero
terminar a vida sozinha. Deixo voc entrar no meu mundinho,
pois confio muito em voc e adoro voc, menina! Voc vai
longe!
           Beijo, da Lu.
           
           A Irm vem me ver frequentemente e s vezes traz um
padre amigo, que me d o sacramento da comunho, o mesmo que
me deu extrema-uno na UTI do Einstein. Uma vez a Irm o
trouxe aqui e perguntou:
     - Quer ficar sozinha com ele?
           Como quem diz "Quer se confessar?". E o padre,
antecipando-se, respondeu:
           - No precisa.
           E imediatamente eu pensei:
           ", estou pagando todos os meus pecados em vida; os
que cometi e os que no."
           E h quem pense que foi pouco o que me aconteceu.
Esse, ento, que atire a primeira pedra. No posso dizer que a
presena da Irma me surpreendeu. Ela sempre me d conforto e
ajuda financeira para meu tratamento. Se hoje fao fono com a
Marina  graas  irm da Si, que tambm  fonoaudiloga. Nem
tenho palavras para agradec-las.
           Chegou o Natal de 1994. Para mim, agora, sem
brilho.
           Uma data comemorativa como tantas... Hricles me
deu a ceia. Dele eu no tinha vergonha. Nem da minha famlia,
nem da Bia, que sempre me fez companhia. Depois da meia-noite,
Hricles, Bia e o meu irmo foram para uma festa, e eu fiquei.
No bebia, no danava, no paquerava, no conversava... Para
que festa?
           Vi meus inseparveis companheiros: meus pais. Meu
pai sai, mas escravizei mame, que nunca me deixa s. Apesar
de me chamar de trabalhosa, faz tudo o que peo. Para todo o
mundo deve ser penoso perder os pais, mas para mim  algo
inadmissvel. Preferia no estar viva a sentir mais essa
dor...
           No Rveillon, a famlia da Bia veio nos fazer
companhia. Lembrei-me muito da passagem de ano de 93 para 94.
To diferente desta! Cristian me convidou para passar o Ano
Novo com ele, em Mongagu. Por muito tempo, achei que ele me
deu azar, devido a maio de 1994 e  trombose. Mas isso 
besteira. Hoje me lembro desse Rveillon como o mais bonito
que passei. Fui para Mongagu com Cristian, a irm dele e o
namorado dela. Ficamos na casa dos tios, com mais duas primas
e a me do Cristian.
           Todos me tratavam muito bem, e foi impossvel no
comparar com a casa do Lucas. Aqui me tratavam infinitas vezes
melhor. Cristian tinha comprado, com a me e os irmos, a casa
ao lado da casa da tia em Mongagu. Cheia de capim e sem
mveis, s servia para Cristian dormir num colchonete, tomar
banho quando acabava a gua na casa da tia e namorar nas raras
horas em que estvamos sozinhos. Eu me sentia, e muito,
atrada por ele; e seus beijos eram, para mim, o mximo.
           Como se no bastasse eu adorar o Sol, fez um tempo
espectacular. Lembro-me que uma tarde fomos at outra cidade,
e foi super-romntico passear, ao cair a tarde, na praia.
Lembro-me tambm que deu para perceber que Cristian era o
queridinho da mame, que vivia repetindo:
           - Cris, meu amor, vem comer...
           E no segundo posterior:
           - Luciana, vai buscar o Cris. - E l ia eu.
           Peguei um superbronzeado, pois amos frequentemente
para a praia, onde eu e Cristian sempre caminhvamos. Quando
passvamos por algum esgoto, Cristian me pegava no colo, coisa
que eu adorava. Engraada a vida, hoje s chego a certos
lugares se me pegarem no colo.
           O Ano Novo foi inesquecvel. Fui para a praia com
Cristian, que levou uma garrafa de champanhe. Vestimos branco
e ficamos abraados, aguardando a meia-noite. Na hora do
Rveillon, estouramos o champanhe e nos beijamos. Vimos os
fogos de artifcio sobre o mar, e pulei sete ondas na praia
pedindo sorte. Tudo em vo. Foi o ano mais azarado da minha
vida. Depois de ter comemorado a passagem de ano, fomos a um
show e danamos pagode. Tudo estava absolutamente perfeito,
lamentei termos que dormir separados.
           Acabou o sonho, e a realidade nos chamava. Tnhamos
que voltar. Viajei com Cristian, apesar de lamentar o facto de
ser o primeiro Ano Novo que passaria longe dos meus pais. Esse
facto pesou muito na minha deciso. Tenho um tio que vive
dizendo:
           - Famlia desunida permanece unida.
            isso. Ns discutimos, mas nos adoramos. E agora
posso dizer que realmente seria impossvel viver sem eles. No
s meus pais, mas tambm meu irmo. Meu irmo que, conversando
comigo, ainda me d motivos para rir. Tanto foi assim que no
dia 2 de janeiro de 1994, quando voltei, estourei champanhe
com minha famlia, como se fosse dia 31 de dezembro.
           Cheia de pretenso, imaginava enfim vencer todos os
obstculos. Pensei que o ano de 1995 seria o ano em que
recuperaria meus movimentos e minha fala. Eu no tinha noo.
 muito mais difcil do que se pensa. Agora sei...

Dia 7 de novembro de 1996

Boa tarde, Juliana!

No comeo de 1995, fui para o Nordeste. Mais precisamente em
fevereiro, passar o ms. J no usava fraldas e controlava a
hora de fazer xixi. De forma alguma  parecido com o que eu
era. Antes era s ficar "com vontade" e correr para um
banheiro. Agora, no. Controlo meu organismo de forma que eu
faa xixi antes de sair. Nem sempre d para me levarem a um
banheiro.  o caso, por exemplo, do avio.
           Percebi que temos mordomias numa cadeira de rodas.
Quando um lugar pblico est lotado temos vagas privativas
para nossos carros. Mas h sempre os espertinhos que no
respeitam nossa deficincia. No pegamos filas. Assistimos aos
shows na frente. s vezes, entramos em cinemas sem pagar. E no
aeroporto somos carregados primeiro para o avio, temos lugar
especial para aguardar o voo e podemos ter excesso de bagagem.
           Eu adorava avio. Acho um transporte seguro e
rpido. Era uma festa voar para o Nordeste. Mas todo o mundo
sabe que, no avio, passa-se o tempo comendo e bebendo. Isso
que devia ser um lazer, virou um martrio para mim.
           Beber  um problema. Bebida alcolica? No posso.
Refrigerante? D coceira. Suco de tomate, que eu adoro? Agride
o estmago. Bebidas com chocolate? Prendem o intestino. Sucos
de frutas e gua? Provocam engasgo... Comer  outro problema.
No mastigo, consequentemente, no como carne. Como de boca
aberta. Algum tem que me dar comida na boca e, como no mexo
a lngua, me sujo toda.
           Eu sentia milhes de olhos voltados para mim e
morria de vergonha. At rir era constrangedor. Vi que o que
antes eu adorava agora era ruim para mim, O que em geral era
legal, podia ser muito doloroso. S entendi isso depois.
Passei a avaliar as coisas sob um prisma novo, cujos reflexos
eu no conhecia. Antes, quando era convidada para ir a algum
lugar, s tinha que pensar se ia gostar ou no. Se me
agradasse, eu ia. Agora, me pego pensando:
           "Como ser o acesso? Como vou comer? Beber? O que
vou fazer se...?" Se, se... todos os se que eu nem levava em
considerao.
           Eu ficava o tempo todo imaginando como meus avs e
meus tios iriam me receber... A recepo foi calorosa e um
pouco triste. Quando vi minha foto antiga na estante da minha
av, chorei de saudade.
           Virei atraco turstica, triplamente. Primeiro,
porque era de So Paulo; segundo, porque era tetraplgica e,
terceiro, muda.
           Tia Maria e mame me davam tudo o que eu precisava.
Eu exigia sempre uma pessoa perto de mim... Eu, que era
totalmente independente, tive que me acostumar a viver
dependendo das pessoas.
           A casa de vov virou ponto de romaria... Todos
arranjavam um pretexto para me ver e saciar a curiosidade. Eu
me senti uma marciana. Uma tarde, apareceram umas deficientes
fsicas que no sei se eram parentes, nem sei os nomes. Elas
me pediam para ter fora e pacincia. Contavam que sofriam
preconceito. Depois que elas se foram, eu disse para mame,
soletrando:
           - No sou deficiente fsica.
           Meu irmo, que estava no quarto, disse:
           - Na verdade, a sua leso  no crebro. Voc  uma
deficiente mental.
           Mame concluiu:
           - Mas deficiente fsica se encaixa melhor para ela.
No , mas est.
           Comecei a me familiarizar com o termo.
           Mas algumas visitas me emocionaram. Eram as minhas
amigas que saam comigo no passado. Morria e morro de saudades
daquela poca. Alguns dos meus paqueras e ex-namorados tambm
vieram me ver. Eu, agora, nem podia falar com eles... Que
situao mais infeliz! Definitivamente, eu no gostava de ser
vista. Ainda bem que Mauro, Juninho e Roberto no
apareceram...
           
           No engenho do marido de Tia Maria conheci o Mauro,
um sobrinho dela. Mauro  pouca coisa mais velho que eu.
Quando ele era pequeno era metidinho e gorducho. Na poca em
que conheci Roberto e Juninho, vi que Mauro tinha mudado, mas
no reparei muito.
           Chegando l, o Mauro estava dormindo numa rede, e
eu fui tomar banho de cachoeira. Quando ele acordou, que
surpresa! Ele  lindo! Ou melhor, ficou lindo! Alto, olhos
verdes, loiro, superbronzeado do sol do engenho e um baita
corpo devido ao trabalho. Uma massa humana perfeita!!!
           
           Depois ele me convidou para andara cavalo. Montei
na frente da sela e Mauro montou atrs de mim. Foi demais! Ele
me abraou, beijou meus cabelos e perguntou se eu ia  festa
de noite. Respondi:
           - Claro! Ns vamos, n?
           No fim de semana eu fui para a baa Traio. E
encontrei com o Mauro. Namoramos, bebemos, danamos,
conversamos e passeamos de moto. Foi the best!

 Tia Bianca falou na mesa do pavilho onde estava tendo a
festa:
           - Lu, tem um cara sentado atrs de voc que falou
que quer te conhecer.
           Olhei, e o cara era muitssimo sensual. Ele estava
me olhando pelo canto dos olhos, com um leve sorriso nos
lbios. O Juninho no era bonito, mas era charmosssimo. Ele
veio e me tirou para danar. No caminho para a pista de dana,
ganhei flores de um rapaz desconhecido.
           Durante a dana, ele me apertou bem
carinhosamente... e eu tambm. Mal acabou a primeira msica,
ele me beijou e disse:
           - Desculpa, no deu para resistir.
           Eu ri e falei:
           - Est desculpado.
           Quis mais um beijo dele, o que consegui facilmente.
Danamos bem apertadinhos, e eu gostei.


dia de Natal, 25,  tarde, Juninho foi me encontrar na casa de
Tia Maria e ficamos juntos. Ele continuou sensual, envolvente,
charmoso e atraente.
           Amanh volto para Joo Pessoa. Vou voltar a tomar
sol. L os amores so outros... Quero rever o cara do nibus,
o Roberto.

 A dor que sinto  a mais forte que j tive, e me faz crer que
vou sofrer muito de amor, Amor verdadeiro, amor amizade,
confiana, atraco, alegria, companheirismo... enfim, amor
com todas as letras e sintomas.
           
           Ainda em Joo Pessoa, uma coisa no me saa da
cabea: Roberto, o moreno que vi no nibus. Virando a rua
acima da casa de Tia Bianca, num dia qualquer em que fui dar
uma volta a p com minha tia, quem eu vejo? O moreno mais
lindo das galxias, o dito-cujo. Fomos apresentados. Ele me
abraou, segurou minha mo bem forte e disse que eu era linda.
Os homens no Nordeste so muito directos...
      noite, ele apareceu. Enquanto ele fumava e conversava
connosco, na calada, eu olhava para ele. Ele piscava para mim
e sorria. Eu ria tambm.
           
           Dia 6 de janeiro de 88, fomos todos a um barzinho.
Senti-me superbem ao lado do Roberto. Lindo, compreensivo,
carinhoso, orgulhoso... Tudo perfeito. O olhar mais brincalho
do mundo e um lindo sorriso estampado nos mais belos dentes.
     O bar ficava perto da praia, e o luar nos guiou at l.
Na praia ele me beijou. E como beija bem!!! Agradeci a Iemanj
o momento gostoso que eu estava vivendo.
     Assim, comeamos a namorar. Um namoro que no prometia
nada... provavelmente acabaria como tantos namoros de frias.
Mas muita coisa aconteceu e... nos apaixonamos.
           
     O Beto aparece aqui todos os dias: de manh, de tarde e
de noite. Mal eu acordo, j escuto a voz dele pela casa. A me
dele at perguntou se ele no quer se mudar de vez para a
minha casa.
      O tempo foi passando. Cada vez mais eu me apegava a ele,
e ele a mim. Senti que o nosso relacionamento era srio, ento
contei ao Juninho. Ele compreendeu. Mas, numa manh, ele
estava comigo, em casa, quando Juninho ligou. Beto ficou muito
bravo e enciumado. Quando desliguei o telefone, ele disse:
           - Acabou! No vou servir de otrio para ningum.
           Foi a que vi que adorava aquele moreno, com o
cabelo e o sorriso mais lindos do mundo... Ca no choro, como
nunca chorei por ningum. Antes de ir embora, ele disse:
           - Independentemente de qualquer coisa, valeu ter te
conhecido. O tempo que passei com voc foi o mais importante
que j tive.
           Fiquei chorando, pois percebi que tinha acabado
tudo.  tarde, ele voltou. Deitou-se no meu colo, me abraou,
beijou, disse que tinha se arrependido do que falou, que me
adorava... Eu j o adorava.
           Uma noite, deitado no meu colo, ele disse:
           -  terrvel estar pertinho de quem se gosta e
saber que essa pessoa vai estar longe dentro de uns dias. No
se envolva com ningum em So Paulo. No namore ningum por
muito tempo. No me esquea... Quando voc voltar, a gente
fica junto.
           Foi ento que comeou o pensamento para o futuro.
Para o depois das frias. Ser que tudo no acabaria com minha
partida? , tudo evoluiu muito rpido. Fomos a um show e, num
ambiente cheio de energia, ele disse:
           - Eu te amo.
           - Eu tambm - respondi.
           O compromisso de namorar por pouco tempo, namoro de
frias, mudou para: "No namore ningum!". E os "Eu te amo"
eram frequentes. Assim, fomos nos envolvendo cada vez mais...
Quando eu vi, percebi que estava amando.
Ele disse que me ama, que tudo est em minhas mos e que ele
fica comigo at o dia que eu quiser. Eu respondi:
           - Para sempre.
O Beto fuma. Tem 16 anos, mas aparenta 18, e vai para o
terceiro colegial como eu.
 O ltimo dia em que samos, chorei muito de saudade, que,
infelizmente, no mata, mas maltrata. Ele tambm chorou.
Semana que vem, estarei s, em casa.
           No caminho para o aeroporto, o Beto fumou como
louco e disse:
           - No esquea que voc tem algum que te ama, que
quer voc acima de tudo.
           Quando subi no avio, pude v-lo ao longe chorando
no ombro de Tia Bianca. Chorei a viagem inteira, abraada ao
ursinho de pelcia que ele me deu.
Que delcia so esses namoros de adolescente....

Dia 9 de novembro de 1996

Querida Ju,

Comecei a fazer fisioterapia todas as manhs. A fsio
realmente no me deixa.  um mal necessrio, no me d frias!
Mame contratou um fisioterapeuta da cidade que, na verdade,
no era fsio. Era um professor de Educao Fsica. Como ele
no era careiro, vinha todos os dias, menos nos fins de
semana, quando a Margarida repetia os exerccios.
           Wilson  um morenao simptico, bonito e muito
competente. Eu o considero o melhor investimento do meu
tratamento. Com ele, evolu muito. Ganhei alguns movimentos e
consegui ficar sentada sem segurar em nada, graas a ele.
           Mame e Tia Maria me arrumavam. Colocavam um
colchonete na sala de estar, e toda manh vinha Wilson. Depois
elas me davam banho e, posteriormente, o almoo.  tarde eu
ficava na rede ou fazendo exerccios de caligrafia na cama. 
noite eu jantava, via TV, e dormia cedo. Assim foi passando o
ms. Mal vi a "cara" da rua.
           Margarida verdadeiramente  superamiga de mame.
Essa realmente me deu apoio. Ela arrumou os exerccios de
caligrafia, patrocinou milhares de coisas, alm de me dar
banho, levar-me para passear e para a praia. Quando fiquei com
febre, me deu remdio.
           Tambm emprestou seu carro e foi nos levar ao
aeroporto... Ela foi excepcional!
           Hricles foi para o Nordeste de carro, com um amigo
do meu irmo. Realmente no existem palavras para descrever o
Hricles daqueles tempos. Tudo o que ele podia me
proporcionar, ele proporcionava, e todo o carinho e apoio que
ele podia dar, dava. Comecei a ver a rua, a sair de casa, aps
a sua chegada. Ele me carregava at o carro e passeava comigo
pela cidade. Com ele e com o amigo do meu irmo, eu at
conversava e comecei a me distrair um pouco mais.
           Hricles chegou a organizar uma festa beneficente
l, para arrecadar mais fundos para meu tratamento, pois 
inacreditvel o quanto se gasta. Decidi que no iria a essa
festa, pois, definitivamente, eu no estava com exposio.
Alm de ser constrangedor ser vista, era depressivo, pois
festas lembram quem eu fui um dia. Emprestei uma roupa nova
minha para Tia Maria. Esse era um modo de eu estar presente. E
da maneira que eu queria ser lembrada. Aproveitei e mandei um
recado para Mauro tambm:
           -   Quando eu puder, vamos voltar a danar.
           Ele pediu que Tia Maria me dissesse:
           -   Tenho certeza de que isso vai acontecer.
           Ambos erramos, nunca mais... mas eu no sabia.
           Hricles, Marcus e o amigo saam e namoravam muito.
Realmente o Nordeste  uma festa para quem  so. No comeo eu
ficava triste, por v-los saindo e no poder acompanh-los, e
tambm por ser to prontamente excluda. Cada vez que eles
saam para se divertir, era uma facada no meu corao. Depois
comecei a me divertir ouvindo as experincias do meu irmo.
At hoje, vivo a vida dele. Gosto de v-lo quando est se
arrumando para sair. Fico me imaginando, atravs das suas
histrias, paquerando, danando, rindo, bebendo... No  nem 1
por cento das emoes que eu tinha, mas  alguma na minha vida
pacata.  o que digo, viver assim  s para passar vontade e
viver do passado. S que, como diz Marina Lima em sua msica:
"Os momentos felizes no esto escondidos nem no passado, nem
no futuro".
           Teve tambm a festa da padroeira. Eu havia
namorado, danado, conversado tanto nas festas de outros anos.
No dessa vez. Preferi ficar na minha cama hospitalar,
dormindo. De madrugada, acordei e ouvi ao longe a msica da
festa. Imaginei centenas de pessoas fazendo tudo o que eu
fazia. Ao meu redor, havia agora uma cama hospitalar, uma
rede, uma TV e cadernos de caligrafia. Fiquei desesperada. Nem
cantar a msica que vinha de longe eu podia. Poxa, eu s tinha
23 anos! Entende por que digo que fui arrancada da vida? Por
que tanto dio e rancor? Naquela cama eu tive certeza: o
destino foi tremendamente cruel! Eu no podia fazer muita
coisa, mas o que podia fiz: chorei um pedao da noite, depois
adormeci com uma mgoa profunda.
           No dia seguinte chorei o dia todo e vomitei umas
quatro vezes, apesar de no ter comido nada. Hricles,
preocupado, me levou a um neurologista de outra cidade. O
mdico me achou bonita. Hum, quem me viu, sabe: bonita eu
era... Olhou meus exames e disse:
           - Ela tem sorte de estar viva.
           E eu pensei comigo mesmo:
           "E um terrvel azar de ter sofrido uma trombose..."
           Foi a que comecei a pressionar para irmos para
Joo Pessoa. L eu via um pouquinho de diverso, pois teria,
pelo menos, uns banhos de mar. "Pegar uma praia", como eu
estava acostumada, nem pensar... Sem biqunis decotados, sem
andar  beira-mar, sem passar bronzeadores pelo corpo, sem
nadar e pouco, pouco sol. Mas, mesmo assim, era melhor do que
passar as tardes numa rede. Comecei a querer ver praia, pois
estava cansada de passar as frias numa rede ou tentando
escrever.
           O Sol foi s o que me sobrou. Tia Maria comeou a
me pr ao sol depois da fisioterapia. Eu ficava sentadinha na
varanda de vov, na cadeira de rodas, sem nenhum movimento,
uma esttua ao sol. Eu digo que o Sol foi s o que me sobrou,
mas no  to simples... Apesar de adorar, nas raras vezes em
que tomo sol, a vlvula que existe na minha cabea esquenta,
fico com dor de cabea, vermelha, tonta e vomito. Preciso
maneirar hoje as doses de sol.
 O ms estava acabando, e nada de praia. Finalmente, mame
conseguiu a casa de Tia Bianca emprestada, na praia de Cabo
Branco, em Joo Pessoa. Margarida ia ficar no apartamento que
tinha no litoral para nos ajudar. Um carro era imprescindvel.
A princpio, eu teria de fazer a inseparvel fisioterapia,
teria de tentar fazer fonoaudiologia e, para me locomover, eu
iria necessitar de um carro. O motorista ns tnhamos: Marcus.
Faltava o carro. Provisoriamente, precisei dar adeus a essas
actividades.

     Luana  uma moa negra, muito dinmica, afilhada de vov.
Mora com meus avs e faz um pouco de tudo. Mame precisava de
ajuda para cuidar da casa e de mim, no litoral, e contratou
Clotilde, a irm mais velha de Luana. Um dia, Clotilde passou
leite de cabra no meu cabelo e me ps ao sol. Eu tinha
esperana de que meu cabelo voltasse  antiga cor... Depois do
banho, me olhei no espelho e... que decepo. No vi nenhuma
diferena... Passei de tudo no meu cabelo: mil e um xampus,
camomila, leite... mas no tem jeito, ele enegreceu de vez.
Desisti. Sou mesmo uma morena hoje.
 O Carnaval veio e eu desejei estar pronta para pular atrs de
um trio elctrico. Os rapazes jantavam, saam, iam a bailes a
noite toda e chegavam de manh. Eu assistia s festas pela TV.
De manh, eu acordava cedo, quando o sol  mais fraco, e
ficava sonhando com a praia. Mas os rapazes, logicamente,
dormiam. S consegui ver o mar  tardinha, umas trs vezes,
graas ao Hricles e  Margarida. Essa foi a temporada que
passei no Nordeste. No foram bem frias, porque no trabalho,
no estudo... vivo de "frias", esperando minha aposentadoria.
           A ltima novidade que ouvi por l foi sobre
Roberto: ele estava noivo. Meditei e vi que a vida continuava.
 Estou quase perdendo o contacto com Roberto. O tempo e a
distncia vo acabar com tudo... eu sinto que vai. Dar certo
uma relao assim?
           Tenho adorao por Roberto. Sem ele, nunca mais vou
ser a mesma, mas sinto que ele est se distanciando.
Completamente inactiva, sem poder fazer nada, s morrer. de
saudade de ti, meu desejo.

           Meus avs, Tia Maria e filhos foram se despedir de
mim. Viajaram de Alagoa Grande para Joo Pessoa com esse
objectivo. Pena que o tio Nana no foi. Alis, esse irmo de
mame , actualmente, o tio de que mais gosto. Ele se mostrou
muito verdadeiro e fez o que era possvel para me ajudar. Foi
ele que tocou violo na minha festa beneficente e me viu
preencher cadernos de caligrafia nas tardes vazias que eu
tinha em Alagoa Grande.
           Enfrentei o voo de volta para So Paulo. E
encontrei papai no aeroporto, com uma rosa.

Dia 12 de novembro de 1996

Oi, minha amiga calada.

Chegando em casa, fiquei contente em rever Stphanie. J no
tnhamos Alice. Desde 94, mame acorda e vem me virar de
madrugada. Alm de no dormir direito, ela cuida da roupa da
famlia, da comida,  enfermeira, advogada, farmacutica,
acompanhante, passadeira, cozinheira, juza... Me  me! Mas
a minha vai alm de uma me comum.
           No comeo de 1995 eu j no causava sensao. A
minha casa, que era lotada de amigos, parentes, curiosos,
vizinhos e conhecidos, foi-se esvaziando. Claro que fiquei
esperando as pessoas aparecerem com a mesma assiduidade do
comeo. Diversas vezes pensei:
           "Faz tempo que Beltrano no aparece. Deve vir neste
fim de semana...
           E ficava esperando, mas Beltrano no vinha... Pouco
a pouco, meus amigos deixaram de ser amigos e seguiram suas
prprias vidas. Meu pai  quem diz:
           -  a vida. Voc tem que entender que no faz mais
parte do dia-a-dia deles. Eles tm a prpria vida.
           Tantas pessoas saram da minha convivncia, que nem
vale a pena listar... H tambm aquelas visitas que a gente
no espera.  o caso de alguns paqueras e ex-namorados que
nunca foram meus amigos. Amizade  um sentimento que no
cultivo por eles. Pois bem! Alguns agora se colocam como
"amigos"... Acho que o nico que sinto verdadeiro prazer em
receber  Richard. Ele realmente virou um amigo.
Frequentemente vem me ver, gosta de ficar horas me ouvindo
soletrar. Formado, frequentador do CEPE-USP, bonito, gosta de
danar, tem um bom papo.
           Foi no vero de 92, no CEP, que eu o conheci,
quando ainda fazia Engenharia Mecnica na Escola Politcnica.
Um "caso que tambm sempre foi revestido de amizade  o Kiko,
que igualmente me d prazer quando aparece. Mas Lucas, Lu,
Cristian, Caio, at o Walter, me fazem lembrar de que deixei
de ser mulher... Junto com a trombose, foi-se a minha
feminilidade.
           
           Recebi uma declarao de amor, realmente linda, de
um carinha l da classe: o Kiko. Pobre Kiko. Ele me deixou
confusa. Em alguns momentos nem eu me entendia. No valeu a
pena gostar de mim. No no lugar do Kiko. Ele faz meu ego
subir, e  claro que gosto disso. Senti falta dele. Misturei
sentimentos e dei esperana. Na festa de sbado, a decepo
foi muito maior. Quando fiquei com o Sandro. Ele chorou.
           Hoje ele me ligou e me convidou para sair. Fomos
at a Serra da Cantareira, e ficamos juntos. Gostei muito de
ter ficado com ele, mas faltou aquele "logo mais" que, quando
no surge, no tem jeito.
           
           Com poucas visitas, sobrava-me tempo para as
terapias. Comecei a fazer hipoterapia na Fundao Selma. Um
fisioterapeuta montava comigo, num cavalo de verdade, O cavalo
me emprestava seu andar. O balano do cavalo  tridimensional:
para cima e para baixo, para a frente e para trs, e para a
direita e para esquerda. Dizem que melhorei muito de postura e
equilbrio de tronco, mas eu no percebo a diferena.
           Em 95 eu tinha um tratamento superintensivo. Eu
queria melhorar logo. Fazia diversas terapias, em todos os
perodos, em todos os dias: fono, fsio, hipoterapia,
ortostatismo, terapia ocupacional, psicologia... Este ano
meditei e vi que minha melhora  muito lenta. Controlei minha
ansiedade e reduzi minhas terapias pela metade.
           Conheci a AACD, cujo hospital est cheio de
deformidades: acidentados, problemas congnitos, gente em
cadeira de rodas, muletas, andadores e at de cama. Nunca vi
tanta gente amputada e destruda junto.  cheio de gente
"despedaada". Se a Fundao Selma  a "casa dos monstros", a
AACD  o "hospital dos horrores
           Quando l cheguei, passei primeiro por uma mdica
gorducha. Ela me perguntou:
           - Voc quer melhorar?
           Lgico que eu queria. Que pergunta!... Balancei
afirmativamente a cabea.
     - Temos que internar...
           Mas o preo da internao era exorbitante, fugindo
completamente do nosso oramento. Ento, fiz uma avaliao com
diversas terapeutas. Comecei a fazer ortostatismo e
fisioterapia duas vezes por semana e pus meu nome na lista de
espera de hidro e T. O. - terapia ocupacional.
           Ortostatismo nada mais  que passar uns 40 minutos
em p, na frente de um espelho, corrigindo a postura. Toda
amarrada, logicamente, a uma prancha. Nesses 40 minutos,
observei muita gente chegar na sala de fisioterapia de cadeira
de rodas e sair andando. Usando prteses, muletas,
andadores... mas andando. Em geral, os terapeutas da AACD
davam um jeito de reabilitar os pacientes. Eu melhorei, mas
no sa andando.
           A minha fisioterapeuta era excelente. Tereza era
uma japonesinha jovem, com cabelos lisos at o ombro, magra e
de culos. Ela treinava meu equilbrio em diversas posies.
Eu gostava muito dela. At que tive de trocar de terapeuta.
Ento as sesses de fsio despencaram de qualidade nas mos de
Laura, aquele tipo de fisioterapeuta cheia de falsos risinhos
e elogios que afrontam minha inteligncia. Pssima
profissional, adorava bater papo. Um dia ela me largou meia
hora na cama, numa sesso de 40 minutos, e foi falar no
telefone. No comeo, esperei pacientemente. Depois eu me enchi
e quis ir embora. A eu lembrei que no andava. Pensei em
pedir ajuda. Lembrei que no falava. S ento me dei conta de
que eu no tinha nada para fazer e me senti largada.
           No comeo fiquei com muita raiva por estar nas mos
de uma fsio to pouco profissional. Mas o tempo foi passando,
e eu l deitada... pensando. Conclu que eu ainda teria que
conviver muitas horas com Laura e que, para eu ter uma
fisioterapia "menos ruim", era melhor manter, aparentemente
pelo menos, uma relao de simpatia entre paciente e
terapeuta. Percebi que eu teria de fazer de conta que quase
no perdi 30 minutos de uma terapia de 40, e que no notei que
a terapeuta me deixou numa cama para falar no telefone. 
fcil fazer de conta que sou pouco esperta. Sem precisar me
esforar, j duvidam da minha inteligncia. Ento, quando ela
voltou, pediu desculpas. Eu balancei a cabea afirmativamente,
mostrando que estava tudo bem. Situao igual se repetiu um
milho de vezes.
           Fiz fisioterapia cinco meses e depois recebi alta.
Na AACD  assim... Melhorou? No? Azar, O sistema  de
rodzio. Todos querem uma chance. Enquanto isso, comecei a
hidro e a T. O. A hidro foi a nica terapia que chegou perto
de me agradar. Lembrava o CEPE-USP. Piscina, chuveiro, mai...
A terapeuta era bem medocre, mas  difcil encontrar bons e
experientes profissionais.
           Tive que entrar na fila de espera de T. O. por duas
vezes. Pois a primeira terapeuta, numa das primeiras sesses,
deixou de me atender por um pequeno atraso, pois estvamos no
estacionamento, esperando o carro da frente descarregar outro
deficiente. Eu no falo, mas sou plenamente consciente. Eu
lembrava que, por motivos menores, qualquer faculdade d 15
minutos de tolerncia. J disse que entre terapeuta e paciente
 necessrio haver afinidade. Ento, como  que eu ia passar
horas na presena de uma mulher ignorante?
           Mais tarde, fui chamada para fazer T. O. e gostei
muito da nova terapeuta.
           A hidro e a T. O. se estenderam por todo o ano. At
que abandonei. Deixei a AACD quase no final do ano. Fui
visitar a mdica gorducha que me viu no comeo do tratamento
na AACD, e ela me deu "um banho de gua fria". Falou, com
outras palavras, que, se em um ano no melhorei, nunca mais eu
voltaria a andar. Que eu era adulta e consciente e que era
melhor no alimentar falsas iluses. Fiquei com tanta raiva
que parei toda e qualquer terapia na AACD. Se eu conseguir
andar, volto l e falo:
           -   Est vendo? Consegui!
           Ops, sempre esqueo... Falar como?!
           Eu no sei o quanto as esperanas e a fora de
vontade contribuem para eu voltar a andar, mas uma coisa 
certa, tenho que acreditar, com todas as foras, que vou
voltar a caminhar. Sem acreditar, no tenho chance.

Dia 13 de novembro de 1996

Jujuba,

Em abril do ano passado, mudamos de casa. Infelizmente ela tem
dois andares. Tenho que ser carregada para todo o lado, pois
meu quarto  no segundo andar, e a sada  no trreo. Muitas
vezes meu irmo, superatltico, me carrega. Digo sempre que
"Marcus  as minhas pernas". No s aqui em casa, mas tambm
em todo o lugar a que uma cadeira de rodas no tem acesso, ele
me pe nos braos e me leva at esses locais que seriam
inatingveis para mim. Se ele no est, tenho que ser
carregada pelos meus pais.
           Essa eu no considero minha casa. No ando por ela,
no abro a geladeira, no ligo o chuveiro, no abro nem fecho
portas, no ponho a mesa, no me olho no espelho... s vivo
aqui. Quando pego a estrada que vai para minha antiga casa,
parece que estou indo para minha casa. Vejo que, infelizmente,
no  essa a realidade. O trajecto se transformou. H dezenas
de construes novas, que no existiam quando eu dirigia meu
Uninho.
           Em 1995, no segundo semestre, papai foi para a
Itlia. Mandei carta para Cesari, Luigi...
           
           Visitamos um primo do meu pai. Estavam l os seus
trs filhos homens e mais dois amaos. Luigi me agradou
especialmente, mas ele  muito tmido... espero v-lo
novamente. Aqui em Npoles, conheci o Cesari. Ele estava na
casa de uns amigos do meu pai. Fomos jantar na casa dele e
durante o jantar ficamos conversando. Falo razoavelmente bem o
italiano.
           Minha impresso  de que o Luigi, de 16 anos, 
mais maduro e mais inteligente que o Cesari, que tem 20.
Durante o jantar ele me deu um monte de indirectas, que at no
Brasil j so velhas.
Hoje o Cesari j me telefonou. Por ele ser educadssimo, e por
meus pais gostarem muito dos pais dele, talvez a gente saia.
Mas, decididamente, ele no fez meu tipo.
Quando Cesari veio da Itlia para passar as frias aqui, eu s
sabia que ele era um pouco mais velho que eu, e que eu tinha
uma certa queda por italianos. Sonhava em me casar com um. Mas
no tinha a mnima idia de como ele estaria, fazia muitos
anos que no nos vamos. De qualquer modo, decidi lev-lo
connosco no Carnaval de 94.
           Cesari havia se transformado num rapaz
interessante, bem diferente daquele chato que pegou no meu p
na Itlia. Ele chamou minha ateno, e eu adorava o seu jeito
de falar. Cesari tambm era farmacutico, o que aumentava a
afinidade entre ns. Apesar de tudo isso, e de ele me agradar,
comportei-me como namorada do Cristian. S no sei qual teria
sido minha reaco, se Cesari tivesse tentado ficar comigo...
           Dia 14 de fevereiro de 94 fomos para a praia da
Fortaleza, no litoral norte de So Paulo, onde fica o clube.
Fomos de carro para a praia, que tinha um acesso superdifcil.
Ficamos um tempo numa estrada de terra, cheia de obstculos e
com desfiladeiros ngremes. Mas a paisagem, aps cada curva,
era linda. A praia no tinha nada de especial, a no ser o
clube. Cesari nos convidou para ir at l, aps uns momentos
de sol. Todos ns, inclusive eu e o meu irmo, aceitamos o
convite, menos Cristian e Nelson, que permaneceram na esteira.
           Chegando l, procuramos uma mesa e pedimos
caipirinhas com lulas fritas. Cesari se props a pagar tudo,
ou quase tudo, no me lembro. Sei que tudo que eu e meu irmo
comemos e bebemos, para mim, saiu de graa. Cesari no estava
s nos oferecendo uns drinques, estava com o objectivo de nos
embebedar. Meu irmo e Cesari foram espertos. Divertiram-se
muito, mas no ficaram bbados. Achei a caipirinha de vodca de
l uma delcia e dei at um beijo no rosto do garom. Tomei
umas cinco.
           Samos de l totalmente trpegos, principalmente
eu, Caio e Eugnia. A praia tinha se tornado estreita, para
nosso andar em ziguezague. De longe pude avistar os olhares de
espanto do Cristian e do Nelson. Jogamos Eugnia na gua e
entramos todos no mar. Cesari veio nadar pertinho de mim, me
abraou, me pegou no colo, e me beijou.
           
           Vou beijar-te agora
           no me leve a mal 
           hoje  Carnaval...
           
           Nesse clima de folia, deixei minha empolgao falar
mais alto, apesar do olhar indignado e furioso do Cristian,
que mal podia crer nos seus prprios olhos. J mais sbria,
expliquei para Cesari que tudo deveria acabar por ali, pois
no queria qualquer tipo de compromisso. Ele aceitou super
bem, e no dia seguinte continuamos com nossa relao,
superamigvel. Na verdade, nenhum dos dois se envolveu, s
cedemos a uma atraco.
           Consegui escrever as cartas, e na volta papai
trouxe as respostas. Tanto a carta do Luigi como a do Cesari
eram repletas de palavras animadoras, cheias de fora e
coragem. No, no eram mais os homens que mostravam segundas
intenes nas entrelinhas, eram agora os amigos presentes em
palavras, com tanta f e esperana que me emocionei muito ao
l-las.
           Ah! Um dia pedi a Joo, o chato de um motorista,
que parasse em frente ao prdio do apartamentozinho do Lucas,
a "nossa casinha". Argh! Depois do acidente, acho que fiquei
piegas! Passei bem uns 20 minutos olhando e recordando dias
felizes.
           Lembrei-me que h bem pouco tempo passei l
momentos inesquecveis. S assim eu ficava perto de momentos
prazerosos: lembrando. Lembrei-me dele me levando l pela
primeira vez, dando-me uma bonequinha de pano e fazendo amor,
magnificamente, no cho da sala. Dizendo:
           - Lu, voc finge que mente e seus pais fingem que
acreditam...
           E tocando violo para mim. Dormindo comigo n vezes
e dizendo escassas vezes:
           - Eu te amo.
           Eu, fumando na varanda, enquanto ele dormia... e o
topzio azul do Dia dos Namorados. Naquela poca eu achava que
a vida era ingrata o bastante, porque Lucas ia passar trs
meses nos Estados Unidos. Tive certeza de que era. Senti uma
profunda nostalgia desses preciosssimos anos da minha vida e
chorei.

Dia 15 de novembro de 1996

Bom dia, Ju!

Considerando essas minhas experincias nostlgicas, resolvi
pedir ao Lucas um dia no stio. Expliquei a ele que eu estava
vivendo uma fase de saudades e queria rever esse lugar onde
fui muito feliz. Na minha mente, eu me via na cadeira de rodas
mesmo, com os poucos e bons amigos, a lareira acesa, Lucas no
violo, todos comendo pudim de leite... igualzinho aos bons
tempos.
           Muitas vezes a gente passava o dia de domingo no
stio com os amigos mais chegados. Minha me fazia um pudim de
leite condensado que todo o mundo adorava, e eu levava a
melhor sobremesa para o nosso churrasco. Lucas sempre levava o
violo para o stio e tocava para mim. Adorava ouvir Stand By
Me, de John Lennon, e Logical Song, do Supertramp, no seu
ingls perfeito. s vezes eu dava um jeito para dormir l no
final de semana. Lembro-me de um desses fins de semana, numa
noite de amor, em que eu estava com a libido a toda e atingi
oito orgasmos! Ele, cinco! Esse homem era ou no perfeito?
           Para comeo de conversa, convidei todos os poucos
amigos que sobraram. Tirando Hricles, Stphanie e meu fiel
irmo, todo o mundo arranjou uma boa desculpa para no ir.
           Depois de muito pensar e remoer toda minha histria
com Lucas, cheguei  concluso de que suas visitas amigveis
eram muito cmodas. Ora, levando em considerao que a plula
foi um co-fator necessrio para minha trombose, ele bem que
poderia ter feito o que Hricles fazia. De vez em quando, ele
poderia me carregar para o seu carro, passear comigo no
shopping e sentir os milhares de olhares inquisitrios. Vir me
ver com mais frequncia. Viajar comigo, j que agora eu no
podia viajar sozinha. Levar-me  praia,  piscina, ao cinema,
a um bar... ou seja, dar um pouco de vida social a quem gostou
tanto dele...
           Fui eu quem decidiu que ia tomar plula. Tambm,
tinha que ser. Eu nunca ia aceitar um namorado me dizendo o
que eu deveria ou no fazer. Como foi que decidi tomar
plulas? Sem sombra de dvida, Lucas sabe. Ele que, hoje, nem
sabe direito se comunicar comigo e morre de medo que eu
espirre na presena dele. Belo apoio  ex-namorada apaixonada,
que conviveu com ele trs anos. Tomar a plula foi uma deciso
conjunta, mas quem ficou tetraplgica e muda fui eu!
           Sabe, eu acho muito cmodo isentar-se da
responsabilidade da minha tragdia pessoal, afirmando que no
tem nada com isso, Se eu falasse, j teria provado por A mais
B que a plula contribuiu mais na minha trombose do que
gostaramos de acreditar. Ns, porque eu tambm queria estar
livre de qualquer culpa... Uns dizem que a plula foi 100 por
cento responsvel pela trombose. Outros acham que foi um dos
factores, mas ningum a isentou. Ningum, no, s Lucas,
quando toquei no assunto. Acho que o facto de ele no querer
aceitar isso  simplesmente prova de que quer deitar no
travesseiro e dormir tranquilo.
          S depois de dois anos  que tomei conscincia de
que a atitude de Lucas era muito cmoda para ele. Fiquei,
integralmente, com a pior parte da nossa histria. Eu esperava
tanto ver um Lucas forte... Mesmo durante o nosso namoro, eu
via sinais de fraqueza, principalmente em situaes difceis.
Eu tinha uma sensao estranha, sempre tive: achava que um dia
uma tragdia ia acontecer na vida do Lucas. Um acontecimento
que exigiria dele o pulso e a fora que ele no tinha. Ento,
ele cresceria e seria um homem mais que perfeito. Caramba! No
imaginei que esse facto contundente seria eu! A tragdia
aconteceu, mas ele no tomou conhecimento. No cresceu. Fez de
conta que no era com ele, que no lhe dizia respeito.
          Demonstrando o antigo desinteresse, Lucas apareceu
duas horas e meia depois do horrio marcado para me levar ao
stio. Eu queria xingar e gritar:
          - Covarde!
          Traduzi toda a minha raiva num fraco soco em seu
brao, que nem machucou. Frequentemente fazia isso. Batia e
mordia quando estava com raiva. Parecia louca, no ? No, no
era. Precisava mostrar minha raiva, externar minhas revoltas,
como todo o mundo. Sobraram-me apenas esses gestos.
          No stio, Lucas fez o churrasco, mas como mastigar
carne est alm das minhas capacidades, comi uma macarronada,
escondida na cozinha, morrendo de vergonha do Lucas.
Lamentvel... tenho vergonha agora de ter feito isso!
Cretinice!
           Depois do almoo, foi todo o mundo dormir. Lucas
entrou e Stphanie fomos para um quarto cheio de beliches.
Este era um cenrio indito: dormir longe do Lucas. Desde que
nos conhecemos, nunca dormimos separados. Dormir... At parece
que isso era possvel! No escuro, imaginei-me com um corpo
bem-feito, cabelos compridos, andando at o quarto do Lucas,
batendo na porta, dizendo-lhe um "oi", dando-lhe um beijo e
deitando-me no meu lugar, na cama de casal. At bem pouco
tempo, sem dvida, era isso que faria.
           Depois que todos acordaram, ainda lancei um olhar
nostlgico para o interior do nosso quarto, e vi meu lugar na
cama de casal, intacto. Quantas vezes aquela cama foi nossa?
Bom, pelo menos no presenciei outra garota pegando o lugar
que era meu.  como dizem: "Longe dos olhos, longe do
corao".
           Na volta, sem querer, fiz Hricles se perder do
carro do Lixas. Concluso: odiei esse dia!
           Sabe, minha querida amiga Ju, eu queria mostrar a
voc como uma trombose cerebral me transformou. Meu pescoo
ficou fortemente virado para o lado direito. Esse lado, alm
de ter pouco movimento,  cado.  visvel o ombro direito
mais baixo que o esquerdo. E a cabea sempre pende para o lado
direito, desequilibrando ainda mais o meu corpo. Mas eu no
percebo esse desequilbrio. Alis, meu "meio"  o lado
direito. Se me pedem para pr a cabea no meio, eu a coloco um
pouco para a direita, O pescoo de todo o mundo  recto, o meu
 em diagonal. Para a direita, claro!
           Minha coluna tinha o formato de um S, agora parece
um C. Fiquei corcunda. Logicamente, os seios, que eram
erectos, caram. Quando voltei do Einstein, achei que era
devido aos trs meses sem suti. Depois entendi que a coluna
tem mais a ver com isso do que eu supunha. E virou um C,
porque passo horas deitada.
           A barriga, sem musculatura, ficou enorme. Os velhos
jeans no entram em mim de jeito nenhum. Calas de cintura
baixa ficam ridculas. S uso calas de elstico.  uma
tortura me lembrar da antiga barriguinha queimada de sol e com
plos dourados. Agora,  grande, branca... S uso mai, para
no ficar mais ridcula. Dei adeus aos biqunis.
           Respiro expandindo o trax, no com o abdome. s
vezes, na fisioterapia, o terapeuta diz:
           - Barriga para dentro, peito para fora!
           Mas eu no tenho nenhum controle. A parede do
consultrio  mais obediente.
           Meu quadril est torto. Est inclinado para a
esquerda. Isso d a impresso de que a perna esquerda  maior
que a direita. Mas no  verdade. De facto.  o quadril que
est virado.
           Os pulsos so cados, ou flectidos, como dizem os
terapeutas. At a mo que tem mais movimento, parece que cede
ao prprio peso e fica flexionada.
           Minhas pernas so hiper, supefinas. Tenho at
vergonha de pr uma bermuda. Como se fosse pouco, ainda tem
meus ps que, antes da cirurgia, eram tortos; agora, nem
parecem os meus, ficaram diferentes, estranhos...
           Um dia Ncolas veio em casa e me deu a pior notcia
que j recebi. Ele estava fazendo fisioterapia com um
terapeuta cobra. At tentei ser paciente dele. Esse fsio era
da Fundao Selma, mas montou sua prpria clnica. Esse  o
tipo de terapeuta que me exclui do rol de suas pacientes,
apesar de ele ser muito bom. Quem sabe se eu fosse rica?
           Ncolas me contou que o seu terapeuta disse que 
ramos iguais. Que entre um AVC e uma paralisia cerebral  s a
idade que difere. No sei a veracidade dessa informao.
Tambm no sei se Ncolas se explicou direito. Vi-me daqui a
23 anos, com a idade que Ncolas tem agora, numa cadeira de
rodas. Pode at ser, mas, at aquele momento, eu no
vislumbrara essa nefasta possibilidade.
           Em setembro, Ncolas me convidou para irmos a um
show. Ele me fez entrar de graa e me levou ao camarim.
Consegui um autgrafo do cantor e uma foto. Cheguei a pensar
que Ncolas fez por mim o que muitos rapazes perfeitamente
saudveis no fizeram... Nessa poca, pensei seriamente na
hiptese de vir a namorar com ele, mas depois de reflectir
muito vi quo absurda era a idia.
           Eu no sei o que  mais gritante quando reflicto
nessa possibilidade, mas acho que, antes de tudo, vm os
grandes impedimentos fsicos que nos cercam. Suponhamos que eu
gostasse dele e imaginemos que eu realmente quisesse
namor-lo. Como isso se daria? Certamente no seria nada
normal. Levei em conta que estou condenada a passar a vida
inteira sozinha, ponderei que Ncolas pudesse me dar uma
lembrana da vida afectiva que deixei no passado. Mas preferi
e prefiro ficar s. Digo que namorar Ncolas  como me mudar
para Marte. Ora, o que  que voc faz quando namora? Caminha
de mos dadas, abraa, beija, faz amor, conversa, dana...
Absolutamente nada disso eu fao, e no vai ser Ncolas quem
vai me abraar, numa cadeira de rodas... Ele, que mal consegue
me cumprimentar.
           No me encontro em situao de seleccionar as
pessoas com quem me relacionar. Racionalmente eu sei disso,
mas, instintivamente, no. Escolho beleza fsica, atraco,
charme, simpatia, autonomia, religio... E mesmo que exista na
Terra um homem que tenha o mau gosto de se interessar por mim
neste estado, e passe na minha seleco, meu senso crtico me
poupa do ridculo. Seria segundo o meu critrio de seleco
que eu agiria se nunca tivesse sofrido um AVC. Hoje, esse
assunto est encerrado; mas, se eu penso: "A est um homem
bonito!",  porque ele realmente  bonito. E isso
independentemente da forma fsica em que me encontro.
           Ncolas, como j disse, mal consegue me
cumprimentar. E como se os impedimentos fsicos no bastassem,
h ainda uma agravante: ele  judeu. Jurei para mim mesma,
antes do AVC, que nunca mais me envolveria com um judeu. Por
qual motivo deveria esquecer esse juramento?
           Alm disso, conviver com uma pessoa numa cadeira de
rodas  me violentar. Eu ando numa porque sou obrigada. Apesar
de eu ter muito menos movimento que Ncolas e de ser muda, ele
no representa uma esperana de melhora para mim. Traz a idia
de que posso viver para sempre numa cadeira e nunca andar,
como ele. Coisa que me d depresso s de pensar.
           Sinto-me constrangida por ser vista na companhia de
outra cadeira de rodas. Se uma j chama a ateno das pessoas,
imagine duas... Ele no liga, pois sempre viveu assim. Mas eu
vivi minha vida toda olhando, com pesar, para as cadeiras de
rodas e pensando:
           "Coitado!". Agora  minha vez. Sei que quem me olha
pensa o mesmo. Quanto menos eu atrair a ateno, melhor...
           Acho que Freud explicaria isso... Quando eu sonho,
sempre me vejo como eu era, excepto quando sonho com Ncolas.
Nesses casos, estou exactamente como sou, sentada na cadeira,
muda, de cabelos pretos e curtos, sem movimento... Ncolas me
lembra algo que prefiro esquecer, quando  possvel...
           Alm de todos esses impedimentos, at arriscaria me
mudar para Marte, se eu estivesse a fim, mas no estou.

Dia 16 de novembro de 1996

Oi, minha amiga!

Eu penso assim: se eu estivesse num estdio de futebol, com
mais um milho de pessoas, e casse um raio, este cairia na
minha cabea. E o raio caiu.
            uma viso simplista da minha tragdia, mas
envolve muito sentimento. Eu deparei com um corpo que no pode
mais nada e cheio de complicaes. Em contraposio,
acompanha-o uma mente s, rpida em raciocnio, cheia de
sonhos, lembranas, amores e informaes. Um corpo
inutilizado, que no anda, no se mexe, nem fala, acompanhado
de uma conscincia observadora, aprendiz e crtica, que se
frustra e sofre com essa situao.
           Eu demoro um segundo para entender uma frase e um
minuto para transmitir o que penso. Alm disso, j escutei, um
bilho de vezes:
           - No posso te ouvir porque estou com pressa,
cansado, vendo TV, dirigindo, te dando comida...
           Como minha mente  s, di ouvir:
           - Mas ela me entende? Posso falar normalmente com
ela? Ela ouve? Voc sabe o que  alface? Voc sabe onde est o
teto? " so seus pais? Est aprendendo as letras?
           Parece mentira, mas varei noites estudando. Entrei
na USP uma das primeiras colocaes. Estava fazendo curso de
ps-graduao... Duvidam at que eu ouo! Quando no duvidam
do meu intelecto. Na Fundao Selma, se aparece um terapeuta
novo, um estagirio, algum que no se familiarizou ainda com
meu caso,  comum ouvir coisas como:
           - E a, Lu? Voc tem medo do cavalinho? Ele  alto,
n? Ih... Est solto! Est com medo?
           E eu falo comigo mesma:
           "Ser possvel que todo o mundo associa falta de
fala a retardo mental?!"
           Todas essas coisas trouxeram muita frustrao, mas
tambm me deram uma tolerncia que eu no tinha. Luto por dias
melhores e espero que um dia seja bvio que tive algum
acidente, mas que sou mentalmente capaz.
           Para lidar com minhas frustraes e minha nova
vida, fao terapia. E com ela consigo entender e aproveitar o
que me acontece. A minha psicloga clnica  da mesma
faculdade que Marina, minha fono, e como ela  competente!
           Eu sempre achei essa histria de anlise uma
bobagem, e sempre achei que a pessoa que precisasse de ajuda
psicolgica tinha que comear se ajudando, e no correr para
um div de um analista. Em parte eu tinha razo, pois
precisamos querer ultrapassar nossas dificuldades para poder
fazer terapia.
           No primeiro encontro com minha psicloga, encontrei
uma mulher bonita, morena, de olhos verdes, segura, tranquila
e sorridente. Eu estava vivendo momentos terrveis, sofrendo
com a reviravolta da minha vida e soletrei para ela,
descrente: "Eu sou muito infeliz. Voc pode me ajudar?"
           A resposta dela confirmou o que eu pensava:
           - Se voc quiser...
           No existe milagre. O analista ajuda a ns mesmos a
nos ajudarmos. E em algumas situaes estamos to aflitos, to
angustiados, to cheios de autopiedade que nos faz muito bem
ouvir opinies sensatas, racionais, que nos levam pela mo
novamente  superfcie e nos trazem um arzinho, nos fazendo
respirar e nos ensinando, de novo, a viver. s vezes uma vida
 impossvel sem essa ajuda.
           Minha psicloga percebeu o quanto  raro para mim
falar e ser ouvida. Ento ela senta-se do meu lado, eu abro
meu lap-top e vou contando como me sinto, quais as
novidades... Ela ouve tudo com uma santa pacincia, esperando
meu lento digitar concluir as palavras e no concluindo o que
quero dizer. Ela me permite lembrar como  bom expressar
sozinha um pensamento.
     s vezes levo uma carta, algo que eu tenha escrito e que
gostaria que ela comentasse. Este livro, por exemplo, ela
acompanhou, incentivou, opinou e me ajudou como pde. E me
dizia:
           - Eis o seu caminho...
           Outras vezes:
           - No tem nada que me agradecer, Luciana. Voc pode
contar com a ajuda das pessoas. A vida  assim.
           Ela me mostrou que ns podemos ajudar a quem nos
pede ajuda.
           Muitas vezes no concorda com o que digo e me
fornece sempre opinies sensatas, bem-humoradas e racionais.
Consigo visualiz-la lendo este livro e achando que em alguns
trechos me enchi de autopiedade. Eu sei. Mas com ela tenho
aprendido que isso no ajuda ningum.

Dia 18 de novembro de 1996

O dia 3 de outubro de 1995 estava prximo. Desde o comeo do
ano, eu tinha planeado cortar o cabelo para meu aniversrio.
Dias antes, at, eu falei para Bia que no queria presente,
queria que, perto do meu aniversrio, ela me levasse a um
cabeleireiro. Ela foi excepcional. Trouxe o cabeleireiro em
casa!
           Era a primeira vez que eu cortava aquele estranho
cabelo, depois de terem rapado o meu. Meu cabelo original
tinha mechas loiras naturais. Lembrando do meu antigo cabelo,
pedi a ele que fizesse mechas artificiais loiras naquele
cabelo preto. Ficou ridculo!
           Arrumei-me toda, mostrando meu novo corte
artificial, e fui carregada por Marcus at  sala. Convidei
todos os poucos amigos com quem eu ainda tinha contacto.
Poliana apareceu sem ser convidada e quase me estraga a noite.
Ela se fazia de amiga e estava toda prosa. Eu, inerte no meu
canto, pensava: "O que essa garota faz aqui? Ela nunca foi
minha amiga!"
           Depois que a gente sofre trgicas mudanas de
percurso na vida,  natural recorrer a misticismos, a
explicaes que vo alm do facto que nos modificou ou nos
tirou da rota. Durante um tempo cheguei a ir a alguns lugares,
fui levada a outros tantos, buscando luz e uma explicao para
a radical mudana de meu destino.
           Todos os mdiuns a que fui apontaram Poliana como
fonte de muita inveja, como uma espcie de detonadora de meu
acidente. Pessoalmente no acredito nisso, prefiro explicaes
cientficas. Mas de uma coisa tenho certeza: a presena dela
nunca me fez bem, ainda mais agora, comigo assim, passiva.
           Bem, voltando ao meu aniversrio, achei que meu
cabelo novo fosse provocar algum tipo de comentrio. Que nada!
S Ncolas reparou...
           Lucas chegou, cumprimentou-me pelo aniversrio e
disse:
           - Mandei fazer um anel para voc, mas no ficou
pronto.
           Esperei durante meses esse anel, que at agora no
veio.
           Cristian me cobriu de presentes. Mas ningum olhou
para mim com desejo, como eu estava acostumada.
           Do meu canto, eu observava minhas amigas jogando
charme para meus ex-namorados e paqueras. Eles eram meus, mas
o que eu podia fazer? Tomei conscincia de que os anos que
vivi ficaram mesmo no passado. Eu no era mais o que tinha
sido.
           No final da festa, Priscila se ajoelhou perto de
onde eu estava sentada e comeou a tentar explicar sua
ausncia, ou melhor, justificar. Falei o que  verdade: nenhum
problema era maior que o meu. Priscila disse que sempre
pensava em mim, mas os compromissos tomavam todo o seu tempo.
           Pude ver que era intil soletrar tudo o que eu
estava pensando.
           Sem fala, meu discurso no tinha fora. Ela rebatia
meus argumentos to lgicos dizendo que pensava em mim. Mas de
que me valem pensamentos? Queria que ela me desse companhia,
escutasse meus desabafos e compartilhasse minha dor...
           O tempo me mostrou que s a minha famlia,
independentemente de como eu me apresente, me ama de verdade e
sempre estar do meu lado. Quando digo minha famlia,
entenda-se meu pai, minha me e meu irmo.
           Achei que quem gostasse realmente de mim no me
abandonaria. Se voc procurar um sentimento meigo, cmplice,
consolador, terno, que permita um desabafo, que compartilhe
sua dor e que no sinta vergonha do que voc se tornou...
esquea! No  na minha vida que voc vai encontrar. A
amizade, de facto,  uma relao de reciprocidade, e no, como
eu pensava, uma relao de dar sem receber. E eu no ofereo
quase nada...
           Apesar disso tudo, tenho mudado meus conceitos
sobre amizade. Uma expresso actual desse conceito foi
realmente Stphanie. Em dezembro de 95, viajei com ela e uma
amiga sua para Porto Seguro, na Bahia. Fomos em excurso. Um
tipo de viagem nova para mim, rodeada de gente desconhecida.
           Embora no pudesse acompanhar todos os programas
agendados pelos guias e tivesse de ficar algumas partes do dia
restrita ao hotel, foi muito boa essa viagem: tomei sol,
banhos de piscina, ouvi msica, tirei fotografias, consegui
at bater uma foto - e no saiu tremida. Fiz compras, tomei
sorvete, suco de tomate. Coisas que adoro e algumas que eu no
fazia h muito tempo.
           Mas a coisa mais importante dessa viagem foi o
carinho de Stphanie para comigo. Tudo o que voc possa
imaginar, ela fez. At perder parte das frias para me fazer
companhia no hotel. Apesar de termos quase a mesma idade,
tenho-a como uma me. J o Natal de 95 eu passei na casa da
Bia, e, no Ano Novo, ela veio aqui em casa. No Rvellon, no
bebi como os outros, nem fiz grandes planos como no ano
anterior. S olhei meu brao direito e pensei com firmeza:
           "Neste ano de 96 que comea, quero que ele mexa!"
           Estamos j em novembro, e o danado do brao no se
mexeu ainda. Teimoso...
           Eu nem sei como vo ser o Natal e o Rvellon deste
ano. Tristes, sem a Bia...
           No comeo de 1996, mame e Marcus foram para o
Nordeste. Eu no quis ir. Preferi dar um pouco de descanso 
mame. Fiquei com papai e Stphanie. Passei o Carnaval na casa
dela, um pequeno prdio, muito distante da minha casa. O irmo
dela, bem bonito, foi quem me levou no colo degraus acima.
Naquela pequena casa, fui divinamente bem tratada por todos e
pela irm dela. A irm da Stphanie nada tem a ver com ela.
Stphanie  tmida, super sria e quieta. Sua irm  falante,
extrovertida e avoada. Nem fisicamente elas se parecem.
           Depois que mame voltou, conhecemos o Centro de
Vidas Independentes - CVI. No concordo com esse ttulo, mas
mesmo assim fui  fundao do CVI da qual Ncolas e Antnio
fazem parte.
            uma organizao repleta de deficientes, como eu,
e algumas pessoas normais". Sua finalidade  ajudar
deficientes, desde a indicao de clnicas de fisioterapia,
locais de aquisio de cadeiras de rodas, at casos como o
meu, que pensava reaver meu emprego. Antnio, presidente da
CVI, continua actuando na mesma empresa em que trabalhava
antes de ficar tetraplgico, e foi ele quem me indicou outra
pessoa do CVI: Ptolomeu.
           Ptolomeu  um senhor "normal", com uns 45 anos,
oriental, simptico e inteligente. Ele veio aqui em casa, fez
uma entrevista e pediu a papai que marcasse uma reunio com a
Colgate. Papai tentou, mas eles nem deram resposta. Coisa que
eu j previa.
           O planeta Terra, para o Ptolomeu e para o CVI,  um
mundo utpico. Infelizmente, no  nessa utopia que vivemos,
num mundo repleto de direitos, acessos para deficientes,
pessoas que no sofrem discriminao. Consideram que o
deficiente fsico  um ser competitivo no mercado de trabalho;
deveria ser, mas isso me soa como piada. Eu conheo bem a
poltica da Colgate: "Teve um AVC? Azar...". Nunca vou ser de
novo funcionria de l. Ela foi feita, como todas as outras
empresas, para empregados sadios e inteligentes, como eu era.
Ptolomeu acha que ter conscincia  uma grande coisa. No meu
caso, no adiantou muito ainda.
           Para mim, Vida Independente  um conceito e um nome
completamente inapropriados. Como se isso fosse possvel! A
Vida Independente prega a no-subordinao moral s eventuais
regras ditadoras da nossa vida. Ou seja, "no abaixar a
cabea" s leis, s regras, ou  vontade alheia e fazer valer
nossa vontade. Querendo dizer: "Somos deficientes, mas temos
vontade prpria".
           Eu no concordo com essa linha de raciocnio. Acho
que  mesmo um luxo sem fundamento. Quantas vezes, sendo
totalmente independentes e normais, temos que "nos dobrar" e
aceitar um monte de regras com as quais no concordamos?
Quando se passa de um modo de vida independente a um
dependente "abaixa-se a cabea" para tantas coisas que Vida
Independente passa a ser um dito sem propsito.

Dia 19 de novembro de 1996

Juliana,

Sem propsito quase ficou minha vida no dia 23 de maro...
Nesse dia mame recebeu um telefonema e pouco depois saiu com
papai, cheia de mistrio. Stphanie, que j no trabalhava
connosco, veio me ver e ficou comigo enquanto mame esteve
ausente. Quando mame chegou, estava com uma cara pssima. Eu
estava morta de preocupao e soletrei:
           F-A-L-A.
           E ela falou:
     - Sua amiga, Bia, sofreu um acidente e morreu.
           Comecei a rir, pois achei que era brincadeira. No
fazia nem uma semana que Bia tinha estado em casa, com um
namorado novo!
           Mame disse:
      -  srio, Ciana! Ela se foi...
           Comecei a chorar, imaginando um desastre de carro.
Depois eu soube que ela estava saindo de uma festa, com o
namorado, quando sofreram uma emboscada. Certamente, queriam
mat-lo, e ela foi assassinada porque estava com a pessoa
errada no lugar errado e na hora errada.
           Chorei muito, nem tive estrutura para ir ao
enterro. Na missa de stimo dia, no parei de chorar. Chorava
por ela e chorava por mim. Tinha saudades da Bia e saudades da
Luciana. Sua morte me fez reviver tudo o que perdi: a
capacidade de andar, falar, se mexer, fazer amor, nadar,
danar, dirigir, pedalar, fumar, assoprar, beber, comer, mexer
os msculos da boca, se coar, namorar, paquerar, fazer
amigos, mergulhar, prender a respirao, flutuar na gua,
escovar os dentes, se pentear, se limpar no banheiro, fazer um
curso, ter privacidade, o emprego, a beleza, os cabelos, a
maciez da pele, as curvas do corpo, a risada...
           A famlia da Bia  pequena. Ela era a nica filha.
Fora ela, tem o pai e a me. Ele  muito calmo, j a me 
muito optimista. Vive dizendo que vou andar... Como ela era
filha nica, tenho certeza de que os tiros fatais que ela
levou mataram muito dos pais dela. Eu sofro, choro e tenho
saudades. Mas me conforta saber que ela no est sofrendo e
que morreu to bonita quanto era em vida...
           No meu aniversrio, em outubro, no chamei ningum.
Veio quem quis. Poderia lamentar, pois poucos amigos vieram.
Mas vou somente constatar: vieram poucos, mas so amigos.
Lembraram-se de mim e vieram me dar os parabns. Acho que me
diverti mais que no ano anterior. Creio que eu criei menos
expectativas. Sabe, tomei conscincia de que mesmo que viessem
cem ex-namorados, nenhum, absolutamente nenhum me veria com
interesse, com desejo, como eu gostaria, O problema  que,
como eu j disse: eu sempre quis muito!
           Passei quase a noite toda conversando pelo
computador com Richard. Lucas apareceu, e eu escrevi:
           - Voc s aparece no meu aniversrio, e s fao
aniversrio uma vez por ano...
           Ele no comentou nada, apenas me disse:
           - Mandei fazer um anel para te dar, mas no ficou
pronto.
           Eu escrevi no computador:
           - Ento traga dois: o deste ano e o do aniversrio
passado.
           Ele ainda riu. Foi embora logo e at hoje no
voltou. E... Como se no bastasse subestimar meus sentimentos,
ainda subestimam minha memria.
           O ano foi passando... s vezes passo o dia
escrevendo.  verdade que ainda escrevo revoltadssima com o
que me aconteceu. Essa revolta vai e volta, e penso que nunca
vou me conformar. Acho que ningum pensa que isso possa lhe
acontecer. Eu mesma nunca, nunquinha, pensei em tal
possibilidade. Mas a verdade  que todos somos vulnerveis: um
mergulho mal dado, um atropelamento, uma queda de moto, um
acidente de carro, um tiro, um acidente vascular cerebral...
S ento nos damos conta de como somos frgeis, quebradios.
           Eu achava que andar, falar, beleza, juventude, no
eram coisas que se perdessem de uma hora para outra. A veio o
destino e mostrou que eu estava errada. Perdi isso e muito
mais.
           Depois de uma tragdia dessas, lembramos muito de
nossa vida passada, e a vm os pensamentos de dio, rancor,
amargura, frustraes... e o desejo de morte! Mas penso que,
uma vez que o mundo me deixou respirando, a sociedade vai ter
que me suportar assim. E eu deverei perdoar sua indiferena.
           Algumas coisas, no entanto, so imperdoveis: a
displicncia da ginecologista, as incapacidades e,
principalmente, as capacidades dos neurologistas, permitindo a
troca de uma vida saudvel por outra intil. So erros que sei
que morrero comigo. Quando Bia morreu, lembrei de todas essas
mgoas e pensei: "Por que no eu, no lugar dela?!"
           Hoje no penso mais assim. J no quero morrer.
Acho que devo ter uma misso especial por aqui, nessa Terra,
nesse mundo.
           No  fcil sobreviver com uma mente capaz num
corpo invlido. A mudana  lenta, mas no to lenta que eu
no possa perceb-la. Cansei de procurar os culpados aqui e
ali, em mim e nos outros. Cansei tambm de lembrar o que eu
tinha. Lembrei. Lembrei at  exausto. Reordenei as
lembranas e j posso fazer o inventrio do que restou.
           Tenho uma famlia esplndida. Tenho meus sentidos.
Tenho o melhor conforto possvel. Tenho alguns movimentos que
me permitem alguma comunicao. Tenho uma mente completamente
s. No  muito, comparado ao que eu tinha... Mas as
comparaes j cumpriram sua misso.  preciso dar um passo 
frente. Um passo primeiro, que v alm do AVC, e que me
permita escrever outras histrias.
           Sei que, se fosse comear a escrever hoje, este
Livro seria menos rancoroso. Talvez ainda no falasse com
doura, nem fosse capaz de fazer poesia. Mas posso ir dando a
isso uma forma outra. Posso escrever, e cantar, e cantar, e
cantar... ainda que seja s letra a Letra... a beleza de ser
uma eterna aprendiz.

Terceira Parte

APRENDENDO A VIVER

Dia 11 de dezembro de 1997

Juliana,
      
      Querida amiga! Lamento ter te deixado por um longo
perodo, mas estava muito, muito atarefada com minhas
coisinhas aqui... Na verdade, voltei s para contar umas
descobertas. Vim te dizer que no sou a mesma e que a Luciana,
aquela que comeou a contar suas aventuras reservadamente a
voc, no existe mais.
      Ela era to feliz, no  mesmo? Embora no soubesse.
Ningum sabe. Realmente s damos valor s coisas quando as
perdemos, e agora eu vejo quanto aquela Luciana saboreava a
vida e nem pensava nisso. Queria sempre mais e mais, em busca
da felicidade completa...
      Esta, que agora te escreve pela ltima vez, aprendeu, a
duras penas, que a felicidade que todos ns procuramos, pode
estar do nosso lado; na verdade pode estar onde ns quisermos
e, como j no ando mais por cus e terras, no falo mais
trocando experincias e jogando charme... Bem, tive que
procurar essa felicidade dentro dos limites da minha cama
hospitalar ou vizinha  minha cadeira de rodas. Ainda no a
encontrei, nem ao menos sei se a encontrarei algum dia, mas 
l que estou procurando.
      Fiquei na dvida, estes ltimos anos, procurando em mim
a antiga Luciana. Eu me olhava no espelho, comparava o meu
cabelo, fotos, a textura da minha pele, a pacincia, a
compreenso, o charme, a risada, e via que as mudanas se
operaram exteriormente e interiormente. Meus pais diziam e
dizem que eles tiveram duas filhas Luciana. Meus amigos, os
que sobraram, adoptam uma postura diferente como se nunca eu
tivesse tido intimidade com eles. Os antigos namorados ou se
distanciaram de uma vez e para sempre, ou encontraram uma
posio mais cmoda diante de mim. Virei um ser assexuado. Que
remdio ento? Fiz o que todos j fizeram: matar uma Luciana
que s vive em mim. Nos gostos, no passado, nos valores... S
eu parei no tempo; vivi os ltimos quatro anos de passado,
pensando: "Recordar  viver". Como me vi sem vida, em uma
cadeira de rodas, e como amo demais os 22 anos dourados que
construram minha vida, relutei em enterr-los. Reimaginei
diversas vezes uma mesma cena. Agora chega. Eu agradeo a
todos por terem me tratado diferente.
      Hoje entendo, por exemplo, a atitude da Priscila. Ela
fez de imediato o que estou fazendo agora. A indiferena dela,
que tanto decepcionou a antiga Luciana,  a mesma que tento
ver hoje com outros olhos. Aquela que era a melhor amiga da
Priscila acho que morre definitivamente agora, com o fim deste
livro. Muito embora o melhor dela j tivesse sido perdido em
94. Agora entendo com clareza o distanciamento de tantas
pessoas que diziam que me adoravam. No era a mim,  minha
essncia que adoravam. Adoravam uma casca de mulher: uma
garota bem-sucedida, bonita, falante, que imaginava que, com
tantos admiradores e amigos, jamais ficaria sozinha.
      Essa garota, muito revoltada, registrou aqui suas
impresses sobre tudo e todos e agora nos deixa de vez.. Ela
j havia morrido. Ela no viveria tetraplgica e muda. Ento,
simplesmente deixa de viver...
      Ju, entender essa quebra na minha vida no  to fcil.
Se voc pensar na pessoa fsica, eu sou a mesma pessoa. Bem
modificada,  verdade, mas a mesma. No entanto a maior mudana
ningum pode ver: est na alma.
      At pouco tempo carreguei comigo o amargo gosto do dio
a todos os neurologistas. Hoje penso diferente, mas ainda
considero imperdovel a conduta dos neurologistas que no
conseguiram salvar uma jovem bonita, alegre, socivel; e eu
continuei a existir pura e simplesmente para sustentar
amarguras, mgoas, perdas, lembranas... Quem pensou que a
salvou, errou brutalmente. A vida  muito, muito mais que
simplesmente respirar e pensar. E tem gente que nem isso
consegue! Para mim a vida  realmente maravilhosa... amar,
curtir, passear, sentir carinho... tudo  brbaro. Isso 
vida. At que ponto os mdicos podem bater no peito e dizer:
"Ns a salvamos!"?
      Eu, actualmente com 26 anos, nada tenho a ver com aquela
jovem que fez faculdade de Farmcia, que era sedutora, que fez
amor pela primeira vez com o Clber... Enfim, embora algumas
pessoas no gostem dessa quebra na minha vida, eis a soluo
mais lgica que encontrei para minha existncia. De verdade,
eu tambm no queria minha vida partida. Mas, logicamente,
ningum me toca igual, me olha igual, se dirige da mesma forma
que antes a mim... nem penso mais como aquela Luciana... Duas
coisas vou levar para sempre: as lembranas e os olhos
cor-de-mel que resistiram.
      Agora, como deficiente fsica, fico revoltada com os
outros deficientes fsicos que possuem o dom da palavra.
Gostaria tanto de falar e ser ouvida. Em vez disso, ouo as
inteis e irrelevantes reivindicaes que eles fazem. Dizem
que 10 por cento da populao  deficiente. De que tipo?
Mental, tetraplgicos, paraplgicos, tetrapartico, cegos,
mudos... ou tudo junto?
       bvio que as reivindicaes dos cegos ou dos
paraplgicos no me atendem. nibus com elevadores, telefones
pblicos adaptados, certamente essas coisas no servem a 10
por cento da populao. Precisamos brigar por coisas mais
abrangentes. Guias rebaixadas para cadeiras de rodas, rampas
nos locais como hospitais, clnicas, consultrios... Lgico
que o ideal  todo o mundo ter tudo... o ideal... Diante de
tantas necessidades, o Governo e a sociedade no podem se
esquecer, por exemplo, da educao e se preocupar com entradas
em cinemas para cadeiras de rodas, ou portinhas giratrias em
bancos... Ora, damos um jeito! Sinto-me muito mais ofendida em
ir ao dentista e precisar ser carregada at a cadeira de
atendimento do que pedir para que algum tire meu extracto
bancrio.
      Na minha vida actual, tenho me correspondido e
trabalhado pela Internet com Tula, minha editora, com
Hricles, com Eugnia, com Patrcia... com Lucas. Sempre
gostei de conversar com ele. Como disse acima, aquela Luciana
brava e revoltada com a passividade do Lucas deixou de
existir. A reaco que espervamos que Lucas adoptasse diante
do AVC no aconteceu nem nunca acontecer. Isso deixou a
Luciana arrasada. Durante anos ela esperou uma atitude mais
companheira, mais cmplice do Lucas. Uma palavra animadora,
solidria; mesmo que fosse mentira essa cumplicidade, mesmo
que ele sasse do quarto dela e fosse velejar ou encontrar a
namorada. Sozinha naquela cama hospitalar ela sofreria menos;
teria a iluso de no estar s. Ainda me enervo ao ouvir ele
dizer:
      -   Foi um azar, uma tragdia...
      Foi mesmo, no nego! Mas ser que foi s isso? Nem falo
em culpa, pois  claro que ningum queria que isso
acontecesse. Nem mesmo Gilda, a nica que poderia prever,
queria isso.
      Sempre achei que tomava a plula por ns dois, no 
mesmo? Tenho isso muito claro: se eu tenho culpa no que
aconteceu, logicamente Lucas tambm tem. E por que eu tive de
sustentar essa barra sozinha? Onde est o homem sensato por
quem a Luciana era apaixonada? Ele me deixou s nessa "barca
mais que furada". Enquanto tive de me redimir perante todos
pelas minhas mentiras, enquanto eu ia ao shopping de cadeira
de rodas, sentindo milhares de olhos inquisitrios; enquanto
eu ouvia uma cano, morta de vontade de cantar, ou enquanto
eu chorava, lamentando meu destino, eu imaginava Lucas rindo
numa festa, tomando um banho de piscina, fazendo amor com
algum...
      Fatalidade? Azar? Tragdia? Foi mesmo, j disse, no
nego! Mas foi extremamente fcil culpar o destino, dar de
ombros, e seguir a prpria vida, no? No espervamos muito, o
sofrimento fsico veio todo para mim, isso no podamos
dividir; mas seria muito bem-vinda uma atenuao para o meu
sofrimento psicolgico. E vindo de quem? Do Lucas!
      Um dia em 1995, me dei conta que eu tinha perdido todos
os atractivos que atraam facilmente os homens, que s havia
me sobrado a inteligncia. Logo que comecei a escrever,
escrevi cartas e mais cartas para Lucas; despejando amor,
relembrando nosso passado e querendo provar a mim mesma que
com inteligncia e carinho eu Conquistaria de novo o homem
mais especial que eu conhecia. De algum modo isso o comoveu.
Uma noite ele veio no meu quarto, perto da minha cama, e
perguntou:
      -   Posso te beijar?
      Fiz que sim e ofereci meus lbios. E isso foi tudo, mas
ele no beijou s meus lbios, beijou minha alma... Lembro-me
que fiquei sorrindo  toa por uns dois meses. Talvez o efeito
sobre mim seria outro, se Lucas pegasse na minha mo e
simplesmente dissesse:
      -   Lu, voc no est sozinha.
      Isso, com certeza, diminuiria minha sensao de vazio e
tristeza ao olhar um pedacinho do mundo pela janela do quarto,
imaginando a vida correndo solta l fora enquanto a solido me
invadia. Mas isso  passado. Lucas passou, a raiva do
distanciamento dele tambm passou... No sinto raiva quando
penso nele, sinto apenas uma ponta de amargura. Penso que a
Luciana se entregou a um relacionamento idealizado, muito
aqum do que ela merecia.
      Como disse, no sou mais aquela Luciana, uma jovem que
era tomada pelo desespero ao sentir o tempo passando e ver que
no podia fazer nada. Que olhava a janela e desejava sair por
a, andar, namorar, viajar... Hoje eu olho a janela e... olho
a janela. Para que ficar remoendo o que perdi? Vai me trazer
de volta o vio e a sade dos meus queridos 22 anos? Por que
pensar no que eu faria se amanh acordasse saudvel?
      Fiz muito isso estes anos todos. Fiquei horas num
gostoso deleite, imaginando como seria se eu achasse um gnio
da lmpada mgica ou se algum milagre me devolvesse a sade
to rpido quanto a perdi. Eu ficava imaginando que roupa eu
usaria, aonde iria, quem eu procuraria, o que eu diria... E,
depois do devaneio, eu me via na cama hospitalar, sem fala,
sem charme; e me dava conta de que esses encontros nunca
ocorreriam, pelo menos, nunca do jeito que imaginei. E chorei,
chorei muito, at minha alma ficar diferente e suportar mais
tranquilamente a dor que carrego.
      No, no me conformei. Nem tampouco perdoarei aqueles
que me condenaram a esta vida. Uma vida sem opo, s a de
viver o melhor possvel. E  isso que estou tentando fazer.
No posso dizer que sou feliz ainda, mas vou respirando e
mantendo o corao batendo. Nessa desgraa toda me sobraram
algumas poucas coisas, entre elas minha mente s. Graas a
ela, pude registrar aqui as idias que me assolavam. Digito
bem devagar,  facto. Mas, letra a letra, vou externando meus
pensamentos.
      A alma que escreveu este livro no  a mesma que agora
escreve estas palavras. Quem escreveu este livro foi a alma de
uma jovem que sonhava viver na Itlia, trabalhar como
farmacutica, casar, ter filhos... Mas, um dia, a vida me
mostrou que quem manda no destino, de verdade,  ela. E a vida
realmente  divina, maravilhosa... e extremamente traioeira.
Em fraces de segundo tudo muda. Meu destino parecia to
certo, ao alcance das minhas mos... Um AVC, e fim dos antigos
sonhos.
      Sempre me chamou a ateno a fragilidade do destino.
Ora, o que somos seno um monte de planos sedimentados no
nada? Eu vivia alegre e fagueira, deitava no travesseiro e
fazia planos e mais planos para um amanh que nunca veio. Eu
voava, voava por sobre empecilhos que impediam minha
realizao. De repente, ao amanhecer, me vi completamente sem
asas para continuar meus voos. E, junto com as asas, foram-se
os planos. Hoje aprendi a buscar realizaes menores e
descobri que pequenas alegrias tambm podem dar satisfao e
prazer. No me conformei, mas vivo melhor.
      Eu sofri muito com a comparao. Eu ia a uma danceteria
e lembrava que eu adorava danar; via um casal qualquer se
beijando e lembrava que nunca mais eu faria isso; olhava um
vestido bonito e me imaginava dentro dele. Foi assim com tudo
que eu via, desde o meu carro at um prato de comida. Vi-me
fazendo tudo o que antes para mim era banal, trivial. Mas
parei de comparar e comecei a valorizar pequenas vitrias.
      Um dia eu consegui ir de novo ao banheiro sem medo de
cair, em outro voltei a me alimentar sozinha, depois a beber
sozinha...
      Cada dia  um novo desafio, uma luta para vencer minhas
limitaes. No posso, a cada segundo que passa, lembrar as
coisas que eu fazia. Esses pensamentos me deixavam muito
infeliz e tudo que eu alcanava me parecia extremamente pouco.
E era mesmo, se comparado ao que eu tinha para construir em
minha vida anterior ao acidente. Por isso, agora no comparo
mais a minha vida de hoje  de outrora, mesmo porque  uma
comparao desigual. Vibro com as atuais conquistas porque
para mim, actualmente, so montanhas gigantes que consegui
escalar. Continuo lembrando bastante as coisas que eu fazia,
mas no comparo mais, s dou graas aos cus por ter tido a
oportunidade de ter vivido, de facto. 22 anos de vida.
      Percebe, minha querida amiga, como essa  uma postura
diferente? Procuro no ficar Lamentando o azar de ter perdido
tudo, pois penso que tive sorte de ter tido anos maravilhosos.
      A cada dia tenho mais certeza que quem no viveu ou vive
o que vivi, ou quem passa pela vida sem descobrir o sabor que
ela tem,  muito mais infeliz que aquele que perde a vida...
mesmo sem saber. Voc pode chamar esse pensamento de
conformista at, mas eu acho que essa  a chave para uma vida
melhor!
      Todos os dias, temos de agradecer o dom da vida, de ter
a mens sana in corpore sano, saborear os prazeres da vida,
desde comer uma boa picanha at fazer amor, conquistar
independncia, liberdade, realizar um projecto, sentir-se
amada...
      Eu at tenho alguns desses prazeres mas o importante 
que aprendi a valoriz-los. Descobri que voc no precisa
sofrer uma tragdia para saborear mais e mais a vida. Seja
esperto! Deseje mais do que voc tem, lute, conquiste, mas
antes valorize tudo o que voc j tem.
      Aprende-se muito numa situao como a minha. Angustia-me
a falta de fala, nunca me acostumarei a essa perda, mas sem
ela me vi obrigada a observar. E quanta coisa passa
despercebida sem uma observao atenta! Eu falava, conversava
muito, adorava jogar papo fora! Agora, alm de aprender a
observar, aprendi a usar as palavras quando necessrio e
descobri que o discurso escrito  muito mais forte que o
falado. Portanto, minha amiga, cuidado quando for escrever
algo, pois voc pode ofender mais do que gostaria, ir alm do
que esperariam. E esse tipo de linguagem no perdoa erros, "
preto no branco"!
      Nada justifica esta existncia besta, mas mesmo entregue
 vida, tetraplgica e muda, a gente tem de aprender a "tirar
leite de pedra" e a extrair algo de bom. Tudo para viver
melhor!
      Muitas coisas boas aconteceram nesta minha nova
existncia. Um apoio carinhoso vindo do Conselho de Farmcia
ou a interferncia do Ric, um gentil advogado amigo do Marcus,
naquela histria do meu seguro. Coisas como essas amenizam o
meu sofrimento por tudo que perdi e tornam os meus dias mais
leves.
      Teve um dos sentimentos que me castigou realmente
durante os ltimos anos. E no estou falando de amor, aquele
que se mostrou, durante esta trajectria, to frgil quanto a
minha beleza. Estou me referindo ao sentimento mais nobre do
ser humano: a amizade.
      Amizade... No aquela com esse sentido vulgar que todos
usam e que imaginei que existisse. Pensando segundo aquele
conceito, eu chamava de amigo todo rosto simptico que se
aproximava de mim, e por isso eu sofri, chorei, me senti
terrivelmente s e fiquei muito decepcionada com todos. O
tempo passou e vi o que eu no via. Hoje, meus poucos, mas
valiosos amigos provam que gostam mesmo de mim. No me baseio
em palavras, que me iludiram durante 22 anos, mas em atitudes.
So as atitudes que provam isso, no palavras ditas num
momento qualquer que tanto ouvi pela minha vida. E acreditei
muito nelas... Hoje um "Te adoro!" no me ilude mais: quem
adora no precisa falar, convive e mostra. No quero mais
estar cercada de gente aonde quer que eu v. Na realidade, a
Luciana fagueira e descolada na maioria das vezes estava
sozinha sem saber.
      Hoje, ela compreende melhor a vida, amando-a como a um
doce proibido, daqueles que a gente no vai mais comer.
Respeito esta vida, pois aprendi que ela possui trs
qualidades marcantes.
       bela, com um sabor indescritvel.
       traioeira, pois tudo pode mudar instantaneamente.
       forte, pois vejo seu poder teimosamente me trazer um
amanhecer. Um aps outro, dia aps dia. E, mesmo sem asas, ela
vai me ensinando a voar.

NOTA
      
           Apesar da histria de Luciana Scotti ser
verdadeira, todas as pessoas nela envolvida tiveram seus nomes
devidamente trocados, estando assim protegidas em suas
verdadeiras identidades.
      Os factos narrados e as opinies expressas neste livro
so de inteira responsabilidade da autora.

Fim
